STJ mantém condenação por extração ilegal de granito sem dedução de custos
SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO
A União ajuizou ação de cobrança contra uma empresa do ramo de granitos buscando o ressarcimento ao erário de R$ 2.227.528,00, valor correspondente à comercialização de mais de 7.000 m³ de granito extraídos sem título autorizativo na região de Baixo Guandu/ES, entre fevereiro de 2012 e outubro de 2013. A sentença de primeiro grau julgou o pedido improcedente, por entender que o pagamento da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) já esgotaria o crédito devido à União. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região deu provimento à apelação da União e condenou a empresa ao pagamento integral do valor indicado, com juros e correção monetária.
Discutiu-se, no Agravo em Recurso Especial nº 3145345/ES (processo nº 0000057-55.2014.4.02.5005), se a empresa teria legitimidade passiva diante do arquivamento de inquérito policial que apurava os mesmos fatos e se o valor indenizatório poderia corresponder ao preço de mercado do minério comercializado. A agravante sustentou violação dos arts. 141 e 17 do Código de Processo Civil de 2015 e dos arts. 884 e 944 do Código Civil (Lei nº 10.406/2002), defendendo o abatimento dos custos de extração, investimento e transporte, sob pena de enriquecimento sem causa da União.
O Ministro Gurgel de Faria, do Superior Tribunal de Justiça, em decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 11/09/2026, registrou que o TRF da 2ª Região afastou a ilegitimidade porque o arquivamento do inquérito policial decorreu de prescrição, o que não vincula a esfera cível, e que a revisão das provas (processo administrativo, relatórios de pesquisa e inquérito) esbarra na Súmula 7 do STJ. Quanto ao valor, manteve o acórdão do TRF da 2ª Região, reafirmando que a extração mineral ilegal gera enriquecimento ilícito e impõe reparação integral do dano ao proprietário do bem (União). Consignou que não se admite decotar parte do faturamento a título de custos operacionais de atividade ilegal, sob pena de beneficiar quem se vale da própria torpeza. Com base nas Súmulas 7 e 83 do STJ, conheceu do agravo para não conhecer do recurso especial.
Contexto do julgamento
A controvérsia examinada no Agravo em Recurso Especial nº 3145345/ES (processo de origem nº 0000057-55.2014.4.02.5005), relatado pelo Ministro Gurgel de Faria no Superior Tribunal de Justiça, em decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 11 de setembro de 2026, teve origem em ação de cobrança ajuizada pela União contra uma empresa do ramo de granitos. A pretensão federal era o ressarcimento de R$ 2.227.528,00, valor atualizado até fevereiro de 2014, correspondente à comercialização de mais de 7.000 m³ de granito extraídos sem título autorizativo na região de Baixo Guandu, no Espírito Santo, entre fevereiro de 2012 e outubro de 2013.
Em primeiro grau, o pedido foi julgado improcedente pela Justiça Federal do Espírito Santo, sob o fundamento de que o recolhimento da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM) esgotaria o crédito devido ao ente federal, ainda que a exploração tivesse ocorrido em desconformidade com a legislação de regência. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região, contudo, deu provimento à apelação da União e condenou a empresa ao pagamento integral do valor pleiteado, acrescido de juros e correção monetária, além de honorários advocatícios. Embargos de declaração foram rejeitados e, posteriormente, em novo julgamento determinado pelo próprio STJ, acolhidos parcialmente apenas para sanar omissão quanto à autoria, sem efeitos modificativos.
No recurso especial, a empresa alegou violação dos arts. 141 e 17 do Código de Processo Civil de 2015, sustentando ilegitimidade passiva e apontando que o inquérito policial instaurado para apurar os mesmos fatos não teria identificado a autoria da lavra irregular. Invocou, ainda, ofensa aos arts. 884 e 944 do Código Civil (Lei nº 10.406/2002), ao argumento de que a indenização não poderia corresponder ao preço de mercado do produto comercializado, mas, no máximo, ao valor do minério bruto ou ao lucro obtido, com dedução de custos de extração, investimento e transporte.
Fundamentos da decisão
O relator registrou que a Corte de origem afastou a tese de ilegitimidade porque o arquivamento do inquérito policial se deu em razão da prescrição, circunstância que não impede nem vincula a propositura de demanda na esfera cível. Registrou, além disso, que o acórdão recorrido consignou que os relatórios de pesquisa e as fiscalizações anteriores — a última realizada um mês antes do pedido de autorização da cessão de direito — não identificaram exploração mineral nas áreas objeto da cobrança, premissa fática que amarra a responsabilização da empresa. Alterar essa conclusão exigiria reexame do processo administrativo, dos relatórios de pesquisa e do inquérito policial, providência vedada pela Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça.
Quanto ao regime jurídico da lavra, a ementa do acórdão do TRF da 2ª Região, transcrita na decisão, registra que a extração mineral é regulada pelo Código de Mineração (Decreto-Lei nº 227/1967), com as modificações da Lei nº 7.805/1989, exigindo-se autorização do órgão federal competente e o respectivo licenciamento ambiental, tanto no regime de autorização quanto no de licenciamento (art. 2º, II e III, do Decreto-Lei nº 227/1967 e art. 3º, I, da Lei nº 8.876/1994). Essa formalidade decorre do alto potencial de impacto da mineração, submetida a controle de qualidade ambiental, monitoramento e fiscalização permanentes — contexto em que se inserem medidas administrativas como o embargo ambiental das frentes de lavra irregulares.
Quanto à alegada duplicidade de cobrança, o acórdão do TRF da 2ª Região, mantido pelo STJ, diferenciou as naturezas jurídicas envolvidas: a CFEM possui natureza de receita patrimonial da União — entendimento que o acórdão recorrido atribui ao Supremo Tribunal Federal, com referência ao RE 228800/DF e ao AI 453025/DF —, enquanto o ressarcimento do patrimônio usurpado tem caráter indenizatório, fundado na responsabilidade civil e no dever de reparar o dano decorrente do ato ilícito. Daí a conclusão de que a concomitância entre CFEM e indenização não configura pagamento em duplicidade nem bis in idem.
O que a decisão manteve
A decisão registra que a jurisprudência das Turmas de Direito Público do Superior Tribunal de Justiça considera a extração mineral ilegal prática irregular em sua origem, cujo resultado econômico configura enriquecimento ilícito da empresa e impõe a reparação total do dano causado ao efetivo proprietário do bem, a União. Com esse fundamento, o relator manteve o critério do TRF da 2ª Região, para quem é viável, legal e devida a condenação ao pagamento do valor correspondente ao volume de granito extraído, calculado pelo preço médio de mercado praticado na região, devidamente atualizado. Como o acórdão recorrido está em harmonia com essa jurisprudência (Súmula 83 do STJ) e a revisão da tese de ilegitimidade exigiria reexame de provas (Súmula 7 do STJ), o relator conheceu do agravo para não conhecer do recurso especial.
A segunda tese diz respeito à impossibilidade de abatimento de custos: não se pode decotar parte do faturamento obtido com a extração irregular sob o argumento de compensação de despesas operacionais, pois isso frustraria a reparação integral do dano e beneficiaria quem se valeu da própria torpeza. A decisão transcreve dois precedentes nesse sentido. O primeiro é o AgInt no REsp 1.911.156/SC, da Segunda Turma (Rel. Min. Teodoro Silva Santos, julgado em 13/8/2025), em ação civil pública sobre extração ilegal de bauxita, segundo o qual a indenização deve abranger a totalidade do prejuízo. O segundo é o AgInt no AREsp 1.192.559/PR, da Primeira Turma (Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 28/11/2022), que negou à empresa infratora o ressarcimento dos custos operacionais da lavra irregular.