Jurisprudência Ambiental

STJ mantém demolição de construções irregulares em APP no Morro das Andorinhas

02/12/2025 STJ Resp Processo: REsp 1906468

MARCO AURÉLIO BELLIZZE

Fato

O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra o Município de Niterói e proprietários de lotes de um condomínio localizado no Morro das Andorinhas, em Itacoatiara, Niterói-RJ, área inserida no entorno do Parque Estadual da Serra da Tiririca. A demanda objetivava a demolição de obras irregulares, a recuperação das áreas degradadas e o pagamento de indenização pelos danos ambientais causados em Área de Preservação Permanente.

Questão jurídica

No STJ, dois proprietários de lotes questionaram a condenação à demolição das construções dos lotes 15 e 16 e à demolição e recuperação das áreas comuns do condomínio, erguidas sem licença ambiental em Área de Preservação Permanente. Alegaram negativa de prestação jurisdicional, julgamento extra petita, ofensa à coisa julgada, desprezo dos laudos técnicos e desproporcionalidade da demolição, por ausência de dano ambiental nos lotes 15 e 16.

Resultado

Em decisão monocrática do ministro Marco Aurélio Bellizze, o STJ conheceu do agravo, conheceu em parte do recurso especial e, nessa parte, negou-lhe provimento. Afastou a negativa de prestação jurisdicional e o julgamento extra petita e entendeu que rever a existência do dano ambiental e a proporcionalidade da demolição das áreas comuns exigiria reexame de provas, vedado pela Súmula 7. Ficou mantido o acórdão do TRF da 2ª Região, que condenou os proprietários à demolição e recuperação das áreas condominiais de infraestrutura e à indenização, e o Município de Niterói a recuperar área equivalente, sob coordenação do IBAMA e do INEA.

Contexto do julgamento

O caso tem origem em ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal em face do Município de Niterói e de proprietários de diversos lotes de um condomínio situado no Morro das Andorinhas, em Itacoatiara, na cidade de Niterói-RJ. A região fica no entorno do Parque Estadual da Serra da Tiririca e é classificada como Área de Preservação Permanente, estando sujeita ao regime protetivo mais rigoroso previsto na legislação ambiental brasileira. As construções foram erguidas sem a obtenção das licenças ambientais exigidas pelos órgãos competentes, em flagrante violação ao Código Florestal então vigente.

Na primeira instância, o magistrado julgou parcialmente procedente a ação, impondo obrigações diferenciadas conforme a situação fática de cada lote: para alguns, determinou a demolição imediata das obras e a recuperação integral da área; para outros, condicionou a manutenção das edificações à obtenção de licenciamento ambiental pelo INEA em prazo determinado; e para os demais, fixou a obrigação de recuperar área equivalente ao tamanho do lote em local indicado pela municipalidade. O Município de Niterói foi condenado solidariamente com os proprietários dos lotes 9 e 13 e, em item próprio, a adotar as medidas necessárias para conter o avanço da degradação ambiental no Morro das Andorinhas.

Em grau de apelação, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região deu parcial provimento ao recurso do Parquet para ampliar as condenações de demolição, alcançando os proprietários dos lotes 15, 16 e 23, solidariamente com o Município, além de estender as obrigações de recuperação ambiental aos proprietários dos lotes 27, 28 e 29. Em novo julgamento de embargos de declaração opostos pelo IBAMA, o tribunal de origem acolheu o recurso para sanar omissão apontada, condenando os proprietários de lotes e terrenos do condomínio à demolição e recuperação ao status quo ante das áreas condominiais de infraestrutura, aprofundando a proteção ambiental determinada.

Fundamentos da decisão

O acórdão do TRF-2, mantido pelo STJ, apoiou-se no Código Florestal de 1965 (Lei n.º 4.771/1965), especialmente seus artigos 2º, que define as Áreas de Preservação Permanente, e 10, que proíbe a derrubada de florestas em áreas de inclinação entre 25 e 45 graus, e na responsabilidade objetiva por dano ambiental do art. 14, § 1º, da Lei n.º 6.938/1981. No caso, o TRF-2 concluiu que a ilegalidade não gera direito adquirido e que a demolição não é desproporcional. O STJ não revisou essa conclusão, porque isso exigiria reexame de fatos e provas, vedado pela Súmula 7. Essa lógica está diretamente relacionada ao instrumento do embargo ambiental, que visa precisamente interromper atividades lesivas ao meio ambiente e assegurar a restauração das áreas degradadas.

Os recorrentes sustentaram que a demolição seria desproporcional, porque os laudos não apontariam dano ambiental nos lotes 15 e 16. O STJ não examinou esse argumento, pois rever a conclusão do TRF-2 sobre o dano e a proporcionalidade da medida exigiria reexame de provas, vedado pela Súmula 7. Foi o TRF-2 que afirmou que a invocação vaga da razoabilidade não pode amparar condutas ilícitas e registrou que os réus foram notificados pela FEEMA, descumpriram as medidas impostas e concluíram indevidamente as obras. A condenação do Município de Niterói não foi objeto do recurso examinado pelo STJ, que era só de dois proprietários de lotes. Ela vem das instâncias de origem: a sentença e o acórdão da apelação o condenaram solidariamente nos lotes em que mandaram demolir, e o TRF-2, no novo julgamento dos embargos de declaração do IBAMA, condenou-o a recuperar área equivalente ao tamanho da área de uso comum do condomínio.

A sentença de primeiro grau, por sua vez, invocou a chamada judicialização cooperativa no controle de políticas públicas ambientais e formulou recomendações ao INEA para rever as licenças concedidas, intensificar a fiscalização e definir em ato geral o conceito de costão rochoso, ao IBAMA para intensificar a fiscalização na área, e ao Ministério Público Federal para buscar termos de ajustamento de conduta com os demais ocupantes do Morro das Andorinhas. Esse modelo de atuação jurisdicional reconhece os limites da intervenção judicial na administração pública, mas não abdica da função de garante dos direitos fundamentais ambientais.

Alcance da decisão

O julgamento não firma tese nova. Em decisão monocrática, o ministro Marco Aurélio Bellizze afastou a negativa de prestação jurisdicional e o julgamento extra petita e aplicou a Súmula 7 para manter, sem reexaminar as provas, a conclusão do TRF-2 sobre a existência do dano ambiental e a proporcionalidade da demolição e da recuperação das áreas comuns. Coube ao TRF-2, e não ao STJ, afirmar que a construção em Área de Preservação Permanente sem licença dos órgãos ambientais não gera direito adquirido. O precedente dialoga diretamente com o REsp n.º 1.379.030-RJ, também julgado pelo STJ, que serviu de fundamento para o acolhimento dos embargos de declaração do IBAMA pelo TRF-2, ampliando as condenações para alcançar as áreas condominiais de infraestrutura do empreendimento irregular.

A decisão do STJ não tratou da responsabilidade do Município, porque o recurso examinado era só de dois proprietários de lotes. Nas instâncias de origem, o Município de Niterói foi condenado, solidariamente com os proprietários de alguns lotes, à demolição das construções e à recuperação da área e, após os embargos do IBAMA, a recuperar área equivalente à área de uso comum do condomínio. O TRF-2 apoiou-se na responsabilidade civil objetiva do art. 14, § 1º, da Lei n.º 6.938/1981, pela qual o dano ambiental deve ser reparado independentemente de culpa. Em nossa leitura, isso se alinha ao princípio do poluidor-pagador, que impõe a todos os causadores do dano, diretos ou indiretos, a obrigação de reparar integralmente o meio ambiente degradado.

Perguntas Frequentes

O que decidiu o STJ sobre as construções no Morro das Andorinhas?
Em decisão monocrática, o STJ negou provimento ao recurso de dois proprietários e manteve o acórdão do TRF-2 que mandou demolir e recuperar as áreas comuns do condomínio no Morro das Andorinhas, em Niterói, construídas sem licença em APP. O STJ não reexaminou o dano nem a proporcionalidade da demolição, por esbarrar na Súmula 7.
Construção antiga em APP pode ser mantida por direito adquirido?
Neste caso, o TRF-2 entendeu que a ilegalidade não gera direito adquirido e que a demolição não é desproporcional, registrando que os réus foram notificados pela FEEMA, descumpriram as medidas impostas e concluíram as obras mesmo assim. O STJ manteve o acórdão sem reexaminar essa conclusão, por força da Súmula 7.
Quando o município é responsabilizado por construções irregulares em APP?
O município pode ser responsabilizado solidariamente quando demonstrada sua omissão no exercício do poder de polícia ambiental e urbanístico. A responsabilidade independe de ter sido o município o executor direto das obras, configurando contribuição indireta para o dano ambiental.
Quais são as obrigações após demolição em área de preservação permanente?
Após a demolição, os responsáveis devem promover a recuperação integral da área ao status quo ante. O tribunal pode determinar a restauração da vegetação nativa, remoção de entulhos e implementação de projeto de recuperação de área degradada conforme orientação do órgão ambiental.
Como funciona a responsabilidade solidária em danos ambientais?
A responsabilidade solidária impõe a todos os causadores do dano, diretos ou indiretos, a obrigação de reparar integralmente o meio ambiente degradado. Isso inclui proprietários, construtores e poder público omisso, seguindo o princípio do poluidor-pagador e a teoria do risco integral.
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