Tríplice responsabilidade ambiental no agronegócio brasileiro

· · 8 min de leitura ·

A arquitetura da tríplice responsabilidade ambiental no ordenamento brasileiro

A proteção jurídica do meio ambiente no Brasil estrutura-se sobre um complexo sistema de responsabilização que abrange simultaneamente as esferas administrativa, civil e penal. Mas afinal, como se articula essa tríplice responsabilidade? E qual a natureza jurídica de cada uma dessas vertentes sancionatórias?

O debate ganha especial relevância quando observamos decisões como a proferida pelo Superior Tribunal de Justiça no HC 1046899/SP (2025/0417997-0), onde o Ministro Messod Azulay Neto analisou situação em que o paciente respondia criminalmente por suposta infração ambiental, mesmo após a celebração de Termo de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRA) na esfera administrativa. O caso evidencia a necessidade de compreendermos com precisão os contornos e limites de cada modalidade de responsabilização.

O marco normativo da proteção ambiental brasileira

A Lei 6.938/81 inaugurou no Brasil um sistema estruturado de proteção ambiental ao instituir a Política Nacional do Meio Ambiente. Já naquele momento histórico — sete anos antes da promulgação da Constituição de 1988 — o legislador estabeleceu como objetivo primordial a compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação ambiental (art. 4º, I), consagrando o princípio do desenvolvimento sustentável.

A Constituição Federal de 1988 consolidou e ampliou essa proteção. O artigo 225, § 3º, estabeleceu que “as condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”. Trata-se de norma aparentemente simples, mas que comporta interpretações complexas sobre a natureza e extensão de cada modalidade de responsabilização.

Como sustentado em Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Franco, 2026), a estrutura normativa da responsabilidade ambiental segue o padrão clássico: hipótese (situação abstrata prevista), mandamento (comando de dar, fazer ou não fazer) e sanção (consequência pelo descumprimento). Porém, na seara ambiental surge uma peculiaridade: a possibilidade de responsabilização mesmo sem violação de preceito normativo, quando a lei determina que a mera utilização de recursos naturais ou a causação de danos ambientais, ainda que lícitos, geram o dever de compensação ou reparação.

As dimensões sancionatória e reparatória da responsabilidade ambiental

Ferramenta gratuita

Consulte autuações e embargos ambientais no mapa

Pesquise por CPF, CNPJ ou código CAR e veja multas, embargos e desmatamento na sua propriedade.

Acessar geoportal

O sistema constitucional brasileiro estabelece duas categorias distintas de responsabilização ambiental. A primeira possui caráter sancionatório, destinada aos infratores que praticam ilícitos administrativos ou penais. A segunda tem natureza reparatória, voltada àqueles que causam danos ambientais, mesmo que de forma lícita.

Na dimensão sancionatória, a responsabilidade subdivide-se em administrativa e penal. Ambas integram o direito sancionador e exigem a demonstração dos elementos do ilícito, especialmente a voluntariedade acompanhada de dolo ou culpa. A Lei 9.605/98 positivou expressamente essa exigência no artigo 72, § 3º, ao tratar da multa simples administrativa.

Sustenta-se que o princípio da culpabilidade, de matriz constitucional, aplica-se necessariamente às sanções administrativas ambientais. Se até mesmo a imposição de multa penal — cujos valores são significativamente inferiores aos das multas administrativas ambientais — exige a demonstração de culpabilidade, não há fundamento jurídico para afastar tal exigência na esfera administrativa. E a distinção entre ilícitos administrativos e penais reside essencialmente na autoridade competente para aplicar a sanção, sendo os princípios fundamentais aplicáveis a ambos.

O dever propter rem e a responsabilidade civil ambiental

Na dimensão reparatória encontramos duas figuras jurídicas distintas. Primeiro, o dever propter rem, que independe da prática de ilícito. Nesta hipótese, ocorrido um dano ambiental — seja natural, acidental ou provocado — o proprietário do imóvel deve adotar medidas para restaurar o status quo ante. Trata-se de obrigação que acompanha a coisa, decorrente da função socioambiental da propriedade.

A segunda figura é a responsabilidade civil propriamente dita, instituto jurídico distinto do dever propter rem. Quando um ilícito resulta em degradação ambiental, pode surgir, além da obrigação propter rem, o dever de indenizar o meio ambiente e a coletividade. Para tanto, devem estar presentes os elementos clássicos da responsabilização civil: conduta, nexo causal e resultado danoso, prescindindo-se da demonstração de dolo ou culpa (responsabilidade objetiva).

Tomemos um exemplo prático: a instalação de uma usina hidrelétrica inevitavelmente causará impactos ambientais, incluindo a morte de peixes. Mas esse dano é conhecido e aceito pelo ordenamento jurídico. O empreendimento, contudo, estará sujeito ao cumprimento de condicionantes impostas pelo órgão ambiental, que incluem tanto ações diretamente relacionadas ao impacto quanto medidas compensatórias. O descumprimento dessas condicionantes pode ensejar responsabilização administrativa, civil e, eventualmente, penal.

A independência das instâncias e seus limites práticos

O princípio da independência das instâncias estabelece que a apuração de responsabilidades administrativa, civil e penal pode ocorrer simultaneamente. A Lei 9.605/98, em seu artigo 3º, repetiu o comando constitucional e disciplinou tanto os crimes quanto as infrações administrativas ambientais. No âmbito administrativo, aplicam-se ainda a Lei 9.784/99 (processo administrativo federal) e o Decreto 6.514/08 (procedimento sancionador ambiental).

Entretanto, a independência das instâncias não é absoluta. O caso analisado pelo STJ no HC 1046899/SP ilustra essa limitação. O paciente respondia criminalmente por suposta prática do crime previsto no artigo 38 da Lei 9.605/98, mesmo após a assinatura de Termo de Compromisso de Recuperação Ambiental (TCRA) integralmente cumprido na esfera administrativa.

A defesa sustentou a ocorrência de bis in idem, argumentando que não haveria justa causa para a ação penal diante da solução administrativa do conflito. Ademais, destacou que o paciente não detinha poder decisório sobre o manejo da vegetação, sendo mero terceirizado executando tarefas operacionais, o que evidenciaria a necessidade de individualização da conduta e responsabilização subjetiva.

Embora o STJ não tenha conhecido do habeas corpus por questões processuais, o caso revela tensão importante: até que ponto a celebração e cumprimento de compromissos administrativos afetam a persecução penal? A jurisprudência tem admitido que, em determinadas circunstâncias, a solução consensual administrativa pode influenciar a análise da justa causa para a ação penal, especialmente quando demonstrada a insignificância da conduta ou a ausência de dolo.

A responsabilização de pessoas jurídicas e seus dirigentes

A Constituição Federal expressamente prevê a responsabilização de pessoas físicas e jurídicas por danos ambientais. Mas como individualizar condutas em estruturas empresariais complexas?

No caso do HC 1046899/SP, o paciente alegou não ser empregado da empresa autuada (JAB), limitando-se a atuar como representante formal em cumprimento de atribuições estabelecidas pela administradora. Argumentou ainda que o Condomínio Master do Camburizinho III havia obtido regularmente autorização da Prefeitura Municipal de São Sebastião para poda de condução da vegetação nativa, não se tratando de supressão irregular.

A questão evidencia a necessidade de criteriosa análise da participação individual em infrações ambientais praticadas no contexto empresarial. A responsabilização penal e administrativa exige demonstração clara do elemento subjetivo e da participação efetiva na conduta ilícita; não basta a mera condição formal de representante ou preposto.

Implicações práticas para o produtor rural

Diante desse panorama normativo e jurisprudencial, o produtor rural deve adotar estratégias preventivas concretas. Primeiro, documentar meticulosamente todas as autorizações ambientais obtidas, mantendo arquivo organizado de licenças, autorizações de supressão vegetal, outorgas de uso de água e demais atos administrativos.

Segundo, ao celebrar Termos de Compromisso ou de Ajustamento de Conduta, assegurar-se de que abranjam expressamente todas as questões ambientais pendentes, evitando lacunas que possam ensejar futura responsabilização em outras esferas. Conforme a doutrina especializada aponta (Franco, 2026), a celebração de compromissos administrativos pode constituir importante elemento de defesa em eventual ação penal, demonstrando ausência de dolo e boa-fé do agente.

Terceiro, em propriedades exploradas por múltiplos agentes (arrendatários, parceiros, empregados), estabelecer contratualmente com precisão as responsabilidades ambientais de cada parte. A individualização clara de obrigações facilita eventual defesa administrativa ou judicial.

Por fim, manter assessoria jurídica especializada para acompanhamento preventivo das questões ambientais. A complexidade do sistema de tríplice responsabilização exige conhecimento técnico aprofundado para navegação segura entre as múltiplas exigências normativas. E a prevenção sempre será menos onerosa que a reparação ou defesa em processos sancionadores.

A tríplice responsabilidade ambiental constitui realidade inafastável no agronegócio brasileiro. Compreender sua arquitetura jurídica e aplicar medidas preventivas adequadas não é apenas recomendável — é condição essencial para a sustentabilidade jurídica e econômica da atividade rural.

Perguntas Frequentes

O que é a tríplice responsabilidade ambiental?
A tríplice responsabilidade ambiental é o sistema brasileiro que permite aplicar simultaneamente sanções administrativas, civis e penais por infrações ambientais. Prevista no artigo 225, § 3º da Constituição Federal, ela estabelece que as condutas lesivas ao meio ambiente sujeitam os infratores a todas essas modalidades de responsabilização, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.
As três esferas de responsabilidade ambiental são independentes?
Sim, as responsabilidades administrativa, civil e penal são independentes entre si, podendo ser aplicadas simultaneamente pela mesma infração ambiental. Contudo, essa independência não é absoluta, pois a celebração e cumprimento de termos de compromisso administrativos podem influenciar a análise da justa causa para ação penal, especialmente quando há insignificância da conduta.
Qual a diferença entre responsabilidade sancionatória e reparatória ambiental?
A responsabilidade sancionatória (administrativa e penal) pune infrações ambientais e exige demonstração de dolo ou culpa do infrator. Já a responsabilidade reparatória (civil e dever propter rem) visa restaurar o dano ambiental, independendo da prática de ilícito, bastando a causação do dano para gerar o dever de reparação ao proprietário do imóvel.
Como funciona o dever propter rem na responsabilidade ambiental?
O dever propter rem é uma obrigação que acompanha a propriedade, independente da prática de ilícito ambiental. Quando ocorre dano ambiental no imóvel - seja natural, acidental ou provocado - o proprietário deve adotar medidas para restaurar o status quo ante, decorrente da função socioambiental da propriedade prevista constitucionalmente.
A pessoa jurídica pode ser responsabilizada penalmente por crime ambiental?
Sim, a Constituição Federal prevê expressamente a responsabilização penal de pessoas jurídicas por crimes ambientais no artigo 225, § 3º. A Lei 9.605/98 regulamentou essa responsabilização, estabelecendo que ela não exclui a responsabilidade individual dos dirigentes, desde que demonstrada a participação específica de cada um na infração ambiental cometida.

Gostou do artigo?

Receba conteúdos como este diretamente no seu e-mail.

Precisa de ajuda com seu caso ambiental? O Diovane Franco Advogados é referência nacional em Direito Ambiental, com mais de 1.000 casos atendidos em todo o Brasil.

Diovane Franco
Sobre o autor Diovane Franco

Advogado. Especialista em Direito Administrativo. Mestrando pela UNIVALI. Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025). Sócio fundador do Diovane Franco Advogados.

Fale conosco