Jurisprudência Ambiental

STJ analisa fraude no Cadastro Ambiental Rural e corrupção no Pará

07/04/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0004126-63.2018.8.14.0401

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL

Fato

O proprietário de uma empresa contratada pelo Governo do Pará foi condenado por inserir dados falsos no Sistema de Cadastros Ambientais Rurais (SISCAR) e por corrupção ativa, causando prejuízo superior a R$ 800 mil aos cofres do Estado do Pará. As fraudes ocorreram entre 2016 e 2017, no âmbito do contrato firmado com o Governo do Pará para elaboração de Cadastros Ambientais Rurais pelo Programa Municípios Verdes. O esquema envolvia a criação e retificação fraudulenta de CARs para obter pagamentos indevidos da administração pública.

Questão jurídica

A questão jurídica central consiste em saber se a condenação pelos crimes de inserção de dados falsos em sistema de informações (art. 313-A do CP) e corrupção ativa (art. 333 do CP) pode ser mantida sem a realização de perícia técnica específica sobre os vestígios virtuais e sem prova expressa do liame subjetivo entre os depósitos bancários e o tipo penal. Discute-se ainda a dosimetria da pena, a caracterização das agravantes dos incisos I e II do art. 62 do CP e a configuração da continuidade delitiva nos atos de corrupção ativa.

Resultado

Em decisão monocrática, o Ministro Rogerio Schietti Cruz conheceu parcialmente do recurso especial e, nessa parte, negou-lhe provimento. As teses da falta de perícia específica e dos cinco depósitos não foram examinadas, por falta de prequestionamento (Súmula 211 do STJ), e o pedido de absolvição esbarrou na Súmula 7. Ficou mantida a pena de 18 anos e 1 mês de reclusão mais 384 dias-multa, em regime inicial fechado.

Contexto do julgamento

O caso sob análise do Superior Tribunal de Justiça tem origem em uma sofisticada fraude praticada contra o sistema de regularização fundiária e ambiental do Estado do Pará. O réu, proprietário da empresa contratada, firmou por meio dela o contrato n.º 004/2016 com o Governo do Estado do Pará para a execução de novos Cadastros Ambientais Rurais (CAR) por meio do Programa Municípios Verdes (PMV). Em vez de cumprir regularmente as obrigações contratuais, o réu passou a inserir e retificar dados fraudulentamente no Sistema de Cadastros Ambientais Rurais (SISCAR), com a participação de outro acusado, e a pagar ao servidor que atuava como fiscal do contrato, também condenado no processo, para que ele deixasse de exercer adequadamente a fiscalização.

A operação policial denominada “Zaqueu”, conduzida pelo Núcleo de Inteligência Policial da Polícia Civil do Pará, foi responsável por desmantelar o esquema. Durante as diligências, foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas residências dos acusados e na sede da empresa do réu, resultando na apreensão de computadores utilizados na execução dos crimes, telefones celulares, documentos relativos aos cadastros ambientais rurais, comprovantes de transações bancárias e demais elementos que compuseram o vasto acervo probatório da ação penal. O prejuízo causado aos cofres estaduais foi estimado em R$ 815.405,80, conforme apuração do Núcleo Executor do Programa Municípios Verdes.

Condenado em primeira instância à pena de 18 anos e 1 mês de reclusão, mais 384 dias-multa, em regime inicial fechado, o réu teve sua condenação mantida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Pará tanto no julgamento da apelação criminal quanto nos embargos de declaração opostos pela defesa. Inconformado, interpôs recurso especial ao STJ, sustentando ofensa aos arts. 59, 313-A e 333 do Código Penal e ao art. 158 do Código de Processo Penal, pleiteando absolvição ou, subsidiariamente, a redução da pena.

Fundamentos da decisão

O ponto nevrálgico da insurgência recursal residia na alegação de que a materialidade do crime previsto no art. 313-A do Código Penal — inserção de dados falsos em sistema de informações — somente poderia ser aferida mediante perícia técnica específica, tendo em vista a natureza digital dos “rastros virtuais” deixados pela conduta. O STJ, contudo, não examinou essa tese. O relator registrou que a alegação de ausência de perícia específica não foi apreciada pelo Tribunal de origem e, por falta de prequestionamento, aplicou a Súmula 211 do STJ. Quanto ao pedido de absolvição, manteve a condenação porque o Tribunal de Justiça do Pará concluiu, com base nos depoimentos colhidos em juízo e nos documentos dos autos (extratos bancários, conversas por aplicativo de mensagens, relatórios dos cadastros retificados e planilhas da investigação policial), que materialidade e autoria estavam provadas, e rever essa conclusão exigiria reexame de provas, vedado pela Súmula 7 do STJ. A dispensa da perícia, portanto, não foi decidida pelo STJ neste caso.

No que tange ao crime de corrupção ativa, a defesa arguiu que a realização de cinco depósitos bancários em favor de servidor público não seria suficiente para demonstrar o liame subjetivo exigido pelo tipo do art. 333 do CP. O STJ também não examinou esse argumento, por falta de prequestionamento, nos termos da Súmula 211 do STJ. Ficou de pé a conclusão do Tribunal de origem de que o réu repassou ao fiscal do contrato, em dinheiro e por depósito, mais de R$ 10 mil para que ele deixasse de exercer adequadamente suas funções. Quanto à dosimetria, o STJ manteve a pena-base acima do mínimo, por ver fundamentação concreta na culpabilidade e nas consequências dos crimes. Manteve a agravante do art. 62, I, do CP, porque o Tribunal de origem reconheceu que o réu dirigia a atuação dos demais acusados, e rever isso esbarraria na Súmula 7. Deixou de examinar a alegação de bis in idem na agravante do art. 62, II, por falta de prequestionamento. E confirmou a continuidade delitiva do art. 71 do CP, com aumento de 2/3, diante de mais de sete infrações (Súmula 659 do STJ). O caso, embora envolva crimes contra a administração pública, impacta diretamente a integridade do sistema de embargo ambiental e de regularização fundiária, pois a adulteração de CARs compromete a fiscalização ambiental, a rastreabilidade de imóveis rurais e a eficácia das políticas públicas de proteção à vegetação nativa, como o próprio Programa Municípios Verdes demonstra.

O caso mostra, na nossa leitura, por que o Cadastro Ambiental Rural é instrumento essencial de política pública ambiental, cuja integridade é condição para o funcionamento do sistema de controle e monitoramento do desmatamento no Brasil. A inserção de dados falsos no SISCAR não configura apenas crime contra a administração pública, mas atenta diretamente contra a ordem ambiental, pois distorce o mapeamento das propriedades rurais, inviabiliza o controle sobre áreas de preservação permanente e reserva legal e permite que infratores se beneficiem de pagamentos públicos sem a correspondente prestação ambiental. O prejuízo financeiro de mais de R$ 800 mil evidencia a gravidade concreta da conduta e justifica a pena expressiva aplicada pelas instâncias ordinárias.

O que a decisão assentou

A decisão do STJ no REsp 2242787/PA foi tomada monocraticamente pelo relator e não firma tese, mas traz pontos úteis para casos que envolvem fraudes em sistemas de informação ambiental. A decisão não assentou que a perícia técnica sobre vestígios digitais é dispensável no crime do art. 313-A do CP. Essa alegação não foi conhecida, por falta de prequestionamento (Súmula 211 do STJ), e a condenação foi mantida porque rever a conclusão do Tribunal de origem sobre materialidade e autoria exigiria reexame de provas (Súmula 7 do STJ). Quanto à continuidade delitiva, o relator a manteve com aumento de 2/3 porque o réu cometeu mais de sete infrações nas mesmas condições de tempo, lugar e modo de execução e com unidade de desígnios, retificando indevidamente centenas de cadastros ambientais rurais, conforme a Súmula 659 do STJ. A decisão não enfrentou a tese de que os depósitos seriam mero fracionamento de uma só vantagem.

No ponto da pena-base, o relator citou precedentes do STJ segundo os quais a culpabilidade e as consequências do crime justificam a exasperação quando apoiadas em elementos concretos que vão além do tipo penal, e não viu ilegalidade no caso. A culpabilidade foi valorada pelo uso de contrato administrativo de mais de R$ 3,2 milhões para encobrir a má execução e pela ameaça ao servidor para que interrompesse a investigação. As consequências foram valoradas pelos prejuízos a produtores rurais que, com os cadastros alterados, ficaram impedidos de obter financiamento e comercializar a produção, e pelo atraso na regularização ambiental dos imóveis rurais no Pará. A decisão alinha-se, assim, à proteção sistêmica da regularidade do Cadastro Ambiental Rural como pilar do direito ambiental brasileiro.

Perguntas Frequentes

É necessária perícia técnica para comprovar fraude no sistema CAR?
O STJ não respondeu a essa pergunta neste caso. A tese de que a perícia técnica seria indispensável não foi examinada, por falta de prequestionamento, e a condenação foi mantida porque o Tribunal do Pará considerou provadas materialidade e autoria com depoimentos, extratos bancários, mensagens e relatórios, conclusão que o STJ não pode rever sem reexaminar provas.
Qual a pena para inserção de dados falsos no sistema CAR?
A inserção de dados falsos em sistema de informações (art. 313-A do CP) pode resultar em pena de reclusão de 2 a 12 anos e multa. No caso analisado pelo STJ, o réu foi condenado a 18 anos e 1 mês de reclusão devido ao concurso de crimes e agravantes.
Como funciona a fraude no Cadastro Ambiental Rural?
A fraude no CAR envolve inserção ou retificação irregular de dados no SISCAR, comprometendo a fiscalização ambiental e rastreabilidade de imóveis rurais. No caso do Pará, o dono da empresa contratada inseria dados falsos no sistema com outro acusado e pagava ao fiscal do contrato para que ele não exercesse a fiscalização.
Qual o impacto da fraude no CAR para o meio ambiente?
A fraude no Cadastro Ambiental Rural compromete o controle do desmatamento, distorce mapeamento de propriedades, inviabiliza fiscalização de APP e reserva legal, e permite que infratores recebam pagamentos públicos indevidamente, prejudicando políticas de proteção ambiental.
Como se defender de acusação de fraude no sistema ambiental?
A defesa em casos de fraude no sistema ambiental deve questionar a materialidade, autoria e elemento subjetivo do crime. É possível arguir necessidade de perícia técnica, ausência de dolo específico e vícios no conjunto probatório, sempre com assistência de advogado especializado em direito ambiental.
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