Jurisprudência Ambiental

STJ não conhece recurso sobre IPI do copo de papel e seletividade ambiental

04/09/2026 STJ Recurso Especial Processo: 5036316-37.2022.4.04.7200

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Uma fabricante de copos de papel impetrou mandado de segurança contra a Fazenda Nacional para reduzir a alíquota do IPI incidente sobre seu produto (NCM 4823.6900), de 9,75%, equiparando-a à aplicada ao copo plástico (NCM 3924.1000), de 6,5%. Sustentou que ambos os produtos têm a mesma essencialidade econômica e social, mas o copo de papel gera menor impacto ambiental. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região denegou a segurança nos autos do processo nº 5036316-37.2022.4.04.7200, o que motivou a interposição de recurso especial.

Questão jurídica

Discute-se se o princípio da seletividade do IPI em função da essencialidade do produto, previsto no art. 153, § 3º, I, da Constituição Federal de 1988 e no art. 48 do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/1966), pode ser controlado judicialmente para reduzir alíquota fixada na TIPI. Questiona-se, ainda, se o menor impacto ambiental de um produto autoriza o Poder Judiciário a equiparar sua tributação à de produto concorrente, em nome da extrafiscalidade ambiental do tributo.

Resultado

O acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região manteve a denegação da segurança, assentando que a fixação de alíquotas do IPI compete aos Poderes Legislativo e Executivo, nos termos do art. 153, § 1º, da Constituição Federal de 1988, não podendo o Judiciário atuar como legislador positivo. No Superior Tribunal de Justiça, no REsp 2216682/SC (2025/0202040-5), a relatora, Ministra Maria Thereza de Assis Moura, em decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 04/09/2026, não conheceu do recurso especial, porque o acórdão regional se apoia em fundamento constitucional suficiente (art. 153, §§ 1º e 3º, I, da Constituição), cuja revisão não cabe em recurso especial. O mérito da seletividade ambiental não foi examinado pelo STJ.

Contexto do julgamento

A controvérsia examinada no REsp 2216682/SC (2025/0202040-5), sob relatoria da Ministra Maria Thereza de Assis Moura no Superior Tribunal de Justiça, com movimentação registrada em 04/09/2026 nos autos do processo nº 5036316-37.2022.4.04.7200, nasceu de mandado de segurança impetrado por uma empresa do setor de descartáveis contra ato de autoridade fazendária federal. A empresa, fabricante de copos de papel, apontou uma distorção que considera ambientalmente injustificável: a Tabela de Incidência do Imposto sobre Produtos Industrializados submete o copo de papel (NCM 4823.6900) à alíquota de 9,75%, enquanto o copo de plástico (NCM 3924.1000) é tributado em 6,5%.

O argumento central da impetrante é de ordem simultaneamente tributária e ambiental. Sustenta que os dois produtos cumprem função idêntica e ostentam a mesma essencialidade econômica e social, de modo que a diferença de alíquotas não encontra amparo no critério constitucional da seletividade. Mais do que isso, alega que o produto menos poluente é justamente o mais onerado, resultado que contrariaria a lógica da extrafiscalidade ambiental e o dever estatal de defesa do meio ambiente. Pediu, além da equiparação das alíquotas, a compensação dos valores recolhidos nos cinco anos anteriores ao ajuizamento, corrigidos pela Taxa Selic.

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região denegou a segurança. Em segundo grau, assentou-se que a pretensão não encontra previsão legal, pois busca a redução de carga tributária por equiparação a produto diverso, providência que escaparia ao âmbito do mandado de segurança disciplinado pela Lei nº 12.016/2009, ante a ausência de direito líquido e certo comprovado de plano. No recurso especial, a empresa apontou violação do art. 48 do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/1966), afirmando que a seletividade é imposição normativa dirigida aos Poderes Legislativo e Executivo e, portanto, suscetível de controle jurisdicional. O Ministério Público Federal opinou pelo não conhecimento do recurso, e foi esse o desfecho, em decisão monocrática na qual a relatora não conheceu do recurso especial.

Fundamentos da decisão

O acórdão recorrido estruturou-se em torno da repartição constitucional de competências em matéria tributária. Invocou o art. 97 do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/1966), segundo o qual somente a lei pode instituir ou majorar tributos e estabelecer fatos geradores, bases de cálculo e alíquotas, ressalvando que ao Poder Executivo cabe apenas alterar as alíquotas do IPI dentro dos limites mínimo e máximo fixados em lei, conforme faculdade do art. 153, § 1º, da Constituição Federal de 1988. Daí a conclusão de que a criação de novas hipóteses de incidência ou a redefinição de alíquotas por via judicial implicaria atuação como legislador positivo, com ofensa à separação de poderes.

Quanto ao princípio invocado pela recorrente, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região assentou que a seletividade decorre do art. 153, § 3º, I, da Constituição Federal de 1988 e invocou o art. 97 do Código Tributário Nacional (Lei nº 5.172/1966) para afirmar a reserva legal em matéria de alíquotas — o art. 48 do Código Tributário Nacional foi mencionado apenas ao descrever o pedido da impetrante. Entendeu, contudo, que a valoração concreta da essencialidade constitui atribuição dos Poderes Legislativo e Executivo, e não critério autoaplicável pelo julgador. Reconheceu-se expressamente a incidência do princípio da inafastabilidade da jurisdição, previsto no art. 5º, XXXV, da Constituição Federal de 1988, admitindo o controle de legalidade e constitucionalidade dos atos, mas afastou-se sua aplicação ao caso, por não se tratar de vício de legalidade e sim de escolha política.

O ponto de maior interesse para o direito ambiental está no item 3 da ementa do acórdão recorrido. Ali se admite que a pretensão poderia ser lida sob a ótica ambiental, na medida em que a redução da tributação do copo de papel estimularia o consumo de produto que melhor atende ao meio ambiente. Ainda assim, concluiu-se que a definição desse estímulo é matéria de política ambiental e tributária, cuja conformação cabe ao legislador e ao Executivo. A decisão sinaliza, assim, um limite relevante à judicialização de instrumentos econômicos de proteção ambiental, distinta da lógica que rege medidas repressivas como o embargo ambiental, em que o controle judicial recai sobre ato administrativo concreto e seus requisitos de validade.

Alcance da decisão

Do acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região impugnado no REsp 2216682/SC (2025/0202040-5), relatora Ministra Maria Thereza de Assis Moura, cuja decisão de não conhecimento foi disponibilizada no DJEN em 04/09/2026, extrai-se a orientação de que não cabe ao Poder Judiciário fixar, reduzir ou uniformizar alíquotas do IPI por equiparação entre produtos, ainda que sob o argumento de que um deles apresenta menor impacto ambiental, sob pena de atuação como legislador positivo. A seletividade prevista no art. 153, § 3º, I, da Constituição Federal de 1988 é comando dirigido aos Poderes Legislativo e Executivo, aos quais compete avaliar a essencialidade do produto.

No Superior Tribunal de Justiça, a relatora não conheceu do recurso especial, com fundamento no art. 255, § 4º, I, do Regimento Interno do STJ. Entendeu que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidiu com amparo em fundamento constitucional suficiente para manter o julgado, o art. 153, §§ 1º e 3º, I, da Constituição Federal de 1988, cuja revisão cabe ao Supremo Tribunal Federal, e não ao STJ em recurso especial. Assim, o STJ não chegou a examinar o mérito da seletividade ambiental. Também não houve condenação em honorários recursais, por se tratar de mandado de segurança na origem. Para o operador do direito ambiental, a lição prática é que a tributação ambientalmente orientada, no estágio atual da jurisprudência refletida neste feito, depende de conformação legislativa ou de ato do Executivo nos limites legais, não sendo obtida por via mandamental.

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