Decisão Comentada do Dia

Edital irregular leva juiz de Cuiabá a suspender multa e embargo da SEMA-MT

11/03/2026 TJMT Processo: 1006168-84.2026.8.11.0041 7 min de leitura Atualizado em 15/10/2026
Diovane Franco
Comentário por Diovane Franco Especialista em Direito Administrativo · Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025) e coautor de Cadastro Ambiental Rural: direito, prática e tecnologia (Thomson Reuters, 2026)

A fragilidade procedimental no processo administrativo ambiental

A decisão proferida pela Vara Especializada do Meio Ambiente de Cuiabá no processo 1006168-84.2026.8.11.0041 traz à tona uma questão recorrente no direito administrativo sancionador ambiental: a validade das notificações processuais e seu impacto direto sobre o exercício do contraditório e da ampla defesa. O caso em análise revela como vícios procedimentais aparentemente simples podem comprometer todo o processo administrativo e levar à suspensão judicial da autuação e do embargo.

O produtor rural foi autuado pela SEMA/MT em agosto de 2019 por suposto funcionamento irregular de atividade de garimpo aurífero, com aplicação de multa e embargo. Contudo, a carta com aviso de recebimento para apresentação de defesa administrativa foi enviada a endereço diverso do autuado, e o órgão passou à notificação por edital, embora o endereço do autor constasse do próprio auto de infração. Essa circunstância fundamentou a concessão da tutela de urgência.

O princípio da busca exaustiva do autuado

A questão central reside na interpretação do artigo 24 do Decreto Estadual 1.436/2022, que estabelece o dever do órgão ambiental de realizar novas diligências quando a citação postal retorna sem cumprimento. Esta norma não é mero capricho burocrático, mas decorrência lógica dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa (art. 5º, LV, da CF/88).

A jurisprudência citada pelo magistrado é cristalina ao estabelecer que a notificação editalícia constitui medida excepcional, somente admissível após o esgotamento das tentativas de localização pessoal. No precedente do TJMT (N.U 1041500-75.2025.8.11.0000), as Câmaras Cíveis Reunidas fixaram tese inequívoca: ‘A ausência de diligências mínimas para localização do autuado, além de única tentativa de notificação postal frustrada, invalida a citação por edital em processo administrativo sancionador ambiental.’

Entendemos que esta orientação se alinha perfeitamente com os postulados do Estado Democrático de Direito. O poder sancionador da Administração, especialmente quando exercido com a gravidade das sanções ambientais, não pode prescindir das garantias processuais mínimas. A facilidade com que o órgão ambiental recorreu ao edital, depois de enviar a carta a endereço diverso do autuado e embora o endereço correto constasse do próprio auto, revela descaso com o direito de defesa do administrado.

A natureza peculiar do embargo ambiental

Um aspecto que merece análise mais detida é a concessão de tutela de urgência para suspender não apenas o auto de infração, mas também o termo de embargo. Como sustentamos em Embargos Ambientais em Áreas Rurais (2026, p. 87-92), o embargo possui natureza jurídica híbrida, exercendo simultaneamente funções repressiva, cautelar-reparatória e sancionatória. Esta tríplice função torna sua suspensão judicial uma medida excepcional, que exige demonstração robusta de ilegalidade ou desproporcionalidade.

No caso concreto, a suspensão do embargo se justifica pela contaminação do vício procedimental. Se o processo administrativo que fundamentou tanto a multa quanto o embargo padece de nulidade insanável pela ausência de notificação válida, todos os atos dele decorrentes ficam maculados. Aplicar-se-ia aqui a teoria dos frutos da árvore envenenada, transposta do direito processual penal para o administrativo sancionador.

Ademais, um embargo imposto em 2019 e ainda em vigor em 2026 põe em discussão o princípio da razoável duração do processo (art. 5º, LXXVIII, da CF/88). Como abordamos em nossa obra (2026, p. 234-237), a manutenção de embargo por prazo indefinido configura excesso que autoriza a intervenção judicial.

Os efeitos econômicos do embargo e a urgência da tutela

O magistrado reconheceu acertadamente o periculum in mora na inscrição em dívida ativa, que, conforme alegado na inicial, impede o produtor de negociar seu gado. Esta constatação dialoga com nossa análise sobre os efeitos expansivos do embargo ambiental, que transcendem a mera restrição de uso da área.

A inscrição em dívida ativa estadual gera uma cadeia de consequências que pode inviabilizar a atividade produtiva: restrições cadastrais, impedimento de obtenção de certidões negativas, impossibilidade de acesso a financiamentos rurais e, no caso específico, segundo o autor, impedimento de negociar o gado. Estes efeitos extradominiais do embargo funcionam, na prática, como verdadeira sanção política que pode levar o produtor à ruína econômica antes mesmo do julgamento definitivo da questão.

A Resolução CMN 4.901/2021 e a Resolução BACEN 4.327/2014 estabelecem consultas obrigatórias às listas de embargos do IBAMA e órgãos estaduais para concessão de crédito rural. Assim, mesmo que o produtor não esteja desenvolvendo atividades na área embargada, sofre restrições creditícias que afetam toda sua propriedade e operação agropecuária.

A prescrição intercorrente como fundamento adicional

Embora a decisão não tenha se debruçado sobre este ponto, o autor alegou a ocorrência de prescrição intercorrente no processo administrativo. Esta questão merece reflexão, pois o processo iniciado em 2019 aparentemente permaneceu paralisado por período considerável.

A nosso ver, conforme defendemos em Embargos Ambientais em Áreas Rurais (2026, p. 189-195), a prescrição intercorrente é plenamente aplicável aos processos administrativos ambientais. O artigo 1º da Lei 9.873/99 estabelece o prazo prescricional de cinco anos para o exercício da ação punitiva pela Administração Pública Federal, aplicável subsidiariamente aos estados. A paralisação do processo por prazo superior a três anos (art. 1º, §1º), sem justificativa plausível, configura prescrição intercorrente que fulmina a pretensão punitiva estatal.

Implicações práticas para o produtor rural

A decisão em comento oferece importantes diretrizes para a defesa de produtores rurais em situações similares. Primeiro, demonstra a importância de questionar judicialmente vícios procedimentais nos processos administrativos ambientais, especialmente quanto às notificações. Segundo, evidencia que a tutela de urgência é instrumento eficaz para suspender os efeitos deletérios de embargos e multas enquanto se discute sua legalidade.

Recomendamos aos produtores rurais que mantenham seus dados cadastrais atualizados junto aos órgãos ambientais e que documentem todas as tentativas de comunicação processual. Em caso de autuação, é fundamental protocolar tempestivamente a defesa administrativa, ainda que por meio eletrônico ou presencial na sede do órgão, resguardando prova do protocolo.

Quando constatados vícios procedimentais como notificação irregular, prescrição ou desproporcionalidade do embargo, a via judicial mostra-se não apenas legítima, mas necessária para resguardar o direito ao devido processo legal e evitar os graves prejuízos econômicos decorrentes das restrições creditícias e comerciais.

Conclusão

A decisão da Vara Especializada do Meio Ambiente de Cuiabá reafirma que o poder sancionador ambiental do Estado, por mais relevante que seja para a proteção ecológica, não pode atropelar garantias processuais básicas. A notificação válida não é mera formalidade, mas pressuposto essencial para o exercício do contraditório e da ampla defesa.

O caso também ilustra como os efeitos do embargo ambiental extrapolam a esfera ambiental e atingem toda a estrutura econômica do produtor rural, justificando a concessão de tutelas de urgência quando demonstrados vícios procedimentais graves. A suspensão cautelar do embargo, embora excepcional, mostra-se adequada quando o processo administrativo que o fundamentou padece de nulidades insanáveis.

Por fim, a decisão, ainda provisória, aplica em primeiro grau a orientação do TJMT de que a Administração Pública ambiental deve esgotar as tentativas de notificação pessoal antes de recorrer ao edital, sob pena de nulidade do processo administrativo sancionador.

Perguntas Frequentes

Quando a notificação por edital é válida no processo administrativo ambiental?
A notificação por edital só é válida após o esgotamento das tentativas de localização pessoal do autuado. Uma única tentativa postal frustrada não autoriza a citação editalícia, conforme jurisprudência do TJMT.
O que acontece se a notificação por edital for irregular?
A notificação irregular contamina todo o processo administrativo, podendo resultar na anulação do auto de infração e do embargo ambiental. Todos os atos decorrentes ficam maculados pelo vício procedimental.
É possível suspender embargo ambiental por vício de notificação?
Sim, é possível obter tutela de urgência para suspender embargo quando demonstrado vício grave na notificação. A ausência de contraditório válido justifica a suspensão cautelar dos efeitos do embargo.
Quais os efeitos econômicos do embargo ambiental irregular?
O embargo gera restrições financeiras, impedindo comercialização de gado, acesso a financiamentos rurais e obtenção de certidões negativas. Estes efeitos podem inviabilizar toda a atividade produtiva do proprietário rural.
O produtor rural pode questionar judicialmente a notificação irregular?
Sim, o produtor pode e deve questionar judicialmente vícios procedimentais como notificação irregular. A ação judicial é necessária para resguardar o direito ao devido processo legal e evitar prejuízos econômicos graves.

Este comentário utiliza conceitos do livro Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025), de autoria de Diovane Franco. Saiba mais →

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Diovane Franco
Sobre o autor Diovane Franco

Advogado (OAB/MT 29.530). Especialista em Direito Administrativo. Mestrando em Ciência Jurídica pela UNIVALI. Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025) e coautor de Cadastro Ambiental Rural: direito, prática e tecnologia (Thomson Reuters, 2026). Sócio fundador do Diovane Franco Advogados. Atuou na defesa vencedora do IRDR 94 do TRF1.

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