Jurisprudência Ambiental

TRF2 nega efeito suspensivo e mantém adquirente de saibro em ACP

03/11/2025 trf2 Agravo de Instrumento Processo: 5014758-27.2025.4.02.0000

SECRETARIA DA 6ª TURMA ESPECIALIZADA

Fato

A União Federal ajuizou ação civil pública contra uma mineradora, outras empresas e seus sócios, o INEA, o Município do Rio de Janeiro e um consórcio de construtoras. Alegou lavra ilegal de saibro em desacordo com a autorização do então DNPM, entre julho de 2015 e maio de 2016, com supressão de vegetação de Mata Atlântica. O consórcio foi incluído no polo passivo por ter sido favorecido pelo saibro usado em uma via expressa de BRT contratada pelo Município; ele atribui a irregularidade a uma divergência entre os sistemas de coordenadas DATUM e SIRGAS.

Questão jurídica

O tribunal é instado a examinar se o consórcio adquirente do material mineral pode ser mantido no polo passivo de ação civil pública ambiental quando afirma ter exigido e obtido toda a documentação autorizativa antes da aquisição, sem participação direta na extração. Discute-se também se a teoria da responsabilidade civil ambiental pelo risco integral dispensa a verificação do nexo causal entre a conduta do adquirente e o dano ambiental apontado.

Resultado

O juízo de primeiro grau rejeitou a preliminar de ilegitimidade passiva do consórcio, determinou a apresentação de notas fiscais e comprovantes de depósito e ordenou a inclusão das empresas consorciadas no polo passivo. No agravo de instrumento, o relator da 6ª Turma Especializada do TRF2 indeferiu, em decisão monocrática, o efeito suspensivo. Para ele, a legitimidade se afere pela petição inicial e o nexo causal fica para a sentença; a inclusão das consorciadas decorre da solidariedade, e as notas são necessárias à instrução. O mérito do agravo ficou para julgamento pela Turma.

Contexto do julgamento

O caso tem origem em ação civil pública ajuizada pela União Federal em 2017, hoje em trâmite na 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, autuada sob o nº 0178402-41.2017.4.02.5101, em que se apura a extração irregular de saibro por uma mineradora entre julho de 2015 e maio de 2016. Segundo a União, as rés exploraram o saibro em desacordo com a autorização do então DNPM, com supressão de vegetação de Mata Atlântica. Segundo o consórcio agravante, não houve operação clandestina, mas uma divergência técnica entre os sistemas de coordenadas geodésicas DATUM e SIRGAS, que teria deslocado as poligonais da área autorizada pela licença ambiental do INEA (LO nº IN 024309) e pela concessão de lavra do então DNPM (processo nº 890.179/2002). O agravante afirma que o próprio INEA reconheceu, em relatório de vistoria, o equívoco na adoção de sistemas de referência distintos no momento da emissão dos atos autorizativos.

O consórcio responsável pela construção de uma via expressa de BRT contratada pelo Município do Rio de Janeiro foi incluído no polo passivo porque, segundo a petição inicial, foi o favorecido pelo saibro extraído irregularmente e usado na obra. O consórcio alega que, antes da aquisição, exigiu e obteve da fornecedora a licença ambiental e a portaria de lavra, que afirma serem vigentes à época das compras. Não obstante, o juízo de primeiro grau manteve o consórcio no polo passivo, determinou a exibição de notas fiscais e comprovantes de depósito, e ainda ordenou a inclusão das empresas consorciadas individualmente na lide, após quase dez anos de tramitação processual.

Diante dessa decisão interlocutória, o consórcio interpôs agravo de instrumento no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, distribuído à 6ª Turma Especializada sob o nº 5014758-27.2025.4.02.0000, pedindo efeito suspensivo e a reforma da decisão agravada. Em decisão monocrática disponibilizada em 3 de novembro de 2025, o relator conheceu do agravo e indeferiu o efeito suspensivo. O mérito do recurso ficou para julgamento pela Turma, depois da resposta da União e do parecer do MPF. O recurso suscita questões relevantes sobre os limites da responsabilidade civil ambiental, o alcance da teoria do risco integral e a segurança jurídica nas relações comerciais que envolvem insumos de origem mineral.

Fundamentos da decisão

O cerne da controvérsia reside na extensão da responsabilidade civil ambiental objetiva prevista no art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente) e no art. 225, § 3º, da Constituição Federal. A teoria do risco integral, adotada pelo Superior Tribunal de Justiça em matéria ambiental, dispensa a demonstração de culpa, mas não elimina a necessidade de comprovação do nexo de causalidade entre a conduta do agente e o dano verificado. O agravante sustenta, com base nessa distinção, que ter adquirido material de fornecedor que apresentou licença não estabelece vínculo causal suficiente para sua responsabilização. O relator não acolheu o argumento nesta fase. Pela teoria da asserção, a legitimidade se afere pelo que diz a petição inicial, que aponta o consórcio como beneficiário direto da extração ilegal; a existência ou não de nexo causal é matéria de mérito, a ser decidida na sentença, depois da instrução. O relator acrescentou que a ilegitimidade já havia sido remetida ao mérito pela 1ª Vara Federal, sem recurso, o que aparentemente gerou preclusão. A questão se aproxima do debate sobre o conceito de embargo ambiental e suas repercussões sobre terceiros que mantiveram relação comercial lícita com o empreendedor autuado.

No que diz respeito à exibição de documentos, o agravante invoca o prazo decadencial de guarda de documentos fiscais estabelecido pela legislação tributária, sustentando que, transcorridos mais de cinco anos das transações, não subsiste obrigação legal de conservação das notas fiscais. Argumenta, ainda, que tais documentos não serviriam como parâmetro adequado para a apuração dos danos ambientais ou para eventual fixação de indenização, tornando a medida desproporcional e sem utilidade para a instrução probatória. Quanto à inclusão das empresas consorciadas no polo passivo, o agravante aponta contradição lógica na decisão recorrida: o próprio juízo reconheceu que o consórcio possui personalidade judiciária e, portanto, capacidade processual para representar suas consorciadas, o que tornaria desnecessária e tardia a citação individual das empresas integrantes. O relator rejeitou os dois pontos em juízo preliminar. Para ele, a proteção do meio ambiente autoriza ampla iniciativa probatória do juiz (art. 370 do CPC), o que afasta o prazo de guarda da legislação fiscal, e as notas são necessárias ao julgamento do mérito, ainda mais com o ônus da prova já invertido contra os réus. Quanto às consorciadas, a solidariedade entre os causadores do dano (art. 225, § 3º, da Constituição e arts. 3º, IV, e 14, § 1º, da Lei 6.938/1981) justifica a inclusão, que, segundo a decisão agravada, já constava como pedido na inicial. Além disso, o consórcio não tem legitimidade recursal para pedir, em nome delas, a exclusão de empresas com personalidade jurídica própria.

Do ponto de vista dos princípios ambientais, o caso também convoca reflexão sobre os limites do princípio do poluidor-pagador e do princípio da precaução. A responsabilização solidária irrestrita de todos os agentes que, ainda que de forma indireta, tenham se relacionado economicamente com a atividade lesiva pode gerar efeitos adversos sobre a segurança jurídica e sobre a viabilidade de obras públicas relevantes, sem necessariamente produzir resultado mais eficaz na reparação do dano ambiental. A razoabilidade e a proporcionalidade, como vetores hermenêuticos constitucionais, impõem que a extensão subjetiva da responsabilidade ambiental guarde correspondência com a efetiva contribuição causal de cada agente para o resultado danoso.

Teses em debate

O agravante apoiou suas teses no repetitivo do STJ (REsp 1.596.081/PR), que, segundo ele, exige, mesmo na responsabilidade ambiental objetiva e fundada no risco integral, a comprovação do nexo causal entre a atividade e o dano. A decisão do relator não seguiu essa linha nesta fase: afirmou que o debate sobre o nexo causal pertence ao mérito. Citou o STJ apenas para aplicar a teoria da asserção (AgInt nos EDcl no REsp 1.760.178/RS) e a taxatividade mitigada do art. 1.015 do CPC (Tema 988), que permitiu conhecer do agravo.

Quanto à personalidade judiciária, o relator reconheceu que o consórcio tem capacidade para ser parte. Entendeu, porém, que isso não impede a inclusão das empresas consorciadas no polo passivo, como responsáveis solidárias, e que o juiz pode determinar essa inclusão até de ofício. O julgamento do presente recurso pelo TRF2 tem potencial para consolidar entendimento relevante sobre a delimitação subjetiva da responsabilidade ambiental em cadeias de fornecimento mineral, tema de crescente importância para o licenciamento ambiental de obras de infraestrutura pública no Brasil.

Perguntas Frequentes

Quem pode ser responsabilizado em ação civil pública por extração minerária irregular?
A responsabilidade ambiental é objetiva e solidária entre os causadores do dano. No caso julgado pelo TRF2, o relator manteve no polo passivo o consórcio que comprou o saibro, apontado na inicial como beneficiário direto da extração ilegal, e deixou para a sentença a discussão sobre o nexo causal e a regularidade das licenças apresentadas.
A teoria do risco integral elimina a necessidade de nexo causal em danos ambientais?
Não. Embora a responsabilidade civil ambiental seja objetiva e fundada no risco integral, o nexo de causalidade permanece como pressuposto da obrigação de reparar, como sustentou o agravante com base no repetitivo do STJ (REsp 1.596.081/PR). No caso, o relator do TRF2 entendeu que a existência do nexo é matéria de mérito, a ser apurada na sentença, e não motivo para excluir o réu antes dela.
Erro de coordenadas geodésicas pode invalidar licença ambiental de mineração?
Sim. Divergências técnicas entre sistemas de coordenadas DATUM e SIRGAS podem provocar deslocamento das poligonais da área licenciada, configurando irregularidade na extração. Quando o próprio órgão ambiental reconhece o equívoco na adoção de sistemas de referência distintos, isso pode afetar a validade da licença.
Consórcio tem personalidade judiciária para responder sozinho em ação ambiental?
O consórcio tem personalidade judiciária e pode ser parte. No caso, porém, o relator do TRF2 entendeu que isso não impede a inclusão das empresas consorciadas no polo passivo, porque os causadores do dano ambiental respondem solidariamente, e que o consórcio não tem legitimidade para recorrer em nome delas.
Qual o prazo para guarda de documentos fiscais em processos ambientais?
A legislação tributária costuma ser lida como fixando em cinco anos o prazo de guarda de documentos fiscais. No caso, porém, o relator do TRF2 entendeu que, em ação civil pública ambiental, a ampla iniciativa probatória do juiz (art. 370 do CPC) afasta essa limitação temporal, e manteve a ordem de apresentar as notas fiscais e os comprovantes de depósito.
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