Jurisprudência Ambiental

Relator do STJ veta conversão judicial de multa por criação de pássaros

24/03/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0079121-46.2009.4.01.3800

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Um criador de pássaros foi autuado pelo IBAMA por manter em cativeiro 18 pássaros da fauna silvestre brasileira sem o devido registro junto ao órgão ambiental competente, tendo recebido multa no valor de R$ 9.000,00. O autuado, declarando renda mensal de um salário mínimo, buscou judicialmente a conversão da sanção pecuniária em prestação de serviços ambientais, com fundamento no art. 72, § 4º, da Lei 9.605/1998.

Questão jurídica

A questão central debatida pelo STJ consiste em saber se o Poder Judiciário pode converter a multa administrativa ambiental aplicada pelo IBAMA em prestação de serviços de preservação e recuperação do meio ambiente, à luz do art. 72, § 4º, da Lei de Crimes Ambientais. O princípio da insignificância, afastado pelo TRF6, não foi objeto da decisão do STJ.

Resultado

O Tribunal Regional Federal da 6ª Região manteve a sentença de primeiro grau que converteu a multa de R$ 9.000,00 em prestação de serviços ambientais, considerando a situação socioeconômica do infrator e a finalidade pedagógica da Lei 9.605/1998. No STJ, o relator, em decisão monocrática, deu provimento ao recurso especial do IBAMA, considerou ilegal a conversão e manteve a multa inicialmente arbitrada pelo órgão.

Contexto do julgamento

O caso tem origem em ação anulatória movida por um criador de pássaros contra o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), após a lavratura do Auto de Infração n° 593248/D, que lhe impôs multa de R$ 9.000,00 pela manutenção irregular de 18 pássaros da fauna silvestre brasileira em cativeiro, sem o devido registro e anilhamento perante o órgão ambiental competente. A conduta está tipificada no art. 29, § 1º, inciso III, da Lei 9.605/1998, que proíbe a manutenção de espécimes da fauna silvestre sem autorização, sujeitando o infrator às sanções administrativas previstas no art. 72 do mesmo diploma legal.

O autuado, declarando renda mensal equivalente a um salário mínimo, ingressou com ação judicial pleiteando, entre outros pedidos, a conversão da multa aplicada em prestação de serviços de preservação e recuperação ambiental, nos termos do art. 72, § 4º, da Lei de Crimes Ambientais. O juízo de primeiro grau acolheu o pedido, fundamentando-se na situação econômica do infrator e na finalidade pedagógica da norma. O IBAMA recorreu ao Tribunal Regional Federal da 6ª Região, que negou provimento ao apelo e manteve a sentença, reconhecendo a legalidade da conversão, mas reafirmando a correção do auto de infração lavrado. Irresignado, o IBAMA interpôs recurso especial ao Superior Tribunal de Justiça, e o relator, Ministro Paulo Sérgio Domingues, em decisão monocrática, deu provimento ao recurso, considerou ilegal a conversão e manteve a multa inicialmente arbitrada pelo IBAMA.

O caso envolve ainda a discussão acerca do regime jurídico aplicável à criação amadorista de passeriformes, disciplinada pela Instrução Normativa IBAMA n° 15/2010, que exige o cadastramento do criador no Sistema de Cadastramento de Passeriformes (SISPASS) e o registro e anilhamento de cada ave mantida em cativeiro. A ausência dessas formalidades, ainda que a criação não tenha finalidade comercial, configura infração administrativa sujeita às penalidades previstas na legislação ambiental, independentemente de as espécies estarem ou não ameaçadas de extinção.

Fundamentos da decisão

O acórdão do TRF6, depois reformado pelo STJ quanto à conversão da multa, enfrentou inicialmente a pretensão de aplicação do princípio da insignificância à conduta do autuado. O tribunal rejeitou essa tese de forma categórica, alinhando-se à jurisprudência consolidada no sentido de que os crimes e infrações administrativas contra a fauna silvestre têm natureza de perigo abstrato, o que impede a mensuração objetiva do dano ao bem jurídico tutelado. Nesse contexto, a proteção da fauna somente se torna efetiva quando estendida a cada exemplar individualmente considerado, pois é a agressão individual que coloca em risco a preservação da espécie como um todo. Esse entendimento reflete a lógica do direito ambiental, que tutela não apenas o indivíduo animal, mas o equilíbrio do ecossistema e a biodiversidade como patrimônio coletivo das presentes e futuras gerações, em conformidade com o art. 225 da Constituição Federal.

No que se refere à conversão da multa em prestação de serviços ambientais, o acórdão realizou uma interpretação lógico-sistemática dos arts. 6º, 72 e 29, § 2º, da Lei 9.605/1998, concluindo que o legislador conferiu ao julgador a possibilidade de substituir a sanção pecuniária por medidas de caráter educativo e reparatório, desde que as circunstâncias do caso concreto assim o justifiquem. A prestação de serviços consiste na realização de tarefas gratuitas junto a parques, jardins públicos e unidades de conservação, atendendo simultaneamente à função punitiva e à função pedagógica da norma ambiental. Para o TRF6, o Poder Judiciário, ao exercer esse controle, não invadiria a discricionariedade administrativa do IBAMA, mas verificaria a legalidade e a proporcionalidade da sanção aplicada. Foi esse o ponto rejeitado pelo STJ, para quem a conversão é matéria da discricionariedade da Administração, a ser requerida pelo interessado na fase administrativa adequada, conforme os arts. 142 e 145, § 1º, do Decreto 6.514/2008. Para uma compreensão mais ampla sobre as modalidades de sanção administrativa em matéria ambiental, incluindo as hipóteses de embargo ambiental, é fundamental analisar o conjunto de instrumentos previstos no art. 72 da Lei 9.605/1998 e sua aplicação proporcional às circunstâncias de cada infração.

O acórdão do TRF6 também ressaltou que a legislação ambiental distingue claramente o comércio ilegal de animais silvestres da manutenção doméstica sem fins lucrativos, conferindo ao magistrado margem de ponderação na dosimetria da pena administrativa. O art. 29, § 2º, da Lei 9.605/1998 chega a admitir, nas hipóteses de guarda doméstica de espécie não ameaçada de extinção, que o juiz deixe de aplicar qualquer penalidade, considerando as circunstâncias. Esse gradiente sancionatório reflete a preocupação do legislador com a proporcionalidade e com a efetividade pedagógica da resposta estatal às infrações ambientais de menor potencial ofensivo, sem prejuízo da proteção rigorosa devida à fauna silvestre.

Alcance da decisão

O acórdão do TRF6 afastou o princípio da insignificância na manutenção de fauna silvestre em cativeiro, por se tratar de conduta de perigo abstrato cujo dano não pode ser mensurado, e citou um precedente do TRF3. Esse ponto não foi objeto da decisão do STJ, que tratou apenas da conversão da multa. Já o AREsp 1.885.107/RJ, relatado pelo Ministro Francisco Falcão, e os acórdãos do TRF1 nos processos AC 0030950-21.2014.4.01.3400 e AC 0004500-66.2014.4.01.4200 foram citados pelo TRF6 para sustentar que o juiz pode deixar de aplicar a pena ou convertê-la conforme as circunstâncias do caso, orientação que o STJ, nesta decisão, não acolheu.

Quanto à conversão da multa administrativa em prestação de serviços ambientais, o STJ concluiu que o acórdão do TRF6 contrariava a sua jurisprudência, pois a conversão prevista no art. 72, § 4º, da Lei 9.605/1998 é matéria da discricionariedade da Administração, e cabe ao interessado requerê-la na fase administrativa adequada, conforme os arts. 142 e 145, § 1º, do Decreto 6.514/2008. Com apoio no AgInt no REsp 1.995.800/PE e no REsp 2.018.144/AL, o relator afirmou que não cabe ao Poder Judiciário, no exercício do controle de legalidade, substituir-se à Administração para determinar a conversão quando ausentes os requisitos formais e materiais da legislação regulamentadora. Por isso manteve a multa arbitrada pelo IBAMA, embora o TRF6 tivesse considerado a situação socioeconômica do autuado.

Perguntas Frequentes

É possível converter multa ambiental por criação de pássaros em prestação de serviços?
A lei prevê a conversão (art. 72, § 4º, da Lei 9.605/1998), mas, neste caso, o relator no STJ considerou ilegal a conversão determinada pela Justiça e manteve a multa do IBAMA. Para o STJ, a conversão é decisão discricionária da Administração e deve ser requerida na fase administrativa adequada, conforme os arts. 142 e 145, § 1º, do Decreto 6.514/2008.
O princípio da insignificância se aplica a infrações com poucos animais silvestres?
Não. Neste caso, o TRF6 afastou o princípio da insignificância nas infrações contra a fauna silvestre, e esse ponto não foi discutido no STJ. Os crimes e infrações administrativas têm natureza de perigo abstrato, sendo impossível mensurar objetivamente o dano. A proteção da fauna exige resposta normativa efetiva a cada conduta lesiva, independentemente da quantidade de animais.
Qual a base legal para conversão de multa ambiental em serviços?
A conversão está prevista no art. 72, § 4º, da Lei 9.605/1998, que permite substituir sanção pecuniária por prestação de serviços ambientais. O TRF6 interpretou sistematicamente os arts. 6º, 72 e 29, § 2º da lei para admitir a substituição pelo juiz, mas o STJ reformou esse entendimento, porque a conversão depende da Administração, nos termos dos arts. 142 e 145, § 1º, do Decreto 6.514/2008.
O controle judicial da multa ambiental viola a separação de poderes?
Neste caso, o relator no STJ entendeu que o Judiciário não pode substituir-se à Administração para determinar a conversão da multa quando ausentes os requisitos formais e materiais da legislação regulamentadora, pois a conversão é matéria da discricionariedade do IBAMA. O controle de legalidade da sanção continua cabível, mas não autoriza o juiz a impor a conversão.
Quais critérios o juiz deve considerar para converter multa ambiental?
Segundo a decisão do STJ, a conversão não cabe ao juiz, e sim à autoridade ambiental, e o interessado deve requerê-la na fase administrativa adequada, conforme os arts. 142 e 145, § 1º, do Decreto 6.514/2008. Neste caso, a situação socioeconômica do autuado, considerada pelo TRF6, não bastou para manter a conversão determinada pela Justiça. A prestação de serviços deve ser realizada em parques, jardins públicos e unidades de conservação, cumprindo função punitiva e pedagógica.
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