Jurisprudência Ambiental

STJ: Demolição de imóvel em APP prevalece sobre teoria do fato consumado

03/06/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0001811-52.2003.4.05.8200

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE DECISÕES ESTRANGEIRAS E RECURSOS PARA O STF

Fato

O particular, assistido pela Defensoria Pública da União, ocupou área de manguezal às margens do Rio Acaú, no município de Pitimbu/PB, construindo imóvel em Área de Preservação Permanente. O IBAMA ajuizou ação para demolição da construção irregular, que foi julgada procedente pelo STJ ao dar provimento ao recurso especial.

Questão jurídica

O tribunal enfrentou a tensão entre a proteção constitucional ao meio ambiente e à integridade das Áreas de Preservação Permanente, de um lado, e os direitos fundamentais à moradia digna e à dignidade da pessoa humana de ocupante hipossuficiente, de outro. Discutiu-se, ainda, a aplicabilidade da teoria do fato consumado a ilícitos ambientais consolidados no tempo, bem como a proporcionalidade da demolição imediata e incondicionada sem oferta de alternativa habitacional.

Resultado

O STJ manteve a determinação de demolição do imóvel, reafirmando que a teoria do fato consumado é inaplicável a ilícitos ambientais, conforme a Súmula 613/STJ, sendo inadmissível invocar direito adquirido ou longa permanência para perpetuar ocupação ilegal em APP. O Vice-Presidente do STJ negou seguimento ao recurso extraordinário do particular quanto à alegada ofensa aos arts. 5º, LIV e LV, e 93, IX, da Constituição, com base no Tema 339 do STF, e não o admitiu quanto às demais alegações, por ofensa reflexa e pela Súmula 279 do STF. O pedido de tutela de urgência ficou prejudicado.

Contexto do julgamento

O caso teve origem em ação ajuizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) contra o ocupante de um imóvel construído em área de manguezal às margens do Rio Acaú, no município de Pitimbu, litoral sul da Paraíba. A propriedade estava inserida em Área de Preservação Permanente (APP), categoria de proteção ambiental prevista no Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que veda como regra geral qualquer forma de supressão de vegetação ou edificação nessas zonas, independentemente da destinação do imóvel ou da condição econômica do ocupante.

A controvérsia chegou ao Superior Tribunal de Justiça após tramitar pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região, que havia ponderado os valores em conflito e reconhecido a proteção à moradia e à dignidade humana do ocupante hipossuficiente como fundamento para afastar a determinação de demolição. O STJ, ao apreciar o recurso especial do IBAMA, reverteu esse entendimento por meio de decisão monocrática e, posteriormente, em sede de agravo interno, manteve a ordem de demolição do imóvel. Depois que os embargos de declaração opostos a esse acórdão não foram conhecidos, o ocupante interpôs recurso extraordinário ao Supremo Tribunal Federal, alegando violação a múltiplos dispositivos constitucionais, incluindo a dignidade da pessoa humana, o direito social à moradia e o princípio da proporcionalidade. A decisão comentada aqui é a do Vice-Presidente do STJ, Ministro Luis Felipe Salomão, que examinou a admissibilidade desse recurso. Ele negou seguimento ao recurso extraordinário quanto à alegada ofensa aos arts. 5º, LIV e LV, e 93, IX, da Constituição, com base no Tema 339 do STF, e não o admitiu quanto às demais alegações, por se tratar de ofensa reflexa e por exigir reexame de provas (Súmula 279 do STF). O pedido de tutela de urgência ficou prejudicado.

O Município de Pitimbu ingressou no feito como interessado, informando ao tribunal que havia instituído, por meio do Decreto Municipal nº 077/2023, o programa Regulariza Pitimbu, voltado à implementação da Regularização Fundiária Urbana (REURB) nos termos da Lei Federal nº 13.465/2017. O município argumentou que a demolição imediata obstaculizaria a aplicação do instrumento urbanístico criado justamente para lidar com situações de ocupação consolidada por população de baixa renda, sugerindo que a REURB-S poderia ser a via adequada para equacionar o conflito entre moradia e meio ambiente no caso concreto.

Fundamentos da decisão

O núcleo da decisão repousa na aplicação da Súmula 613 do STJ, segundo a qual não se admite, em matéria de Direito Ambiental, a invocação da teoria do fato consumado para consolidar ou legitimar ocupações ilegais em áreas ambientalmente protegidas. O tribunal reafirmou que direitos e garantias fundamentais, ainda que relevantes, não têm o condão de chancelar condutas lesivas ao meio ambiente nem de conferir direito adquirido ao particular que edifica em APP. Nesse sentido, a longa permanência do ocupante na área não é capaz de sanar o ilícito ambiental, pois a passagem do tempo não transforma em lícita uma conduta originariamente proibida pelo ordenamento jurídico, sob pena de esvaziar completamente a proteção conferida pelo art. 225 da Constituição Federal às áreas de especial relevância ecológica.

Outro ponto central debatido foi a alegada violação ao princípio da proporcionalidade. A defesa sustentou que a demolição imediata e incondicionada seria medida excessiva, pois haveria instrumentos normativos menos gravosos capazes de conciliar proteção ambiental e direito à moradia. A Vice-Presidência do STJ não examinou essa alegação no mérito. Entendeu que a matéria depende da legislação ambiental, de modo que eventual ofensa à Constituição seria reflexa, e que afastar os pressupostos fáticos do acórdão exigiria reexame de provas, vedado pela Súmula 279 do STF. Antes, no agravo interno, a Primeira Turma já havia afirmado que a revaloração jurídica dos fatos incontroversos — notadamente a localização do imóvel em manguezal — não configura reexame de provas vedado pela Súmula 7/STJ. A decisão ressaltou que reconhecer a inaplicabilidade do regime das APPs em razão do adensamento populacional significaria, indiretamente, admitir que a transformação antrópica da área justificaria qualquer forma de degradação ambiental, criando um perverso incentivo à ocupação irregular de espaços protegidos. Para uma compreensão mais ampla sobre as consequências administrativas das infrações ambientais, vale consultar o guia sobre embargo ambiental, que detalha os instrumentos de que dispõe o poder público para fazer cessar danos ao meio ambiente.

No que tange à alegada omissão quanto à compensação patrimonial por benfeitorias realizadas de boa-fé e à ausência de prestação jurisdicional nos embargos de declaração, o tribunal aplicou a tese vinculante firmada no Tema 339 do STF. Segundo esse precedente, o art. 93, IX, da Constituição Federal exige fundamentação suficiente para a solução da controvérsia, mas não impõe o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas apresentadas pelas partes. Assim, o acórdão recorrido, ao apresentar os fundamentos determinantes de sua conclusão sobre a inaplicabilidade da teoria do fato consumado e a localização incontroversa do imóvel em APP, cumpriu satisfatoriamente o dever constitucional de motivação das decisões judiciais, não havendo que se falar em nulidade por negativa de prestação jurisdicional.

Alcance da decisão

A decisão reforça a jurisprudência consolidada do STJ no sentido de que a teoria do fato consumado é absolutamente incompatível com o Direito Ambiental brasileiro, sendo inadmissível sua aplicação para perpetuar ocupações em Áreas de Preservação Permanente, independentemente do tempo decorrido, da boa-fé do ocupante ou de sua condição socioeconômica. Esse entendimento encontra respaldo em numerosos precedentes da Corte, dentre os quais se destacam os julgados que deram origem à Súmula 613/STJ, e parte da premissa de que o bem ambiental é de titularidade difusa, pertencente às presentes e futuras gerações, razão pela qual sua proteção não pode ser objeto de renúncia por ato individual nem ser afastada pela inércia do Estado em fiscalizar irregularidades.

No plano constitucional, a decisão sinaliza que o conflito entre direito à moradia e proteção ambiental deve ser resolvido por meio de políticas públicas habitacionais — como a REURB prevista na Lei nº 13.465/2017 — e não pela relativização das normas ambientais protetivas. A responsabilidade pela oferta de alternativa habitacional à população removida de APPs recai sobre o Poder Público, especialmente sobre os municípios no exercício de sua competência urbanística, e não autoriza o Poder Judiciário a afastar a ordem de demolição determinada em tutela do meio ambiente. O acórdão do agravo interno ressalvou, porém, que, se a REURB vier a ser implementada de fato na área, isso poderá configurar fato novo, a ser alegado no momento próprio e na via adequada. Já o REsp 2.100.050/RS, julgado pela Primeira Turma em agosto de 2024, foi citado apenas para afirmar que a revaloração jurídica de fatos incontroversos não esbarra na Súmula 7/STJ, e não para tratar de moradia ou de fato consumado.

Perguntas Frequentes

O que é a teoria do fato consumado em Direito Ambiental?
A teoria do fato consumado é uma tese jurídica que busca legitimar situações consolidadas pelo tempo, mesmo que originariamente ilegais. No Direito Ambiental brasileiro, essa teoria é expressamente rejeitada pela Súmula 613 do STJ, que veda sua aplicação para consolidar ocupações irregulares em áreas ambientalmente protegidas, independentemente do tempo decorrido ou da boa-fé do ocupante.
Pode haver demolição de imóvel construído em área de preservação permanente?
Sim. No caso comentado, o STJ julgou procedente o pedido de demolição de imóvel construído em manguezal, área de preservação permanente, aplicando sua jurisprudência sobre o tema. A Súmula 613 estabelece que não se admite invocar a teoria do fato consumado para legitimar ocupações em áreas de preservação permanente, sendo a demolição a consequência natural da ocupação ilegal, mesmo que o imóvel sirva de moradia.
O direito à moradia pode afastar a ordem de demolição em APP?
Não, o direito à moradia não tem o condão de afastar a ordem de demolição em área de preservação permanente. Segundo o STJ, o conflito entre direito à moradia e proteção ambiental deve ser resolvido por meio de políticas públicas habitacionais, como a REURB, e não pela relativização das normas ambientais protetivas das APPs.
Qual é a Súmula 613 do STJ sobre áreas ambientalmente protegidas?
A Súmula 613 do STJ estabelece que não se admite, em matéria de Direito Ambiental, a invocação da teoria do fato consumado para consolidar ou legitimar ocupações ilegais em áreas ambientalmente protegidas. Esta súmula foi reafirmada na decisão que determinou demolição de imóvel em manguezal na Paraíba, demonstrando que a proteção ambiental prevalece sobre a consolidação temporal.
Como a REURB pode resolver conflitos entre moradia e meio ambiente?
A Regularização Fundiária Urbana (REURB), prevista na Lei 13.465/2017, é o instrumento legal adequado para equacionar conflitos entre direito à moradia e proteção ambiental. Municípios podem instituir programas como o Regulariza Pitimbu para implementar a REURB-S em ocupações consolidadas de baixa renda, mas isso não afasta automaticamente ordens judiciais de demolição em APPs já determinadas.
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