Jurisprudência Ambiental

STJ analisa falsidade ideológica no SISPASS e ANPP em crime ambiental

10/09/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 5006018-14.2021.4.04.7001

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL

Fato

Criador amadorista de passeriformes teve aves apreendidas em 07/11/2018 e entregues à custódia do então IAP de Londrina/PR, conforme Termo de Entrega de Animais. Ainda assim, em 2020, foram lançadas no SISPASS — Sistema de Cadastro de Criadores Amadoristas de Passeriformes do IBAMA — informações de 'transferência' de uma ave (anilha IBAMA OA 3,5 212080) a terceiro e de 'fuga' de outras duas (anilhas IBAMA OA 3,0 127478 e IBAMA OA 3,0 175415), operações faticamente impossíveis porque os animais já estavam sob guarda do órgão ambiental. Houve ainda imputação de uso de sinal público falsificado, relativa às anilhas.

Questão jurídica

Discutiu-se se a inserção de dados falsos no SISPASS, referente a aves já apreendidas e fora da disponibilidade do agente, preenche os elementos do art. 299 do Código Penal, especialmente o especial fim de agir e a relevância jurídica do fato. Debateu-se também a suficiência probatória da materialidade e do dolo no crime do art. 296, § 1º, I, do Código Penal e o cabimento do Acordo de Não Persecução Penal (art. 28-A do Código de Processo Penal) após o redimensionamento da pena para 3 anos, 2 meses e 12 dias em apelação.

Resultado

O Ministro Ribeiro Dantas, em decisão de 10/09/2026 no AREsp 3304161/PR (2026/0257615-2), do STJ, conheceu o agravo por entender que impugnou adequadamente os fundamentos da decisão que inadmitiu o recurso especial, passando ao exame do especial propriamente dito, apesar da manifestação do Ministério Público Federal pelo não conhecimento. Na delimitação da controvérsia, o relator destacou os três eixos do recurso: tipicidade das inserções no SISPASS, prova da materialidade e do dolo no uso de sinal público falsificado e cabimento do ANPP diante do novo patamar de pena. No mérito, o relator deu parcial provimento ao recurso especial para absolver o réu dos crimes do art. 299 do Código Penal, por falta de tipicidade material e de fim especial de agir, manteve a condenação pelo art. 296, § 1º, I, com pena recalculada para 2 anos de reclusão e 10 dias-multa em regime aberto, e determinou a remessa dos autos para que o Ministério Público avalie o Acordo de Não Persecução Penal em 15 dias.

Contexto do julgamento

O caso julgado no AREsp 3304161/PR (2026/0257615-2), de relatoria do Ministro Ribeiro Dantas, no Superior Tribunal de Justiça, com decisão de 10/09/2026, tem origem em fiscalização sobre criação amadorista de passeriformes. Segundo o acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região reproduzido na decisão, a ave identificada pela anilha IBAMA OA 3,5 212080 foi apreendida na posse do réu em 07/11/2018 e, desde então, permaneceu sob guarda do IAP de Londrina/PR, conforme Termo de Entrega de Animais. Ainda assim, em 05/02/2020, foi lançada no SISPASS uma suposta ‘transferência’ da posse do animal a terceiro, que confirmou o recebimento no mesmo dia — operação faticamente impossível.

Situação análoga se verificou quanto às aves de anilhas IBAMA OA 3,0 127478 e IBAMA OA 3,0 175415, também apreendidas em 07/11/2018: de acordo com a Informação Técnica nº 145/2020-NUBIO-PR/DITEC-PR/SUPES-PR, em 21/05/2020 houve cadastro de ‘fuga’ desses animais de plantel de corréu, embora estivessem sob custódia estatal desde novembro de 2018. Em interrogatório judicial, o acusado admitiu ter realizado transferências e cadastros no sistema, explicando que, após a redução do limite de aves por CPF pelo órgão ambiental estadual, passou a registrar animais em nome de terceiros.

A condenação fixou, em concurso material entre o art. 299 do Código Penal (três crimes em continuidade delitiva) e o art. 296, § 1º, I, do Código Penal (crime único, após saneamento), pena de 3 anos, 2 meses e 12 dias de reclusão e 37 dias-multa, com regime inicial aberto e substituição por duas penas restritivas de direitos, após o reconhecimento de prescrição superveniente quanto ao art. 29, § 1º, III, da Lei nº 9.605/1998.

Fundamentos da decisão

No recurso especial interposto com fundamento no art. 105, III, ‘a’, da Constituição da República, a defesa apontou violação aos arts. 299 e 296, § 1º, I, do Código Penal e aos arts. 386, III e VII, e 28-A do Código de Processo Penal. Sustentou atipicidade subjetiva e material dos Fatos 3 e 4, por ausência de especial fim de agir e de relevância jurídica das inserções no SISPASS quando as aves já estavam apreendidas, além de insuficiência probatória quanto às anilhas e ao dolo no uso de sinal público falsificado, pleiteando ainda a remessa dos autos ao Ministério Público para análise do Acordo de Não Persecução Penal, nos termos do art. 28-A do Código de Processo Penal, diante do redimensionamento da pena em apelação.

O acórdão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, transcrito na decisão do Superior Tribunal de Justiça, assentou que o art. 299 do Código Penal tutela a fé pública e que a falsidade ideológica se caracteriza pela inserção de declaração falsa em documento materialmente verdadeiro. Consignou, expressamente, que o documento público do tipo penal não se restringe ao suporte físico, abrangendo documentos processados em sistemas informatizados, de modo que o SISPASS — Sistema de Cadastro de Criadores Amadoristas de Passeriformes, criado pelo IBAMA para monitorar a criação de pássaros silvestres — integra a estrutura documental de órgão público federal. Esse raciocínio é relevante para a fiscalização ambiental porque os registros eletrônicos funcionam como instrumento de controle da fauna, à semelhança do que ocorre em medidas administrativas como o embargo ambiental, cuja eficácia depende da fidedignidade dos dados oficiais.

No juízo de admissibilidade, o relator registrou que o agravo impugnou adequadamente os fundamentos da decisão agravada, devendo ser conhecido, ainda que o Ministério Público Federal tenha se manifestado pelo não conhecimento. A decisão delimitou a controvérsia em três eixos: a incidência dos elementos do tipo do art. 299 do Código Penal em inserções no SISPASS relativas a aves previamente apreendidas e fora da disponibilidade do agente; a suficiência probatória da materialidade e do dolo no crime do art. 296, § 1º, I, do Código Penal; e o cabimento do Acordo de Não Persecução Penal diante do novo patamar de apenamento.

Alcance da decisão

O relator acolheu a tese de violação ao art. 299 do Código Penal e ao art. 386, III, do Código de Processo Penal: as inserções no SISPASS estavam comprovadas, mas, como as aves estavam sob custódia estatal desde 2018, as declarações lançadas em 2020 não tinham potencialidade de alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante, e não se demonstrou o fim especial de agir exigido pelo tipo; por isso, a revaloração jurídica dessa moldura fática não esbarra na Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça. Quanto ao uso de sinal público falsificado (art. 296, § 1º, I, do Código Penal), a condenação foi mantida apenas pela anilha periciada como falsa, fixada em uma Arara-Canindé, e o pedido de absolvição por falta de prova do dolo esbarrou na Súmula 7 do Superior Tribunal de Justiça, por exigir reexame das provas.

Sobre o Acordo de Não Persecução Penal, o relator aplicou a tese do Supremo Tribunal Federal no HC 185.913/DF e o entendimento da Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça no REsp 1.890.343/SC, que admitem o acordo em processos em andamento antes do trânsito em julgado, e concluiu que estão presentes, em tese, os requisitos do art. 28-A do Código de Processo Penal: crime sem violência ou grave ameaça, pena mínima inferior a 4 anos, réu não reincidente em crime doloso e possibilidade de confissão formal. No dispositivo do AREsp 3304161/PR (2026/0257615-2), o Ministro Ribeiro Dantas conheceu do agravo e deu parcial provimento ao recurso especial: absolveu o agravante dos crimes do art. 299 do Código Penal, nos termos do voto vencido do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, recalculou a pena para 2 anos de reclusão e 10 dias-multa, em regime inicial aberto e com substituição por duas restritivas de direitos, e determinou a remessa dos autos ao juízo criminal para que o Ministério Público avalie a proposta de Acordo de Não Persecução Penal no prazo de 15 dias.

Fale conosco