Jurisprudência Ambiental

STJ nega RE sobre afundamento em Maceió: danos morais e acordo em ACP

27/04/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 0805351-50.2024.8.02.0000

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE DECISÕES ESTRANGEIRAS E RECURSOS PARA O STF

Fato

Moradores de Maceió (AL) afetados pelo afundamento do solo ajuizaram contra a petroquímica ação de compensação por danos morais individuais. Os recorrentes alegam que o acordo firmado na ação civil pública foi celebrado de forma adesiva e compulsória, sem a presença de seus advogados, e que tal acordo não abrangeria os danos morais de natureza individual e personalíssima. O caso envolve os danos ambientais, urbanísticos e sociais decorrentes da exploração de sal-gema pela petroquímica na região de Maceió.

Questão jurídica

A questão central consiste em saber se o acordo homologado judicialmente em ação civil pública afasta a pretensão individual de compensação por danos morais, bem como se o processo deveria ser suspenso por prejudicialidade externa em razão do julgamento pendente da ACP nº 0807343-54.2024.4.05.8000. Discute-se ainda se o Tema 923 do STJ, que trata de suspensão de ações individuais em macrolides ambientais, seria aplicável ao caso de Maceió por analogia.

Resultado

O STJ negou seguimento ao recurso extraordinário, mantendo o entendimento de que eventual vício no acordo homologado judicialmente deve ser impugnado por meio de ação anulatória própria, e não em recurso especial. O pedido de suspensão do processo por prejudicialidade externa foi indeferido, pois o mérito já se encontrava exaurido e o Tema 923 do STJ refere-se a situação fática específica e diversa. O STJ não reexaminou a extensão do acordo (Súmulas 5 e 7), e ficou mantida a conclusão do Tribunal de Justiça de Alagoas de que ele, com cláusulas de renúncia, abrangia também os danos morais.

Contexto do julgamento

O caso tem origem nos graves danos ambientais, urbanísticos e sociais provocados pelo afundamento do solo em Maceió (AL), fenômeno diretamente relacionado à exploração de sal-gema pela petroquímica recorrida em cavidades subterrâneas sob bairros densamente habitados da capital alagoana. Milhares de famílias foram forçadas a deixar suas residências, e o evento se tornou uma das maiores catástrofes ambientais de origem industrial da história recente do Brasil, com repercussões que alcançaram a esfera de uma CPI no Congresso Nacional. Diante da dimensão do desastre, foram celebrados acordos coletivos no âmbito de ações civis públicas, com a homologação judicial de valores destinados, entre outras finalidades, à aquisição de novos imóveis pelas famílias deslocadas.

Os recorrentes — moradores afetados — ingressaram com ação individual de compensação por danos morais, sustentando que o acordo firmado na ACP não abrangeria os danos de natureza existencial, psíquica e personalíssima sofridos por cada família. Alegaram ainda que o acordo foi celebrado de forma adesiva e compulsória, sem a participação efetiva de seus advogados, o que configuraria vício de consentimento apto a comprometer a validade do negócio jurídico. Pleitearam, subsidiariamente, o sobrestamento do feito até o julgamento da ACP nº 0807343-54.2024.4.05.8000, em trâmite na Justiça Federal, invocando por analogia o Tema 923 do STJ e o Tema 675 do STF.

Na origem, o feito foi extinto em razão do acordo homologado na Justiça Federal. O Tribunal de Justiça de Alagoas entendeu que o acordo, com cláusulas de renúncia a direitos remanescentes, abrangia também os danos morais, e que não havia indícios de que os moradores tivessem sido compelidos a celebrá-lo. No STJ, o recurso especial foi conhecido em parte e desprovido com base nas Súmulas 284/STF, 5, 7, 211 e 568/STJ, e o agravo interno não foi provido. Os embargos de declaração foram rejeitados, e o recurso extraordinário interposto contra esse acórdão teve seguimento negado pelo Vice-Presidente do STJ, com base nos Temas 339 e 181 do STF.

Fundamentos da decisão

O ponto nevrálgico da decisão reside na aplicação do entendimento do STJ segundo o qual eventual vício em acordo homologado judicialmente não pode ser discutido na ação individual de indenização nem no recurso dela decorrente. A via adequada, consoante os precedentes citados (entre eles o REsp nº 2.157.064/AL, da Segunda Seção), é a ação anulatória própria, que na lei processual corresponde à do art. 966, § 4º, do Código de Processo Civil, voltada aos atos de disposição de direitos praticados pelas partes e homologados pelo juízo. Esse entendimento resguarda a segurança jurídica e a imutabilidade dos acordos homologados, valores que integram o núcleo do Estado Democrático de Direito. Em contextos de desastres ambientais de grande magnitude, como o de Maceió, a estabilidade dos acordos coletivos é especialmente relevante para garantir a efetividade das reparações já implementadas, sem prejuízo da revisão judicial em ação própria para aqueles que demonstrem vício concreto. Para compreender melhor os instrumentos de responsabilização ambiental e os limites das autuações administrativas e judiciais nesse campo, recomenda-se a leitura sobre embargo ambiental, que detalha as nuances das sanções ambientais no ordenamento brasileiro.

Quanto ao pedido de suspensão por prejudicialidade externa, o STJ reafirmou que o art. 313, V, do CPC não impõe ao magistrado a obrigação de suspender o processo em toda e qualquer hipótese de questão conexa pendente em outro juízo. Trata-se de faculdade jurisdicional a ser exercida com base nas circunstâncias do caso concreto, conforme orientação fixada em precedentes como o AgInt no AREsp nº 1.709.685/RJ e o AgInt no AREsp nº 846.717/RS. No caso em exame, a suspensão foi considerada inviável e extemporânea, pois o mérito da irresignação, a extinção do processo em virtude do acordo, não poderia ser examinado na via extraordinária, ante a negativa de seguimento ao recurso extraordinário com base no Tema 339 do STF (o dever de fundamentação não exige o exame pormenorizado de cada alegação) e no Tema 181 do STF (os pressupostos de admissibilidade de recursos de outros tribunais são matéria infraconstitucional). A decisão acrescentou que, no Tema 675, o STF negou repercussão geral à suspensão de ações individuais em razão de ação coletiva, por se tratar de matéria infraconstitucional.

A rejeição da analogia com o Tema 923 do STJ merece destaque pela sua precisão técnica. Aquele precedente foi firmado a partir da macrolide específica de contaminação por chumbo no Município de Adrianópolis (PR), decorrente da exploração de jazida pela Plumbum Mineração e Metalurgia. A tese fixada nomeou expressamente os números dos processos de ACP que justificavam o sobrestamento, evidenciando o caráter restrito e circunstancial do entendimento. Transplantá-la para o contexto dos afundamentos de solo em Maceió, por mais graves que sejam os danos ambientais envolvidos, implicaria extensão analógica incompatível com a natureza do precedente qualificado, que vincula apenas as situações que constituíram seu substrato fático.

Alcance da decisão

A decisão reforça três diretrizes processuais de elevada relevância para o contencioso ambiental de massa. Primeiro, que acordos homologados em ações civis públicas ambientais somente podem ser desconstituídos por meio de ação anulatória autônoma, sendo vedada a rediscussão de seus termos em recursos especial ou extraordinário. Segundo, que a suspensão do processo por prejudicialidade externa é medida de cunho discricionário e não se justifica quando o mérito recursal já foi exaurido pelas instâncias superiores. Terceiro, que o Tema 923 do STJ, firmado para a macrolide da contaminação por chumbo em Adrianópolis (PR), trata de questão específica diversa e não se aplica ao afundamento do solo em Maceió.

Os precedentes invocados na decisão — AgInt no AREsp nº 1.709.685/RJ (Quarta Turma, rel. Min. Raul Araújo) e AgInt no AREsp nº 846.717/RS (Terceira Turma, rel. Min. Moura Ribeiro) — consolidam a orientação de que a prejudicialidade externa exige avaliação casuística pelo magistrado, afastando qualquer automatismo suspensivo. No plano constitucional, os arts. 5º, XXXV e LXXVIII, da Constituição Federal foram invocados pelos recorrentes, mas a decisão não chegou a examiná-los, porque aplicou os Temas 339 e 181 do STF e negou seguimento ao recurso extraordinário, registrando que contra essa decisão não cabe agravo em recurso extraordinário.

Perguntas Frequentes

Acordo em ação civil pública ambiental pode ser questionado em recurso especial?
Não, acordos homologados em ações civis públicas ambientais não podem ser questionados em recurso especial ou extraordinário. Segundo os precedentes do STJ aplicados no caso, eventual vício deve ser discutido em ação anulatória própria, que na lei processual é a do art. 966, § 4º, do CPC, voltada aos atos de disposição de direitos homologados pelo juízo.
Como impugnar acordo ambiental homologado judicialmente?
A impugnação deve ser feita por meio de ação anulatória autônoma, nos termos do art. 966 e seguintes do CPC. Segundo os precedentes do STJ aplicados no caso de Maceió, o vício não pode ser discutido em ação individual de indenização nem no recurso dela decorrente.
Acordo em ACP exclui direito a indenização por danos morais individuais?
Depende dos termos específicos do acordo. No caso de Maceió, o Tribunal de Justiça de Alagoas concluiu que o acordo, com cláusulas de renúncia a direitos remanescentes, abrangia também os danos morais. O STJ não reexaminou essa conclusão (Súmulas 5 e 7) e reafirmou que eventuais vícios no acordo devem ser discutidos em ação anulatória própria, não na ação individual.
Tema 923 do STJ se aplica a todos os desastres ambientais?
Não, o Tema 923 do STJ trata do caso específico de contaminação por chumbo em Adrianópolis/PR. No caso de Maceió, a decisão afastou sua aplicação por tratar de questão específica diversa.
Processo pode ser suspenso por prejudicialidade em caso ambiental?
A suspensão por prejudicialidade externa é faculdade do magistrado, não obrigação automática. Conforme art. 313, V do CPC e jurisprudência do STJ, deve ser avaliada caso a caso, considerando a utilidade processual concreta e o princípio da duração razoável.
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