Jurisprudência Ambiental

STJ nega suspensão de ação por danos morais do afundamento do solo em Maceió

07/07/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 0805358-42.2024.8.02.0000

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE DECISÕES ESTRANGEIRAS E RECURSOS PARA O STF

Fato

Morador de Maceió (AL) ajuizou ação de indenização por danos morais contra a empresa petroquímica em razão dos danos decorrentes do afundamento do solo na capital alagoana. Após ter firmado acordo homologado judicialmente perante a Justiça Federal, com quitação ampla e irrevogável de danos patrimoniais e extrapatrimoniais, o processo individual foi extinto, decisão mantida pelo STJ no julgamento do AREsp 2.988.028/AL. Contra o acórdão, a parte interpôs recurso extraordinário com pedido de sobrestamento do feito.

Questão jurídica

Discutiu-se se a ação individual de indenização deveria ser suspensa por prejudicialidade externa (art. 313, V, a e b, do CPC), em razão da pendência da ação civil pública n. 0807343-54.2024.4.05.8000, e se os Temas n. 923/STJ e 675/STF autorizariam tal sobrestamento. Também se examinou a viabilidade do recurso extraordinário quanto à alegada ofensa aos arts. 1o, III, 5o, V, X, XXXV e LXXVIII, e 93, IX, da Constituição Federal, especialmente sobre a abrangência da quitação dada no acordo em relação ao dano moral.

Resultado

A Vice-Presidência do STJ indeferiu o pedido de suspensão do processo, ao fundamento de que a prejudicialidade externa não gera sobrestamento obrigatório e de que o mérito da causa já se encontrava exaurido, com negativa de seguimento ao recurso extraordinário com base nos Temas n. 339 e 181 do STF. Consignou-se, ainda, que o Tema 923/STJ, fixado no REsp 1.525.327/PR, restringe-se à macrolide da contaminação por chumbo em Adrianópolis-PR, não alcançando o caso do afundamento do solo em Maceió.

Contexto do julgamento

A decisão analisada foi proferida no âmbito do RE nos EDcl no AREsp 2.988.028/AL (2025/0255046-0), com processo de origem n. 0805358-42.2024.8.02.0000, tendo como recorrente morador de Maceió e como recorrida a empresa petroquímica. A controvérsia integra o vasto contingente de demandas individuais decorrentes do afundamento do solo em bairros da capital alagoana, evento que combinou danos ambientais, urbanísticos e sociais de grande escala, com remoção de milhares de famílias e inviabilização de áreas urbanas inteiras.

No caso concreto, a parte autora havia celebrado acordo homologado judicialmente perante a Justiça Federal, com participação do Ministério Público, da Defensoria Pública e do Poder Judiciário, do qual resultou quitação ampla e irrevogável quanto a danos patrimoniais e extrapatrimoniais. Com base nesse instrumento, a ação indenizatória individual foi extinta, entendimento confirmado pelo STJ no acórdão recorrido, que também afastou a alegação genérica de violação ao art. 1.022 do CPC com fundamento na Súmula 284/STF e remeteu a discussão sobre honorários contratuais à ação própria.

Interposto recurso extraordinário com apoio no art. 102, III, a, da Constituição Federal, a parte sustentou ofensa aos arts. 1o, III, 5o, V, X, XXXV e LXXVIII, e 93, IX, da Constituição, alegando que o dano moral, por sua natureza personalíssima, não estaria abrangido pela quitação, que o valor pago se destinava à aquisição de imóvel e que o acordo teria sido adesivo e compulsório. Pediu, ainda, o sobrestamento do feito com invocação dos Temas n. 923/STJ e 675/STF, até o julgamento da ação civil pública n. 0807343-54.2024.4.05.8000.

Fundamentos da decisão

O núcleo do exame recaiu sobre o pedido de suspensão por prejudicialidade externa, hipótese disciplinada no art. 313, V, a e b, do Código de Processo Civil, que corresponde ao antigo art. 265, IV, a e b, do CPC/1973. A decisão reproduziu lição doutrinária de Humberto Theodoro Júnior (“Curso de Direito Processual Civil”, Vol. 1, p. 702, 65a ed., 2024), citada no próprio julgado, segundo a qual prejudiciais são as questões de mérito que antecedem logicamente a solução do litígio, sendo externas quando objeto de outro processo pendente. A partir dessa premissa, reafirmou-se que a paralisação do processo subordinado não é automática, competindo ao magistrado sopesar as circunstâncias concretas, conforme AgInt no AREsp n. 1.709.685/RJ, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, DJe de 23/4/2021, e AgInt no AREsp n. 846.717/RS, relator Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, DJe de 30/11/2017.

No plano prático, a Vice-Presidência registrou que o mérito da irresignação — a extinção do processo em razão do acordo — não poderia ser reexaminado na via extraordinária, já que ao recurso extraordinário foi negado seguimento em observância aos Temas n. 339 e 181 do STF. Exaurida a discussão meritória, a suspensão mostrar-se-ia manifestamente inviável e extemporânea. Trata-se de raciocínio relevante para o contencioso ambiental de massa, no qual providências processuais de contenção, como ocorre nos litígios sobre embargo ambiental e reparação de passivos, só fazem sentido enquanto houver objeto útil a ser decidido.

A decisão delimitou, ainda, o alcance do Tema 923/STJ, fixado no recurso especial repetitivo n. 1.525.327/PR, cuja tese determina a suspensão de ações individuais apenas até o trânsito em julgado das ações civis públicas n. 5004891-93.2011.4.04.7000 e n. 2001.70.00.019188-2, em tramitação na Vara Federal Ambiental, Agrária e Residual de Curitiba, relativas à macrolide gerada por suposta exposição à contaminação decorrente da exploração de jazida de chumbo em Adrianópolis-PR. Por ser tese vinculada a fato específico, não se estende automaticamente a outros eventos de dano ambiental, ainda que igualmente multitudinários.

Alcance da decisão

O acórdão recorrido, transcrito pela Vice-Presidência para demonstrar a fundamentação suficiente, aplicou o entendimento de que o acordo homologado judicialmente perante a Justiça Federal, com participação do Ministério Público, da Defensoria Pública e do Poder Judiciário, confere quitação ampla e irrevogável à empresa quanto a danos patrimoniais e extrapatrimoniais, sendo que eventual desconstituição depende de ação anulatória própria, e não da via recursal (EDcl no AgInt no AREsp 2.426.831/AL, relator Ministro Carlos Cini Marchionatti, Terceira Turma, julgado em 17/2/2025, DJEN de 20/2/2025). Firmou-se também que conflitos entre a parte e seus advogados sobre honorários contratuais devem ser discutidos em ação própria (AgInt no AREsp 2.431.438/AL, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 13/5/2024, DJe de 16/5/2024).

Quanto à suspensão processual, prevalece a orientação de que a prejudicialidade externa do art. 313, V, do CPC não impõe sobrestamento obrigatório, cabendo análise caso a caso (AgInt no AREsp n. 1.709.685/RJ, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, DJe de 23/4/2021; AgInt no AREsp n. 846.717/RS, relator Ministro Moura Ribeiro, Terceira Turma, DJe de 30/11/2017), sem prejuízo da leitura restritiva do Tema 923/STJ (REsp 1.525.327/PR), circunscrito à macrolide de Adrianópolis-PR. Registrou-se, por fim, que a alegação genérica de negativa de prestação jurisdicional, sem indicação precisa de omissão, obscuridade, contradição ou erro material, atrai a Súmula 284/STF.

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