Jurisprudência Ambiental

STJ aplica Tema 1.010 a curso d’água canalizado em área urbana consolidada

11/06/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0900688-47.2018.8.24.0038

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

O Ministério Público do Estado de Santa Catarina ajuizou Ação Civil Pública contra dois particulares e o Município de Joinville, buscando a reparação de áreas degradadas e o pagamento de indenização por dano moral coletivo em razão de terraplanagem realizada em área com curso d'água tubulado. O caso envolve imóvel localizado em área urbana consolidada do município de Joinville, onde obras de terraplanagem foram executadas nas proximidades de um corpo hídrico canalizado, levantando a discussão sobre a incidência das faixas de Área de Preservação Permanente previstas no Código Florestal.

Questão jurídica

A questão jurídica central consiste em definir se a canalização de curso d'água em área urbana consolidada afasta a incidência das faixas de Área de Preservação Permanente estabelecidas pelo Código Florestal, e se a legislação municipal de Joinville pode flexibilizar os parâmetros federais de proteção das margens de corpos hídricos. Discute-se, ainda, se o diagnóstico socioambiental elaborado por ente privado e homologado por decreto municipal constitui fundamento válido para a regularização de intervenções em APPs urbanas, sem ofensa aos princípios da impessoalidade, moralidade e da vedação ao retrocesso ambiental.

Resultado

O Tribunal de Justiça de Santa Catarina, por unanimidade, negou provimento ao recurso do Ministério Público, mantendo a sentença de improcedência ao fundamento de que o imóvel está localizado em área urbana consolidada com curso d'água tubulado, cuja função ecológica encontra-se esvaziada, tornando aplicável a legislação municipal regularizatória. O Ministério Público interpôs Recurso Especial, e a Ministra Relatora Regina Helena Costa, em decisão monocrática, deu-lhe parcial provimento e devolveu os autos ao TJSC para novo exame à luz do art. 4º do Código Florestal e do Tema Repetitivo n. 1.010, aplicável também a curso d'água canalizado.

Contexto do julgamento

O caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça por meio de Recurso Especial interposto pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina (REsp 2273924/SC), após o Tribunal de Justiça catarinense manter, por unanimidade, a sentença de improcedência de Ação Civil Pública que buscava a reparação de áreas supostamente degradadas por obras de terraplanagem e a condenação dos réus ao pagamento de indenização por dano moral coletivo. Os réus, dois particulares, realizaram intervenções em imóvel localizado no município de Joinville, em área classificada como urbana consolidada, nas proximidades de um curso d’água que se encontra tubulado — isto é, canalizado sob a superfície do solo —, situação bastante recorrente nas zonas urbanas densamente ocupadas do sul do Brasil.

O TJSC fundamentou o desprovimento do recurso ministerial em três pilares principais: a inexistência de dano ambiental demonstrado nos autos; a validade jurídica do diagnóstico socioambiental da microbacia hidrográfica elaborado por ente privado e posteriormente homologado pelo Decreto Municipal n. 55.963/2023, editado com base na Lei Complementar Municipal n. 601/2022; e a inaplicabilidade do Tema n. 1.010 do STJ ao caso concreto, diante da incidência da legislação municipal específica. O tribunal estadual também rejeitou a tese de inconstitucionalidade da norma local por suposta ofensa ao princípio da vedação ao retrocesso, ao fundamento de que a norma municipal visa regularizar situações já consolidadas em razão do esvaziamento da função ecológica do curso d’água.

Inconformado, o Ministério Público estadual apontou violação a múltiplos dispositivos legais federais, sustentando, em síntese, que a canalização de um corpo hídrico não tem o condão de extinguir a Área de Preservação Permanente marginal prevista no Código Florestal, e que a legislação municipal joinvillense teria relativizado indevidamente a proteção ambiental federal ao estabelecer diretrizes próprias para a delimitação das faixas de APP em área urbana consolidada. O Ministério Público Federal manifestou-se como custos iuris, e a Ministra Relatora Regina Helena Costa, em decisão monocrática, deu parcial provimento ao Recurso Especial e determinou o retorno dos autos ao TJSC, para que a controvérsia seja reexaminada à luz do art. 4º da Lei n. 12.651/2012 e do Tema Repetitivo n. 1.010.

Fundamentos da decisão

O debate jurídico central deste julgamento orbita em torno da interpretação do art. 4º, inciso I, alínea ‘a’, da Lei n. 12.651/2012 — o Código Florestal —, que define as faixas marginais de cursos d’água naturais como Áreas de Preservação Permanente, e dos arts. 64 e 65 do mesmo diploma, que tratam especificamente das APPs em áreas urbanas consolidadas, permitindo a regularização fundiária em certas condições. O Ministério Público sustentou que a norma federal não autoriza a supressão das APPs pelo simples fato de o curso d’água estar canalizado, e a Relatora acolheu o argumento, porque a tese do Tema 1.010 alcança «qualquer curso d’água» e, conforme precedente que ela citou, ambas as Turmas da Primeira Seção do STJ a aplicam a cursos d’água canalizados, tubulados ou retificados, já que a intervenção humana não desnatura o caráter de área de proteção. A correta compreensão do alcance dessas normas é fundamental para a gestão de conflitos entre o direito à moradia, o desenvolvimento urbano e a proteção ambiental — tema que também se relaciona diretamente com os instrumentos de fiscalização, como o embargo ambiental, frequentemente utilizado em casos de intervenção irregular em APPs.

Outro ponto de elevada relevância é a discussão sobre a validade e os limites da Lei n. 14.285/2021, que alterou o Código Florestal para permitir que leis municipais estabeleçam faixas de APP diferenciadas ao longo de cursos d’água em áreas urbanas consolidadas, desde que observados determinados requisitos. O Ministério Público argumenta que a norma municipal joinvillense não cumpre os pressupostos exigidos pela legislação federal para justificar a flexibilização, ao passo que o TJSC entendeu pela plena aplicabilidade da legislação local, considerando a homologação do diagnóstico socioambiental pelos órgãos ambientais competentes como suficiente para conferir legitimidade ao regramento municipal. A questão sobre se um diagnóstico elaborado por ente privado e submetido à aprovação estatal equivale ao exercício do poder de polícia ambiental — ou se representa mera delegação irregular de função pública — foi resolvida pelo TJSC a favor do diagnóstico, mas a Relatora não a enfrentou, porque considerou que o acórdão contrariou o Tema 1.010 ao afastar o Código Florestal para curso d’água canalizado e devolveu o caso ao tribunal estadual.

Sob o prisma do direito processual, o Ministério Público alegou omissão do acórdão estadual quanto à análise do art. 11, § 2º, da Lei n. 13.465/2017 — que trata da regularização fundiária urbana — e do art. 4º, inciso III-B, da Lei n. 6.766/1979 — relativo ao parcelamento do solo urbano —, em ofensa ao art. 1.022, II, do CPC/2015. A Relatora afastou o vício, porque, à luz do art. 489, § 1º, IV, do mesmo Código, o tribunal estadual examinou a controvérsia de forma satisfatória e havia apenas discordância do recorrente com o resultado.

Alcance da decisão

A Relatora decidiu monocraticamente, sem firmar tese nova, e reafirmou que o Tema 1.010 se aplica também a cursos d’água canalizados, o que interessa diretamente a municípios que editaram leis locais com base na Lei n. 14.285/2021 para regularizar situações consolidadas às margens desses cursos d’água. O TJSC invocou precedentes próprios em casos praticamente idênticos envolvendo o município de Joinville, o que mostra que a controvérsia é recorrente na região, e a decisão do STJ indica que, nesses casos, a legislação municipal não afasta as faixas do Código Florestal. A Ministra Relatora Regina Helena Costa citou precedente da Segunda Turma segundo o qual a legislação federal estabelece patamar mínimo de proteção às margens de cursos d’água, cabendo à norma local apenas ampliar ou manter esse nível de tutela, vedada a redução por normas municipais menos rigorosas.

Vale destacar que o Tema n. 1.010 do STJ, mencionado no acórdão do TJSC como inaplicável ao caso, versa sobre a extensão da faixa não edificável às margens de cursos d’água em área urbana consolidada, e fixou que, na vigência da Lei n. 12.651/2012, ela deve respeitar as larguras do art. 4º, caput, inciso I, alíneas a a e, do Código Florestal. A Relatora concluiu que o acórdão do TJSC está em confronto com esse entendimento e determinou que o tribunal estadual reexamine a controvérsia pelos parâmetros do art. 4º da Lei n. 12.651/2012 e do Tema 1.010. A questão do ônus da prova, que o TJSC resolveu pela regra geral do art. 373 do CPC, afastando a inversão automática com base na Súmula n. 618 do STJ, não foi objeto do Recurso Especial.

Perguntas Frequentes

A canalização de curso d'água extingue a área de preservação permanente?
Não, a canalização não extingue automaticamente a APP. O Código Florestal mantém a proteção das faixas marginais mesmo com cursos d'água canalizados, pois a função ambiental persiste para prevenir inundações e proteger o ciclo hidrológico urbano.
Municípios podem definir faixas de APP diferentes do Código Florestal?
Sim, desde 2021 a Lei 14.285 permite que municípios estabeleçam faixas diferenciadas em áreas urbanas consolidadas. Porém, devem cumprir requisitos específicos como diagnóstico socioambiental aprovado pelos órgãos competentes e observar os padrões mínimos de proteção federal.
O que caracteriza área urbana consolidada para fins de APP?
Área urbana consolidada é aquela com ocupação antrópica preexistente ao atual marco legal, com densidade demográfica superior a 50 habitantes por hectare e malha viária implantada. O Código Florestal permite regularização fundiária nessas áreas mediante condições específicas.
Como funciona o diagnóstico socioambiental para APP urbana?
O diagnóstico socioambiental avalia a situação da microbacia hidrográfica e, em Joinville, foi homologado por decreto municipal. O TJSC aceitou diagnóstico elaborado por ente privado e aprovado pelos órgãos ambientais, mas o STJ mandou reexaminar o caso pelo Código Florestal e pelo Tema 1.010, sem validar o documento.
Qual o impacto do julgamento do STJ para municípios brasileiros?
A decisão, monocrática, reafirma que o Tema 1.010 se aplica a curso d'água canalizado e que a lei municipal não pode reduzir as faixas do Código Florestal. Não firma tese nova, mas indica como o STJ tem tratado as leis locais editadas com base na Lei 14.285/2021.
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