Jurisprudência Ambiental

Embargo da FEAM: STJ nega recurso de siderúrgica sobre cronograma

19/06/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 5372586-97.2024.8.13.0000

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

A empresa siderúrgica foi autuada em 13/06/2024 pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) por intervenção causadora de poluição, com fundamento em excesso de ruídos e de poluentes atmosféricos, tendo sido aplicada a penalidade de embargo das atividades industriais. Em tutela cautelar antecedente, o juízo da 4ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias de Belo Horizonte indeferiu o pedido de suspensão da penalidade, decisão reformada pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais em agravo de instrumento. A empresa, contudo, seguiu irresignada quanto à manutenção da obrigação de apresentar cronograma relacionado ao encerramento das atividades.

Questão jurídica

Discutia-se se o acórdão estadual, que suspendeu o embargo por desproporcionalidade e ao mesmo tempo manteve determinação de cronograma, incorreu em contradição e erro material sanáveis por embargos de declaração, com violação do art. 1.022, I e III, do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015). A controvérsia envolvia, ainda, definir se a contradição alegada poderia ter como parâmetro decisão anterior proferida no mesmo processo, e não apenas o próprio julgado embargado.

Resultado

O Ministro Sérgio Kukina, relator do AREsp 3236940/MG (2026/0151756-7) no Superior Tribunal de Justiça, rejeitou a irresignação, assentando que não houve ofensa ao art. 1.022 do CPC. Consignou que a contradição sanável por embargos de declaração é apenas a interna ao julgado — incompatibilidade entre fundamentação e dispositivo —, não podendo o parâmetro ser externo, como outro acórdão, ato normativo ou prova. No caso, o dispositivo do acórdão do TJMG mostrou-se em consonância com a fundamentação que o antecede.

Contexto do julgamento

A controvérsia teve origem em auto de infração lavrado em 13/06/2024 pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEAM) contra uma siderúrgica, pela conduta de causar intervenção de qualquer natureza que resulte poluição, degradação ou dano aos recursos hídricos, às espécies vegetais e animais, aos ecossistemas e habitats ou ao patrimônio natural ou cultural, ou que prejudique a saúde, segurança ou bem-estar da população. Conforme o laudo de fiscalização, a degradação ambiental foi verificada sob dois aspectos: emissão de ruídos e de efluentes atmosféricos. Como consequência, a autarquia estadual aplicou a penalidade de embargo das atividades industriais do empreendimento.

Em tutela cautelar antecedente ajuizada perante a 4ª Vara da Fazenda Pública e Autarquias da Comarca de Belo Horizonte, a empresa buscou a suspensão da penalidade, alegando a legalidade de sua operação, a vigência de licença ambiental de operação renovada em 2021 com validade de dez anos, a ausência de risco concreto à saúde pública e a desproporcionalidade da medida. O pedido foi indeferido em primeiro grau, mas o Tribunal de Justiça de Minas Gerais, no julgamento do agravo de instrumento, deu provimento ao recurso para suspender o embargo.

O acórdão estadual destacou as contradições entre o auto de infração e a documentação técnica juntada, na medida em que as análises apresentadas no processo administrativo atendiam aos padrões legais nas três estações de qualidade do ar e nos pontos receptores discretos, com superação de limites apenas nas faixas PTS, MP10 e MP2,5, à luz da Resolução CONAMA nº 491/2018. Ponderou, ainda, que a própria proposta da FEAM de celebrar Termo de Ajustamento de Conduta sinalizava a possibilidade de adequação por vias menos gravosas.

Fundamentos da decisão

No Superior Tribunal de Justiça, o recurso especial foi interposto com fundamento no art. 105, III, a, da Constituição Federal de 1988, sustentando-se exclusivamente a violação do art. 1.022, incisos I e III, do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015). A recorrente alegava contradição e erro material entre a ratio decidendi do julgado — que reconheceu a desproporcionalidade do embargo ambiental — e a manutenção da obrigação de apresentar cronograma relacionado ao encerramento das atividades, além de divergência em relação a decisão de plantão anteriormente proferida no mesmo processo.

O Ministro Sérgio Kukina, relator no AREsp 3236940/MG (2026/0151756-7), afastou a alegação. Assentou que, nos termos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a contradição sanável por meio dos embargos de declaração é aquela interna ao julgado embargado — por exemplo, a incompatibilidade entre a fundamentação e o dispositivo da própria decisão —, de modo que o parâmetro da contrariedade não pode ser externo, como outro acórdão, ato normativo ou prova. Examinando o caso concreto, concluiu que o dispositivo do acórdão impugnado está em consonância com a fundamentação que lhe antecede, inexistindo vício a ser suprido pela via integrativa. Transcreveu, ainda, o esclarecimento do TJMG de que o cronograma de mitigação mencionado na decisão de plantão não se confunde com o cronograma de encerramento das atividades determinado em primeiro grau, obrigação que não foi afastada.

A decisão reforça a distinção, relevante no contencioso ambiental, entre o controle judicial do mérito da sanção administrativa e o cabimento dos embargos de declaração como instrumento de mera integração do julgado. A tentativa de utilizar o recurso integrativo para harmonizar decisões distintas proferidas ao longo da marcha processual — como a decisão de plantão que determinara cronograma programático com ações para minorar efeitos poluentes e o posterior acórdão do agravo de instrumento — não encontra amparo no art. 1.022 do CPC.

Alcance da decisão

Firmou-se que a contradição apta a autorizar embargos de declaração é apenas a interna ao próprio julgado, não se admitindo como parâmetro elemento externo, como outro acórdão, ato normativo ou prova. Para sustentar o entendimento, a decisão invocou expressamente os seguintes precedentes: AgInt no AgInt no AREsp n. 2.411.608/SP, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, DJe de 27/5/2024; EDcl no AgInt nos EDcl no REsp n. 1.698.201/CE, relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Turma, DJe de 20/5/2024; e EDcl no REsp n. 1.469.545/SC, relator Ministro Afrânio Vilela, Segunda Turma, DJe de 29/2/2024.

No plano do direito ambiental, o Superior Tribunal de Justiça não reexaminou o mérito do embargo (AREsp 3236940/MG, relator Ministro Sérgio Kukina, decisão disponibilizada no DJEN em 19/06/2026). Ao negar provimento ao agravo da empresa, deixou intacto o acórdão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, tanto na parte que suspendeu o embargo quanto na que manteve a obrigação de apresentar, até 02/01/2025, cronograma de encerramento das atividades. Para o tribunal estadual, a suspensão do embargo em cognição sumária não impede a continuidade da fiscalização nem eventual responsabilização do empreendedor, mas preserva a atividade econômica até o esclarecimento dos fatos no processo principal, notadamente quando pendente instrução probatória sobre o cumprimento das condicionantes da licença de operação e ausente demonstração de risco iminente ou dano irreparável ao meio ambiente.

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