Jurisprudência Ambiental

STJ afasta insignificância em venda de arara-canindé: crime ambiental mantido

28/05/2026 STJ Recurso Ordinário em Habeas Corpus Processo: 0713474-54.2025.8.07.0000

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL

Fato

Um homem foi condenado por expor à venda uma arara-canindé (Ara ararauna) sem autorização legal, conduta tipificada no art. 29, §1º, III, da Lei n. 9.605/1998. O animal era comercializado pelo valor de R$ 2.000,00, e o réu, reincidente, teve sua pena fixada em 6 meses e 20 dias de detenção em regime semiaberto, mais 15 dias-multa. A defesa, representada pela Defensoria Pública do Distrito Federal, buscou o reconhecimento do princípio da insignificância para absolver o acusado.

Questão jurídica

A questão central consistiu em definir se a conduta de expor à venda um único espécime de fauna silvestre protegida, sem autorização legal, praticada por agente em situação de vulnerabilidade socioeconômica, poderia ser considerada materialmente insignificante e, portanto, atípica. Subsidiariamente, discutiu-se a possibilidade de concessão de perdão judicial previsto no art. 29, §2º, da Lei de Crimes Ambientais. O STJ foi instado a se pronunciar após o Tribunal de Justiça do Distrito Federal denegar a ordem de habeas corpus em sede de reexame determinado pela própria Corte Superior.

Resultado

O STJ, por meio da Ministra Relatora Maria Marluce Caldas, reconsiderou a decisão anterior que não conhecia do recurso e passou a analisar o mérito, concluindo pelo desprovimento do Recurso Ordinário em Habeas Corpus. A Corte manteve o entendimento de que o princípio da insignificância é inaplicável à conduta de comercialização de animal silvestre, diante da relevância do bem jurídico tutelado, da reincidência do agente e do dolo específico de obtenção de lucro. O perdão judicial também foi afastado por não se tratar de simples posse, mas de efetiva tentativa de comercialização por valor expressivo.

Contexto do julgamento

O caso teve origem na condenação do réu pela prática do crime previsto no art. 29, §1º, III, da Lei n. 9.605/1998, em razão de ter exposto à venda uma arara-canindé (Ara ararauna) sem a devida autorização do órgão ambiental competente. Em primeiro grau, o réu foi condenado a 8 meses de detenção em regime semiaberto e 20 dias-multa. Em sede recursal, a Turma Recursal do Distrito Federal reduziu a pena para 6 meses e 20 dias de detenção e 15 dias-multa, mantidos os demais termos da condenação, incluindo o regime inicial semiaberto, fundamentado na reincidência do acusado, conforme orientação da Súmula 269 do STJ.

A trajetória processual do caso é marcada por relevante debate sobre a competência revisional. Em um primeiro momento, o STJ, ao apreciar o RHC n. 219.141/DF, não conheceu do recurso ordinário, mas concedeu habeas corpus de ofício para determinar que o Tribunal de origem enfrentasse o mérito das teses defensivas, que até então não tinham sido analisadas. Cumprida a determinação, o TJDFT denegou a ordem, afastando tanto o princípio da insignificância quanto o perdão judicial. Sobreveio, então, novo recurso ordinário ao STJ, que inicialmente não foi conhecido por suposta reiteração de pedidos, mas, após agravo regimental da Defensoria Pública, a relatora reconsiderou sua decisão e procedeu ao exame do mérito.

O caso envolve a comercialização de espécime pertencente à fauna silvestre brasileira por valor de R$ 2.000,00, circunstância que se mostrou determinante para afastar os pleitos da defesa. O acusado, descrito como pessoa em situação de vulnerabilidade socioeconômica e com baixa escolaridade, foi representado pela Defensoria Pública, que sustentou a ausência de tipicidade material da conduta diante da mínima ofensividade ao bem jurídico tutelado.

Fundamentos da decisão

O núcleo do debate jurídico residiu na (in)aplicabilidade do princípio da insignificância aos crimes ambientais, especificamente àqueles que tutelam a fauna silvestre. A defesa argumentou que todos os vetores exigidos pela jurisprudência do STF e do STJ para o reconhecimento do postulado estariam presentes: mínima ofensividade da conduta, ausência de periculosidade social do agente, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão jurídica provocada. Sustentou, ainda, que a apreensão de um único espécime, sem registro de maus-tratos, não seria capaz de gerar lesão relevante ao ecossistema. Embora o debate tenha natureza estritamente penal, a compreensão adequada da tutela ambiental exige o diálogo com o direito ambiental administrativo, onde instrumentos como o embargo ambiental revelam a seriedade com que o ordenamento jurídico brasileiro trata condutas lesivas ao meio ambiente, inclusive aquelas aparentemente individualizadas.

O Tribunal de origem e o STJ, contudo, convergiam no entendimento de que a conduta não poderia ser considerada materialmente insignificante. O bem jurídico protegido pelo art. 29 da Lei n. 9.605/1998 é a fauna silvestre e, por extensão, o equilíbrio ecológico e o meio ambiente como direito fundamental de titularidade difusa, nos termos do art. 225 da Constituição Federal. A comercialização não autorizada de animais silvestres alimenta o tráfico de fauna, atividade que representa uma das principais ameaças à biodiversidade brasileira. O dolo específico de obtenção de lucro, evidenciado pelo preço expressivo de R$ 2.000,00 cobrado pelo animal, afastou qualquer possibilidade de enquadramento da conduta como episódio de baixa reprovabilidade.

Quanto ao perdão judicial, previsto no art. 29, §2º, da Lei de Crimes Ambientais, a relatora também o afastou: o benefício é reservado a hipóteses excepcionais, de reduzida censurabilidade, o que não ocorre quando há tentativa de comercialização do animal silvestre com propósito econômico por agente reincidente. Para o STJ, a reincidência também inviabiliza a insignificância, porque afasta o reduzidíssimo grau de reprovabilidade e a ausência de periculosidade social da ação. O regime semiaberto, fundado na reincidência e na Súmula 269 do STJ, foi mantido pelo TJDFT, e a decisão do STJ não voltou ao tema.

Alcance da decisão

O julgamento reafirma o entendimento consolidado no âmbito do STJ no sentido de que o princípio da insignificância, embora aplicável em tese aos crimes ambientais, demanda análise minuciosa das circunstâncias do caso concreto, não sendo cabível sua aplicação automática ou meramente quantitativa. A presença de dolo específico de obtenção de vantagem econômica, a reincidência do agente e a relevância do bem jurídico tutelado são fatores que, isolados ou combinados, impedem o reconhecimento da atipicidade material. O precedente alinha-se a outros julgados da Corte que recusam a insignificância em crimes contra a fauna quando há comercialização, tráfico ou exploração econômica do recurso natural.

No plano processual, a decisão monocrática registra um ponto útil: depois que o STJ concede habeas corpus de ofício para o tribunal de origem examinar o mérito, o novo recurso ordinário contra o acórdão proferido em cumprimento ataca outro acórdão, não repete o primeiro recurso, e o mérito, já enfrentado na origem, pode ser examinado pelo STJ. Nessa hipótese, o STJ reconhece sua competência para apreciar o mérito do segundo recurso, afastando a tese de reiteração de pedidos, conforme expressamente reconhecido pela Ministra Relatora ao reconsiderar a decisão agravada no AgRg no RHC 229.966/DF.

Perguntas Frequentes

O princípio da insignificância se aplica a crimes contra a fauna silvestre?
O princípio da insignificância pode se aplicar a crimes contra a fauna, mas exige análise rigorosa do caso concreto. O STJ não aceita sua aplicação automática, especialmente quando há finalidade comercial, reincidência ou valor econômico expressivo. A simples apreensão de um único animal não garante o reconhecimento da insignificância.
Qual o valor da arara-canindé que impediu a aplicação da insignificância?
A arara-canindé estava sendo comercializada por R$ 2.000,00, valor considerado expressivo pelo STJ. Este preço demonstrou o dolo específico de obtenção de lucro e afastou a possibilidade de considerar a conduta como de baixa reprovabilidade, impedindo o reconhecimento do princípio da insignificância.
O perdão judicial se aplica à comercialização de animais silvestres?
Não, o perdão judicial previsto no art. 29, §2º da Lei de Crimes Ambientais foi concebido para a guarda doméstica de espécie silvestre não considerada ameaçada de extinção. Neste caso, o STJ negou o perdão porque houve tentativa de comercialização do animal, com propósito econômico, por agente reincidente.
A reincidência influencia na aplicação da insignificância em crimes ambientais?
Sim, a reincidência é fator determinante para afastar o princípio da insignificância em crimes ambientais. No caso da arara-canindé, a reincidência do acusado reforçou a manutenção da condenação e justificou o regime semiaberto, conforme orientação da Súmula 269 do STJ.
Como o STJ analisa crimes de comercialização de fauna silvestre?
Neste caso, o STJ considerou que expor à venda animal silvestre sem autorização vai além da mera posse irregular e revela intento de comercialização ilícita com finalidade econômica, o que acentua a reprovabilidade da conduta. A análise leva em conta o bem jurídico protegido (fauna silvestre e equilíbrio ecológico), a finalidade lucrativa, o valor econômico e as circunstâncias pessoais do agente.
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