Jurisprudência Ambiental

STJ nega sobrestamento e seguimento a RE em ação por dano ambiental

03/06/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 0806506-88.2024.8.02.0000

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE DECISÕES ESTRANGEIRAS E RECURSOS PARA O STF

Fato

Moradores de Alagoas ajuizaram ações individuais de indenização contra uma empresa petroquímica, buscando reparação por danos decorrentes de impacto ambiental. O processo chegou ao STJ após sucessivos recursos, sendo o agravo em recurso especial inadmitido por ausência de impugnação específica dos fundamentos da decisão denegatória. As partes recorrentes interpuseram recurso extraordinário ao STF alegando repercussão geral e violação a garantias constitucionais.

Questão jurídica

A questão central consiste em saber se o recurso extraordinário interposto contra acórdão do STJ preenche os requisitos de admissibilidade, diante da alegada violação ao dever de fundamentação e à garantia de prestação jurisdicional (arts. 5º, XXXV e LV, e 93, IX, da Constituição). Discute-se ainda a pertinência do sobrestamento do feito em razão de suposta prejudicialidade externa decorrente da ação civil pública n. 0807343-54.2024.4.05.8000, bem como a aplicabilidade dos Temas 923/STJ e 675/STF ao caso concreto.

Resultado

O Vice-Presidente do STJ negou o pedido de suspensão do processo, afastando o Tema 923/STJ por tratar de situação fática distinta e lembrando que o STF, no Tema 675, não reconheceu repercussão geral na suspensão de ações individuais por ação coletiva. Com base nos Temas 339 e 181 do STF, negou seguimento ao recurso extraordinário, consolidando-se o exaurimento das discussões relativas ao mérito da causa.

Contexto do julgamento

O caso em análise envolve ações individuais de indenização movidas por moradores do Estado de Alagoas contra uma empresa petroquímica de grande porte que opera na região e que figura no polo passivo de diversas demandas relacionadas a impactos ambientais. As partes recorrentes, moradores de Alagoas, discutiam nos autos de agravo de instrumento o indeferimento do pedido de inversão do ônus da prova, invocando a proteção ao hipossuficiente técnico em litígio ambiental e consumerista e a Súmula n. 618 do STJ.

Após o esgotamento das vias ordinárias e a inadmissão do agravo em recurso especial pela Presidência do STJ — com aplicação analógica da Súmula n. 182 da Corte, ante a ausência de impugnação específica de todos os fundamentos da decisão denegatória —, as partes interpuseram agravo interno, que restou desprovido. Na sequência, opuseram embargos de declaração, igualmente rejeitados. Diante desse cenário, foi interposto recurso extraordinário com fundamento no art. 102, III, a, da Constituição Federal, alegando contrariedade aos arts. 5º, XXXV e LV, e 93, IX, da Carta Magna, além da existência de repercussão geral da matéria.

Em paralelo ao mérito recursal, as recorrentes pleitearam o sobrestamento do feito, sustentando que a ação civil pública n. 0807343-54.2024.4.05.8000, em trâmite perante a Justiça Federal, versaria sobre a mesma matéria discutida nos autos individuais, configurando hipótese de prejudicialidade externa apta a justificar a suspensão do processo nos termos do art. 313, V, do Código de Processo Civil. Defenderam, ainda, a aplicação dos Temas n. 923 do STJ e n. 675 do STF como fundamentos para o sobrestamento requerido.

Fundamentos da decisão

O Vice-Presidente do STJ, ao apreciar o pedido de suspensão, afastou a configuração de prejudicialidade externa apta a justificar a paralisação do feito. Amparando-se na doutrina de Humberto Theodoro Júnior e na jurisprudência consolidada da Corte, o julgador reafirmou que a suspensão por prejudicialidade externa não possui caráter obrigatório, cabendo ao magistrado avaliar as circunstâncias do caso concreto. No caso em tela, o exame do mérito da irresignação — a extinção do processo em razão de acordo formalizado — não poderia ser realizado em sede extraordinária, tornando inócua e extemporânea qualquer providência suspensiva. Esse entendimento se alinha à função instrumental do processo, que não deve ser utilizado para perpetuar litígios sem perspectiva concreta de êxito.

No tocante ao Tema n. 923 do STJ, o julgador foi preciso ao delimitar seu alcance: o precedente firmado no REsp n. 1.525.327/PR restringe-se às ações individuais de indenização por dano moral decorrentes da exposição à contaminação ambiental por chumbo no Município de Adrianópolis/PR, vinculadas a ações civis públicas específicas em tramitação na Vara Federal Ambiental, Agrária e Residual de Curitiba. Trata-se, portanto, de precedente com âmbito de aplicação estritamente delimitado, não extensível a situações fáticas distintas, como a do caso de Alagoas aqui examinado. Em litígios de natureza ambiental de grande escala — a exemplo dos relacionados ao embargo ambiental de áreas degradadas —, é fundamental compreender os limites objetivos e subjetivos dos precedentes vinculantes, sob pena de se promover uma aplicação analógica indevida que distorce a ratio decidendi dos julgamentos paradigmáticos.

Quanto ao Tema n. 675 do STF, a decisão recordou que o Supremo Tribunal Federal entendeu não haver repercussão geral na questão referente à suspensão de ações individuais em razão da existência de ação coletiva, por se tratar de matéria de índole infraconstitucional. Essa orientação, por si só, já inviabilizaria o sobrestamento do recurso extraordinário na forma pleiteada, uma vez que a admissibilidade do apelo extremo pressupõe a demonstração de questão constitucional relevante, cuja análise foi expressamente afastada pelo Pretório Excelso. Não se verificou, ademais, a presença de negativa de prestação jurisdicional ou de motivação meramente aparente nos acórdãos questionados, pois os óbices processuais foram aplicados de forma fundamentada e em consonância com a jurisprudência das duas Cortes Superiores.

Alcance da decisão

A decisão reafirma, com base nos Temas n. 339 e 181 do STF, as balizas que regem a admissibilidade do recurso extraordinário em matéria processual civil, especialmente a de que o dever de fundamentação do art. 93, IX, da Constituição não exige o exame pormenorizado de cada alegação e a de que a discussão sobre os pressupostos de admissibilidade de recursos da competência de outros tribunais tem natureza infraconstitucional, sem repercussão geral. No campo do direito ambiental, o julgamento ressalta a importância de se compreender os limites dos precedentes repetitivos formados em torno de macrolides ambientais: o Tema 923/STJ constitui resposta jurisdicional a uma situação específica e geograficamente delimitada, não podendo ser invocado indiscriminadamente em outros litígios coletivos de natureza ambiental, ainda que estruturalmente semelhantes.

Do ponto de vista da tutela das vítimas de danos ambientais, a decisão deixa implícita uma lição relevante: a escolha da via processual adequada e a correta impugnação dos fundamentos das decisões denegatórias são condicionantes indispensáveis para o acesso efetivo à revisão jurisdicional. A ausência de prequestionamento e a impugnação deficiente dos fundamentos da decisão agravada — óbices que incidiram nos autos — revelam a necessidade de atuação técnica rigorosa por parte dos advogados que patrocinam demandas de massa em matéria ambiental, especialmente quando o litígio envolve grandes empresas do setor químico e petroquímico, cujas ações podem gerar danos de longa duração e difícil quantificação.

Perguntas Frequentes

O que é prequestionamento no recurso extraordinário?
Prequestionamento é a exigência de que as questões constitucionais sejam expressamente debatidas e decididas pelas instâncias inferiores antes do recurso extraordinário. Sem essa discussão prévia, o STF não pode analisar o mérito do recurso, levando à inadmissão.
Qual o alcance do Tema 923 do STJ em casos ambientais?
O Tema 923 do STJ aplica-se exclusivamente às ações de indenização por contaminação por chumbo em Adrianópolis/PR. Esse precedente não se estende automaticamente a outros litígios ambientais, como o caso de Alagoas examinado nesta decisão, por serem situações fáticas distintas.
A prejudicialidade externa obriga a suspensão do processo?
A prejudicialidade externa não possui caráter obrigatório para suspensão processual. O magistrado deve avaliar as circunstâncias do caso concreto, podendo indeferir o sobrestamento quando não há perspectiva concreta de êxito ou utilidade da medida suspensiva.
Como o Tema 675 do STF afeta ações individuais ambientais?
O STF decidiu no Tema 675 que não há repercussão geral na suspensão de ações individuais por existência de ação coletiva, por ser matéria infraconstitucional. Essa orientação inviabiliza o sobrestamento de recursos extraordinários baseados apenas nessa questão processual.
Quais cuidados técnicos são essenciais em demandas ambientais de massa?
É fundamental realizar impugnação específica de todos os fundamentos das decisões denegatórias e garantir o prequestionamento das questões constitucionais. A ausência desses requisitos pode inviabilizar o acesso às instâncias superiores, especialmente em litígios contra grandes empresas do setor químico.
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