Decisão Comentada do Dia

Juíza fixa prazo para análise de CAR retificado em Canarana

26/03/2026 TJMT Processo: 1015189-84.2026.8.11.0041 5 min de leitura
Diovane Franco
Comentário por Diovane Franco Especialista em Direito Administrativo · Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025)

O problema endêmico da demora na análise do CAR

Em decisão publicada em 26 de março de 2026, a Vara Especializada do Meio Ambiente de Cuiabá concedeu tutela de urgência determinando que a SEMA/MT conclua, em 15 dias, a análise da retificação do Cadastro Ambiental Rural da Fazenda Três Rios, em Canarana. O processo (1015189-84.2026.8.11.0041) evidencia um problema sistêmico que afeta milhares de produtores rurais: a inércia administrativa na validação dos dados ambientais declarados no SICAR.

O caso é emblemático. Os proprietários protocolaram pedido de retificação do CAR em julho de 2024 — quase dois anos se passaram sem resposta definitiva do órgão ambiental. Durante esse período, o imóvel permaneceu com embargo do IBAMA, impossibilitando qualquer exploração econômica lícita da propriedade.

A aplicação do Decreto 697/2020 como parâmetro temporal

A decisão judicial inova ao aplicar, por analogia integrativa, o prazo de 180 dias previsto no art. 32, III, do Decreto Estadual 697/2020 para a análise do CAR. Embora o decreto trate especificamente de licenciamento ambiental trifásico, a magistrada entendeu que o prazo deve servir como parâmetro razoável também para a validação do cadastro ambiental.

Diferente do que ocorre com processos de licenciamento complexo, a análise do CAR envolve essencialmente a conferência de dados declaratórios com imagens de satélite e bases cartográficas oficiais. Trata-se de procedimento que, com a devida estrutura tecnológica, pode ser realizado em prazos muito inferiores aos 180 dias estabelecidos para licenças ambientais.

A analogia é pertinente porque estabelece um limite temporal objetivo para a atuação administrativa. Sem esse parâmetro, a SEMA poderia manter processos em análise indefinidamente, como vinha ocorrendo no caso concreto.

Quando a inércia administrativa trava o desembargo

O ponto central da decisão reside na conexão entre a validação do CAR e a possibilidade de solicitar o desembargo junto ao IBAMA. Como abordamos em Embargos Ambientais em Áreas Rurais (2026), o paradoxo CAR-PRA-Embargo cria uma situação kafkiana: o produtor não consegue regularizar sua situação ambiental porque o órgão estadual não analisa seu cadastro; sem o CAR validado, não pode aderir ao PRA; sem o PRA, não obtém o desembargo.

A decisão reconhece essa interdependência ao afirmar que “a inércia da administração obsta a regularidade ambiental do imóvel e, consequentemente, impede que os autores pleiteiem o desembargo da área junto ao IBAMA”. É precisamente esse encadeamento de impossibilidades administrativas que justifica a intervenção judicial.

O caso seria outro se os proprietários tivessem dado causa à demora — por exemplo, deixando de apresentar documentos solicitados ou respondendo intempestivamente às notificações. Aqui, pelo contrário, o processo administrativo estava completo desde julho de 2024, aguardando apenas a manifestação do órgão ambiental.

A exigência de comunicação única das pendências

Aspecto relevante da decisão é a determinação de que eventuais pendências sejam comunicadas “de uma única vez” aos requerentes, aplicando o art. 14, §1º, da Lei Complementar 140/2011. Embora a norma trate de licenciamento ambiental, sua ratio aplica-se perfeitamente à análise do CAR: evitar que a administração faça exigências sequenciais, prolongando indefinidamente o processo.

Essa prática de “conta-gotas” — solicitar um documento, analisar por meses, solicitar outro, analisar novamente — transformou-se em estratégia (consciente ou não) de postergação administrativa. A decisão corta essa possibilidade ao determinar que todas as pendências sejam apontadas simultaneamente.

A nosso ver, essa determinação deveria constar expressamente na regulamentação do CAR. A IN IBAMA 08/2024, ao estabelecer novos procedimentos para levantamento de embargos, perdeu a oportunidade de incluir dispositivo similar, perpetuando a possibilidade de exigências sucessivas que emperram o sistema.

O que muda para o produtor rural

A decisão cria precedente importante para produtores em situação similar. Demonstrada a inércia administrativa por prazo superior a 180 dias, surge o direito líquido e certo à manifestação conclusiva do órgão ambiental — seja para aprovar, seja para indeferir o pedido com as devidas justificativas técnicas e legais.

O precedente citado pela magistrada (TJMT, processo 1008771-04.2024.8.11.0041) já sinalizava essa orientação, mas a presente decisão avança ao estabelecer consequências práticas: prazo de 15 dias para cumprimento, sob pena de multa; obrigatoriedade de comunicação única das pendências; aplicação analógica do Decreto 697/2020.

Sustentamos que decisões como esta contribuem para quebrar o ciclo vicioso que mantém milhares de propriedades rurais em situação de irregularidade formal. Não se trata de flexibilizar exigências ambientais — a decisão é clara ao ressalvar que a análise deve observar “o preenchimento integral dos requisitos legais e técnicos” —, mas de garantir que a administração cumpra seus prazos e permita ao produtor regularizar sua situação.

Para o produtor rural que enfrenta situação semelhante, a orientação é documentar meticulosamente todas as interações com o órgão ambiental: protocolos, prints do sistema, e-mails, notificações. Ultrapassado o prazo de 180 dias sem manifestação conclusiva, o caminho judicial mostra-se não apenas viável, mas necessário para romper a inércia administrativa.

Entendemos que a multiplicação de decisões nesse sentido poderá, finalmente, pressionar os órgãos ambientais a estruturarem-se adequadamente para cumprir os prazos legais. Enquanto a morosidade não gerar consequências jurídicas concretas, continuará sendo a regra — em prejuízo dos produtores que buscam a regularização e do próprio meio ambiente, que permanece desprotegido enquanto a burocracia se arrasta.

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Perguntas Frequentes

Qual o prazo para SEMA analisar o CAR em Mato Grosso?
Segundo decisão judicial de março/2026, aplica-se por analogia o prazo de 180 dias previsto no Decreto Estadual 697/2020. Ultrapassado esse prazo, o produtor pode buscar tutela judicial para compelir a análise.
Posso entrar na justiça se meu CAR está parado há muito tempo?
Sim, se a análise do CAR ultrapassar 180 dias sem justificativa, há precedentes do TJMT reconhecendo o direito à manifestação conclusiva do órgão ambiental. É importante documentar todos os protocolos e interações com a SEMA.
A demora na análise do CAR impede o desembargo da área?
Sim, sem o CAR validado não é possível aderir ao PRA e, consequentemente, solicitar o desembargo junto ao IBAMA. Essa interdependência justifica a urgência na análise do cadastro pelo órgão estadual.
O órgão ambiental pode fazer exigências sucessivas no CAR?
Não. Conforme art. 14 da LC 140/2011, aplicável por analogia, todas as exigências devem ser comunicadas de uma única vez, ressalvados fatos novos. Exigências sequenciais configuram irregularidade administrativa.
Qual o fundamento legal para exigir celeridade na análise do CAR?
O art. 5º, LXXVIII, da CF garante a razoável duração do processo administrativo. Além disso, o princípio da eficiência (art. 37, CF) impõe à administração o dever de analisar os requerimentos em prazo razoável.

Este comentário utiliza conceitos do livro Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025), de autoria de Diovane Franco. Saiba mais →

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Diovane Franco
Sobre o autor Diovane Franco

Advogado. Especialista em Direito Administrativo. Mestrando pela UNIVALI. Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025). Diretor Jurídico do Instituto de Direito Agroambiental.

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