Decisão Comentada do Dia

Justiça Federal julga improcedente ACP ambiental com autoria apoiada só no CAR

08/07/2026 TRF1 Processo: 1004770-17.2025.4.01.3900 7 min de leitura Atualizado em 14/10/2026
Diovane Franco
Comentário por Diovane Franco Especialista em Direito Administrativo · Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025) e coautor de Cadastro Ambiental Rural: direito, prática e tecnologia (Thomson Reuters, 2026)

O Cadastro Ambiental Rural pode ser usado como prova para condenar alguém por dano ambiental? A 9ª Vara Federal Ambiental e Agrária da Seção Judiciária do Pará, em sentença publicada no dia 8 de julho de 2026 (processo 1004770-17.2025.4.01.3900), respondeu que não — ao menos quando o CAR é o único elo entre o réu e o desmatamento. O Ministério Público Federal pretendia a condenação de um produtor rural à recuperação de 126,17 hectares de floresta nativa no bioma Amazônico, ao pagamento de R$ 1.355.318,14 em danos materiais e R$ 635.000,00 em danos morais coletivos. Todos os pedidos foram julgados improcedentes.

O CAR como elo solitário entre o réu e o dano

A estratégia acusatória do MPF seguiu um roteiro que temos visto com frequência crescente nas ações do chamado Projeto Amazônia Protege: imagens de satélite Sentinel-2 identificam o polígono de supressão vegetal; cruza-se esse polígono com a base do SICAR; localiza-se o CPF declarado no cadastro; lavra-se auto de infração e termo de embargo; ajuíza-se ação civil pública contra a pessoa indicada. O problema está na fragilidade desse encadeamento quando o CAR — peça central da imputação — é declaratório, não aprovado, pendente de retificação e integralmente sobreposto a terras públicas federais.

Basta observar que o próprio art. 29, §2º, da Lei 12.651/2012 estabelece, em dicção que não admite tergiversação, que o cadastramento não será considerado título para fins de reconhecimento do direito de propriedade ou posse. Se o CAR não serve como prova de propriedade nem de posse, convém perguntar: como poderia servir como prova de autoria de desmatamento?

A distinção entre materialidade e autoria que o MPF ignorou

A sentença acertou em cheio ao separar dois planos que a inicial tratava como se fossem um só. As imagens de satélite demonstraram a materialidade — houve, sim, supressão de 126,17 hectares de floresta nativa. O magistrado não negou esse fato. O que negou foi a autoria.

A responsabilidade civil ambiental é objetiva, nos termos do art. 14, §1º, da Lei 6.938/81. Dispensa-se a prova de culpa. Mas responsabilidade objetiva, como bem pontuou o julgador, não é responsabilidade por suspeita. A dispensa de culpa não equivale à dispensa de nexo causal — e nexo causal pressupõe a identificação de quem praticou, ordenou, financiou ou se beneficiou da conduta degradadora, ou de quem detinha domínio fático sobre a área.

O requerido juntou documentos indicando que não constava como proprietário ou possuidor no Registro Rural do INCRA; que o CAR estava pendente e com determinação de retificação; que a área apresentava 100% de sobreposição com o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Liberdade I (terra pública federal); e que havia histórico de embargos e infrações sobrepostas apontando terceiros como possíveis autores. Para a sentença, esses elementos não afastam o dano, mas geram dúvida relevante sobre o vínculo do réu com a supressão. O MPF, provocado pelo contraditório, declarou não possuir outras provas a produzir.

A inversão do ônus da prova tem limites

Um dos pontos mais relevantes da sentença está no tratamento da inversão do ônus da prova em matéria ambiental. Entendemos que a técnica de inversão, embora legítima e prevista no sistema processual, não pode funcionar como carta branca para dispensar o autor de estabelecer um mínimo vínculo fático entre o réu e o dano. A sentença foi precisa ao afirmar que a inversão não pode ser convertida em presunção absoluta de responsabilidade civil nem em imposição de prova negativa impossível.

Na prática, o que se exigiria do réu seria provar que nunca esteve na área, que nunca exerceu qualquer atividade ali, que nunca teve qualquer relação com o imóvel — prova diabólica por definição. O direito processual não admite essa distorção, e o magistrado fez bem em recusá-la.

O precedente citado na própria sentença (AC 10030359020174013200, TRF1, 12ª Turma, j. 02/09/2024) reforça o ponto: mesmo sob a teoria do risco integral, o nexo causal permanece como elemento indispensável, conforme o Tema Repetitivo 681 do STJ. E o precedente da AC 10003417920174013902 (TRF1, 6ª Turma, j. 07/01/2025) é ainda mais direto ao reconhecer que o CAR, por sua natureza declaratória e eletrônica — sem mecanismos de certificação digital ou comparecimento presencial —, não identifica de maneira inequívoca a posse ou propriedade do demandado sobre a área degradada.

O paradoxo da autodenúncia cadastral

A decisão expõe, ainda que indiretamente, aquilo que temos chamado de paradoxo da autodenúncia no sistema do CAR. O produtor é obrigado por lei a declarar seu imóvel no cadastro (art. 29 da Lei 12.651/2012). Essa declaração, que deveria funcionar como instrumento de regularização ambiental e planejamento territorial, transmuta-se em ferramenta de imputação penal, civil e administrativa contra o próprio declarante. Quem não declara fica irregular; quem declara fornece ao Estado o dado que será usado para responsabilizá-lo — mesmo sem qualquer verificação complementar de posse ou propriedade. Como tivemos a oportunidade de tratar na obra Cadastro Ambiental Rural: direito, tecnologia e prática (Thomson Reuters, no prelo, com Dr. Carlos Antonio da Silva Junior), o CAR declaratório não pode ser usado contra o declarante como se fosse prova constituída, sob pena de subverter a finalidade do próprio instrumento.

No caso concreto, a situação é ainda mais grave: o CAR estava pendente de aprovação, com sobreposição total sobre terra pública. Ou seja, o Estado sequer havia validado a informação que ele próprio utilizou para imputar responsabilidade civil milionária a uma pessoa que se declarou estudante universitário sem patrimônio.

O que muda para a defesa de produtores rurais

A sentença fixa um parâmetro probatório que tende a se consolidar na jurisdição ambiental federal: o CAR, desacompanhado de elementos autônomos de prova de posse, domínio fático ou exploração econômica, não sustenta condenação em ação civil pública por dano ambiental. A nosso ver, trata-se de orientação correta e necessária.

Para o produtor rural que enfrenta situação semelhante, a lição é objetiva. Primeiro, reunir documentação que demonstre a ausência de vínculo com a área — consultas ao INCRA, certidões negativas de propriedade, ausência de contratos, notas fiscais ou movimentação econômica relacionada ao imóvel. Segundo, impugnar de forma específica e fundamentada os dados do CAR, apontando pendências de análise, sobreposições e inconsistências cadastrais. Terceiro, exigir que o órgão ministerial ou o órgão ambiental produza prova além do cadastro: inspeção in loco, identificação de benfeitorias, contratos de arrendamento, registros de comercialização de produtos — qualquer elemento que vincule concretamente o réu à atividade degradadora.

Para quem recebeu auto de infração com base exclusivamente em dados do SICAR, o caminho da defesa administrativa e judicial está aberto — e esta sentença reforça que o ônus de provar o nexo causal pertence a quem acusa, não a quem se defende.

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Perguntas Frequentes

O CAR pode ser usado como prova de autoria de desmatamento?
Não isoladamente. O CAR possui natureza declaratória e, conforme o art. 29, §2º, da Lei 12.651/2012, não constitui título de propriedade ou posse. Desacompanhado de provas autônomas de domínio fático ou exploração econômica, o CAR não sustenta condenação por dano ambiental.
Responsabilidade ambiental objetiva dispensa prova de nexo causal?
Não. A responsabilidade objetiva dispensa apenas a prova de culpa, mas o nexo causal entre o réu e o dano continua sendo elemento indispensável para a condenação, conforme o Tema Repetitivo 681 do STJ.
O que acontece quando o CAR está sobreposto a terra pública?
A sobreposição com terra pública enfraquece a imputação de responsabilidade, pois exige prova mais consistente de que o réu efetivamente exercia posse ou controle sobre a área degradada, como reconheceu a 9ª Vara Federal Ambiental do Pará.
A inversão do ônus da prova em ação ambiental é absoluta?
Não. A inversão não dispensa o autor de apresentar um mínimo suporte fático que vincule o réu ao dano. Não pode ser convertida em presunção absoluta de responsabilidade nem impor ao réu a produção de prova negativa impossível.
Como se defender de ação civil pública baseada apenas no CAR?
A defesa deve impugnar especificamente os dados do CAR (pendências, sobreposições, inconsistências), apresentar consultas ao INCRA e certidões que demonstrem ausência de vínculo fundiário, e exigir que o autor produza prova autônoma de posse, exploração econômica ou domínio fático sobre a área.

Este comentário utiliza conceitos do livro Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025), de autoria de Diovane Franco. Saiba mais →

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Diovane Franco
Sobre o autor Diovane Franco

Advogado (OAB/MT 29.530). Especialista em Direito Administrativo. Mestrando em Ciência Jurídica pela UNIVALI. Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025) e coautor de Cadastro Ambiental Rural: direito, prática e tecnologia (Thomson Reuters, 2026). Sócio fundador do Diovane Franco Advogados. Atuou na defesa vencedora do IRDR 94 do TRF1.

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