Jurisprudência Ambiental

STJ analisa condenação de usina por incêndio em vegetação (Lei 9.605/98)

01/09/2026 STJ Recurso Especial Processo: 1500553-25.2019.8.26.0125

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL

Fato

Uma empresa do setor sucroenergético foi denunciada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo por provocar incêndio em vegetação, conduta tipificada no art. 41 da Lei nº 9.605/1998, em área identificada nos autos como "Área 2". Em primeiro grau, a pessoa jurídica foi condenada a 4 anos de prestação de serviços à comunidade, preferencialmente na modalidade de custeio de programas e projetos ambientais, além de 20 dias-multa, cada um fixado em 15 vezes o salário mínimo vigente à época dos fatos.

Questão jurídica

Discutia-se a possibilidade de responsabilização penal da pessoa jurídica por crime ambiental, a suficiência de prova indiciária e de depoimentos de agentes públicos para comprovar autoria e dolo, bem como o cabimento da desclassificação para a modalidade culposa sem observância do art. 384 do Código de Processo Penal. Também se questionava a natureza de perigo abstrato do delito do art. 41 da Lei nº 9.605/1998 e a dosimetria fixada acima do mínimo legal.

Resultado

O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, no julgamento da Apelação Criminal nº 1500553-25.2019.8.26.0125, negou provimento ao recurso defensivo, mantendo integralmente a condenação quanto à Área 2, afastando a desclassificação para a forma culposa, preservando a dosimetria e reconhecendo a responsabilidade penal da pessoa jurídica. Contra esse acórdão foi interposto recurso especial com fundamento no art. 105, III, "a", da Constituição Federal, autuado como REsp 2.282.824/SP (2026/0271014-0), sob relatoria do Ministro Joel Ilan Paciornik, no Superior Tribunal de Justiça. Na decisão monocrática, o relator entendeu que o Tribunal paulista manteve a condenação com fundamento em conduta omissiva não descrita na denúncia, que narrava conduta ativa, sem o aditamento exigido pelo art. 384 do Código de Processo Penal, em violação ao princípio da correlação. O trecho disponibilizado termina antes do dispositivo.

Contexto do julgamento

O caso examinado tem origem em ação penal ajuizada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo contra uma empresa do setor sucroenergético, pela prática do delito previsto no art. 41 da Lei nº 9.605/1998, que pune a conduta de provocar incêndio em floresta ou em demais formas de vegetação. A sentença condenatória impôs à pessoa jurídica pena de 4 anos de prestação de serviços à comunidade, preferencialmente na modalidade de custeio de programas e de projetos ambientais, além de 20 dias-multa, fixados individualmente em 15 vezes o salário mínimo vigente à época dos fatos.

Ao julgar a Apelação Criminal nº 1500553-25.2019.8.26.0125, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo negou provimento ao recurso da defesa. O acórdão manteve integralmente a condenação relativa à chamada “Área 2”, afastou o pedido de desclassificação para a modalidade culposa, preservou a dosimetria fixada acima do mínimo legal e confirmou a possibilidade de responsabilização penal da pessoa jurídica pelo crime ambiental imputado.

Inconformada, a empresa interpôs recurso especial com fundamento no art. 105, inciso III, alínea “a”, da Constituição Federal, autuado no Superior Tribunal de Justiça como REsp 2.282.824/SP (2026/0271014-0), sob relatoria do Ministro Joel Ilan Paciornik, tendo como recorrido o Ministério Público do Estado de São Paulo. O debate reúne temas centrais do direito penal ambiental empresarial: prova do dolo em incêndios ligados à atividade sucroenergética, valor da prova indiciária e limites da responsabilização criminal de sociedades empresárias.

Fundamentos da decisão

O acórdão recorrido assentou que a materialidade e a autoria estavam comprovadas e que as circunstâncias concretas do caso indicavam o dolo adequado à espécie, rejeitando a desclassificação para a forma culposa por ausência da providência prevista no art. 384 do Código de Processo Penal, que disciplina a mutatio libelli. Registrou, ainda, que o delito do art. 41 da Lei nº 9.605/1998 é crime de perigo abstrato, dispensando prova pericial de dano efetivo ao meio ambiente — orientação que aproxima a tutela penal da lógica preventiva que também informa medidas administrativas como o embargo ambiental.

Quanto à responsabilidade penal da pessoa jurídica, o Tribunal de origem apoiou-se no art. 3º da Lei nº 9.605/1998, segundo o qual as pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmente nos casos em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da entidade. O acórdão sublinhou a distinção entre a sociedade utilizada como mero instrumento do dirigente e aquela que atua como verdadeira agente do tipo penal, quando a conduta visa à satisfação de seus próprios interesses econômicos.

Na dosimetria, o Tribunal validou a fixação da pena-base acima do mínimo legal, com aplicação da prestação de serviços à comunidade na modalidade de custeio de programas e projetos ambientais, nos termos do art. 23, inciso I, da Lei nº 9.605/1998, cumulada com a multa prevista no tipo penal, além do reconhecimento das circunstâncias agravantes do art. 15, inciso II, alíneas “a” e “e”, da mesma lei. Ao afastar a forma culposa, o acórdão consignou também que a empresa exploradora de atividade econômica de alto risco de incêndio assume o dever de adotar medidas preventivas, como a manutenção adequada de aceiros, à luz do art. 225 da Constituição Federal. Nos embargos de declaração, o Tribunal retirou as expressões “omissão dolosa” e “crime comissivo por omissão” e a referência à condição de garantidor ambiental, mas manteve esse fundamento, que o STJ entendeu ser omissivo e alheio à conduta ativa narrada na denúncia.

Alcance da decisão

Ao transcrever o acórdão recorrido, a decisão registra que o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assentou ser possível a responsabilização penal da pessoa jurídica pela prática de crimes ambientais, invocando expressamente o ARE 1.358.196-AgR/RJ, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, redator do acórdão Min. André Mendonça, Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, julgado em 09/10/2023, DJe de 01/12/2023, e o AgRg no REsp 1.988.504/RN, Rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, julgado em 14/6/2022, DJe de 20/6/2022.

No plano probatório, o acórdão consolidou que os depoimentos judiciais de policiais têm o mesmo valor das demais testemunhas, citando, entre outros, o HC 150.760/PR, Rel. Min. Marco Aurélio, Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, julgado em 27/04/2021, DJe de 13/05/2021, e o HC 926.476/SP, Rel. Min. Daniela Teixeira, Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, julgado em 15/10/2024, DJe de 12/11/2024. Admitiu-se, igualmente, a prova indiciária como apta a demonstrar a autoria criminosa. No REsp 2.282.824/SP, porém, a decisão monocrática do Ministro Joel Ilan Paciornik concluiu que a denúncia descreveu condutas ativas (provocar incêndio e usar fogo) e que o Tribunal paulista, em grau de recurso, manteve a condenação com fundamento em conduta omissiva não narrada na acusação, sem o aditamento exigido pelo art. 384 do Código de Processo Penal, o que viola o princípio da correlação. O trecho disponível da decisão termina antes do dispositivo.

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