Decisão Comentada do Dia

TJMT mantém nulidade de embargo ambiental em área de aceiro florestal

12/03/2026 TJMT Processo: 1000613-26.2025.8.11.0040 7 min de leitura Atualizado em 15/10/2026
Ementa:

AMBIENTAL. TJMT ANULA EMBARGO AMBIENTAL E RECONHECE LEGALIDADE DE ACEIRO FLORESTAL. — O contexto da decisãoA Segunda Câmara de Direito Público e Coletivo do TJMT enfrentou questão de alta relevância para o agronegócio mato-grossense ao analisar a validade de embargo ambiental imposto sobre área de reserva legal. (TJMT, processo 1000613-26.2025.8.11.0040, 13.03.2026).

Diovane Franco
Comentário por Diovane Franco Especialista em Direito Administrativo · Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025) e coautor de Cadastro Ambiental Rural: direito, prática e tecnologia (Thomson Reuters, 2026)

O contexto da decisão

A Segunda Câmara de Direito Público e Coletivo do TJMT enfrentou questão de alta relevância para o agronegócio mato-grossense ao analisar a validade de embargo ambiental imposto sobre área de reserva legal. O processo nº 1000613-26.2025.8.11.0040 trouxe à tona discussão fundamental: a distinção entre desmatamento ilegal e a construção de aceiros florestais, prática preventiva essencial na proteção contra incêndios rurais.

O caso originou-se de termo de embargo lavrado pela SEMA/MT sobre 5,9051 hectares de um imóvel rural, sob alegação de desmatamento irregular em área de Reserva Legal. A sentença da 4ª Vara Cível de Sorriso declarou a nulidade do embargo, e o Estado de Mato Grosso apelou. O produtor rural, contudo, sustentou que a intervenção consistiu na abertura e manutenção de aceiro florestal, medida preventiva dispensada de autorização pelo Decreto Estadual nº 2.151/2014.

A análise jurídica da Corte

O Tribunal reconheceu que a presunção de legitimidade do ato administrativo é relativa (juris tantum) e pode ser afastada mediante prova técnica robusta. No caso, o laudo pericial apresentado demonstrou que a supressão vegetal ocorreu de forma linear e perimetral, característica típica de aceiro florestal destinado à prevenção de incêndios — e não de desmatamento para conversão de uso do solo.

A fundamentação do acórdão apoiou-se em dois pilares jurídicos. Primeiro, o artigo 1º, inciso VII, do Decreto Estadual nº 2.151/2014, que expressamente dispensa de autorização a construção e manutenção de aceiros. Segundo, a aplicação do artigo 341 do CPC, que estabelece presunção de veracidade aos fatos não impugnados especificamente pela parte contrária.

“A construção e manutenção de aceiros constituem prática preventiva de manejo florestal e, na regulamentação estadual aplicável, são dispensadas de autorização prévia. Ausente impugnação técnica específica pelo ente público, prevalece a conclusão pericial.”

O TJMT ainda abordou a natureza jurídica do embargo ambiental, reconhecendo seu caráter cautelar conforme artigo 108 do Decreto Federal nº 6.514/2008. A Corte sustentou que, uma vez formalizada a regularização administrativa mediante adesão ao PRA e assinatura de Termo de Compromisso, esvazia-se a finalidade acautelatória da medida.

Nosso posicionamento sobre a decisão

A decisão do TJMT merece aplauso por diversos aspectos. Primeiramente, a Corte aplicou corretamente a distinção entre medidas preventivas legítimas e infrações ambientais propriamente ditas. Como sustentamos em Embargos Ambientais em Áreas Rurais (2026), o embargo deve guardar estrita correlação com a conduta infracional; não pode servir como instrumento de cerceamento de práticas conservacionistas.

A nosso ver, o reconhecimento da natureza cautelar do embargo representa avanço interpretativo significativo. O artigo 108 do Decreto nº 6.514/2008 estabelece claramente que o embargo visa “impedir a continuidade do dano ambiental, propiciar a regeneração do meio ambiente e dar viabilidade à recuperação da área degradada”. Trata-se, portanto, de medida instrumental e temporária — não de sanção perpétua.

Entendemos que o TJMT acertou ao reconhecer que a adesão ao PRA e a formalização do compromisso de recuperação esvaziam a função cautelar do embargo. Esta interpretação harmoniza-se com o artigo 15-B do Decreto nº 6.514/2008, incluído pelo Decreto nº 6.686/2008, que condiciona a cessação das penalidades de suspensão e embargo à decisão da autoridade ambiental após a apresentação de documentação que regularize a obra ou atividade.

Particularmente relevante foi o reconhecimento de que o embargo, quando mantido após a regularização administrativa, transmuda-se em “excesso do poder de polícia”. Esta compreensão alinha-se com nossa tese de que o embargo possui natureza jurídica híbrida (repressiva, cautelar-reparatória e sancionatória), mas não pode perpetuar-se dissociado de sua finalidade instrumental.

As implicações práticas para o produtor rural

A decisão traz importantes diretrizes para o setor agropecuário. Em primeiro lugar, reforça que aceiros florestais são medidas preventivas dispensadas de autorização ambiental em Mato Grosso, pelo art. 1º, VII, do Decreto Estadual nº 2.151/2014. O acórdão ressalvou, porém, que excessos na largura do aceiro podem configurar infração, e neste caso o Estado não apresentou contraprova técnica.

Ademais, o precedente fortalece a segurança jurídica ao estabelecer que a regularização formal perante o órgão ambiental (adesão ao PRA e assinatura de TCA) deve ensejar o levantamento do embargo. Não se exige a conclusão do processo biológico de regeneração — que demanda anos — mas sim a formalização do compromisso de recuperação.

O acórdão também evidenciou os prejuízos concretos do embargo para além da restrição de uso da área. A ata notarial juntada aos autos comprovou a recusa de uma grande empresa em comercializar com o produtor pela simples existência do embargo em seu nome, ainda que restrito a pequena parcela do imóvel. Este efeito expansivo do embargo — que abordamos detalhadamente no capítulo 3 de nossa obra — demonstra como a medida pode funcionar como verdadeira “morte civil” do produtor rural.

Para evitar situações similares, recomendamos aos produtores: (i) documentar adequadamente todas as intervenções preventivas, especialmente aceiros; (ii) manter registros fotográficos e técnicos das práticas conservacionistas; (iii) em caso de autuação, apresentar imediatamente a documentação técnica que comprove a natureza da intervenção; (iv) buscar a regularização administrativa célere mediante adesão ao PRA quando cabível.

A força do precedente e suas limitações

O julgamento unânime pela Segunda Câmara de Direito Público do TJMT estabelece importante precedente para casos análogos. A tese firmada reconhece três pontos fundamentais: a relativização da presunção de legitimidade do ato administrativo mediante prova técnica; o esvaziamento da finalidade cautelar do embargo após regularização; e a vedação ao embargo como restrição permanente dissociada de sua função instrumental.

Sustentamos, contudo, que o precedente poderia ter avançado em questão crucial: a prescrição administrativa. Como desenvolvemos em Embargos Ambientais em Áreas Rurais (2026, p. 187-203), o embargo vinculado a auto de infração prescrito perde seu fundamento jurídico. O artigo 21 do Decreto nº 6.514/2008 estabelece prazo prescricional quinquenal para a pretensão punitiva administrativa. Embora o caso não tenha abordado esta questão, entendemos que futuros julgamentos devem enfrentar a temática.

Outro aspecto que merece reflexão é a responsabilidade propter rem do embargo. Ainda que não tenha sido objeto do recurso, a natureza real da obrigação ambiental gera insegurança nas transações imobiliárias rurais. Adquirentes de boa-fé herdam embargos pretéritos, situação que demanda urgente revisão legislativa para harmonizar a proteção ambiental com a segurança jurídica do mercado imobiliário rural.

Conclusão prática para o setor

A decisão do TJMT representa vitória importante para o agronegócio ao reconhecer que nem toda intervenção em vegetação nativa configura infração ambiental. Aceiros florestais são medidas conservacionistas que devem ser incentivadas, não punidas. O precedente fortalece a tese de que o embargo ambiental possui natureza cautelar e instrumental, não podendo subsistir como sanção perpétua após a regularização administrativa.

Produtores rurais devem documentar cuidadosamente suas práticas conservacionistas e, em caso de autuação indevida, buscar imediatamente a tutela jurisdicional. A presunção de legitimidade do ato administrativo não é absoluta; pode e deve ser contestada quando houver excesso ou desvio de finalidade. O Judiciário mato-grossense demonstra compreensão da realidade do campo e disposição para coibir excessos do poder de polícia ambiental quando devidamente comprovados.

Perguntas Frequentes

Aceiro florestal precisa de autorização ambiental em Mato Grosso?
Não, o aceiro florestal é dispensado de autorização ambiental pelo Decreto Estadual nº 2.151/2014. A construção e manutenção de aceiros são consideradas práticas preventivas de manejo florestal legítimas para proteção contra incêndios rurais.
Pode ser embargada área onde foi feito aceiro florestal?
Depende. No caso julgado, o TJMT afastou o embargo porque prova técnica não impugnada pelo Estado demonstrou que a supressão linear e perimetral era aceiro, dispensado de autorização, mas ressalvou que excessos na largura podem configurar infração. O excesso do poder de polícia foi reconhecido na manutenção do embargo após a adesão ao PRA e a assinatura do Termo de Compromisso.
Como provar que a supressão foi para aceiro e não desmatamento?
Deve-se apresentar laudo pericial demonstrando que a supressão ocorreu de forma linear e perimetral, característica típica de aceiro florestal. Documentos fotográficos, registros técnicos e prova da finalidade preventiva contra incêndios são fundamentais para comprovar a legalidade.
Quando o embargo ambiental deve ser suspenso?
O embargo deve ser suspenso quando há regularização formal perante o órgão ambiental, como adesão ao PRA e assinatura de Termo de Compromisso. A medida possui natureza cautelar e não pode perpetuar-se após o compromisso de recuperação estar formalizado.
O que é presunção relativa do ato administrativo ambiental?
A presunção de legitimidade do ato administrativo é juris tantum, ou seja, pode ser afastada mediante prova técnica robusta. No caso de embargos ambientais, laudos periciais e documentação técnica podem comprovar a ilegalidade da autuação e ensejar sua anulação judicial.

Este comentário utiliza conceitos do livro Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025), de autoria de Diovane Franco. Saiba mais →

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Diovane Franco
Sobre o autor Diovane Franco

Advogado (OAB/MT 29.530). Especialista em Direito Administrativo. Mestrando em Ciência Jurídica pela UNIVALI. Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025) e coautor de Cadastro Ambiental Rural: direito, prática e tecnologia (Thomson Reuters, 2026). Sócio fundador do Diovane Franco Advogados. Atuou na defesa vencedora do IRDR 94 do TRF1.

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