Jurisprudência Ambiental

STJ mantém recuperação de APP sem condicionar ao PRA e afasta multa

01/06/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 1000077-67.2020.8.26.0397

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Proprietários rurais foram condenados judicialmente à recuperação ambiental de área degradada no Estado de São Paulo, em ação promovida pelo Ministério Público Estadual. Os réus pretendiam realizar a recuperação exclusivamente por meio do Programa de Regularização Ambiental (PRA), condicionando a obrigação à prévia aprovação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). O Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a sentença condenatória, determinando a recuperação independentemente de regularização administrativa.

Questão jurídica

A questão central discutida consiste em saber se a obrigação de recuperar área ambientalmente degradada pode ser condicionada à adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), previsto no art. 29, § 4º, do Código Florestal (Lei n. 12.651/2012), e à prévia aprovação do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Discute-se também se o acórdão estadual incorreu em nulidade por omissão ao não enfrentar precedentes do STF sobre a retroatividade do Novo Código Florestal, e se era devida a multa imposta aos embargos de declaração como protelatórios.

Resultado

Em decisão monocrática, o relator no STJ conheceu do agravo e deu parcial provimento ao recurso especial, apenas para afastar a multa dos embargos de declaração, com base na Súmula 98. Afastou a alegação de nulidade por omissão, pois o acórdão estadual enfrentou as questões relevantes, e não reexaminou o direito à recuperação pelo PRA, por depender de prova (Súmula 7). Com isso, ficou de pé a conclusão do TJSP de que a recuperação ambiental não está condicionada ao CAR nem ao PRA.

Contexto do julgamento

O caso teve origem em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo contra três proprietários de imóvel rural, para obrigá-los a recuperar área de preservação permanente degradada após incêndio ocorrido em 2015. A sentença de primeiro grau acolheu integralmente os pedidos formulados na inicial, determinando a recomposição das áreas afetadas, sem condicionar tal obrigação a qualquer procedimento administrativo prévio perante os órgãos ambientais competentes.

Inconformados, os réus apelaram ao Tribunal de Justiça de São Paulo, sustentando que a recuperação ambiental deveria ser realizada exclusivamente mediante adesão ao Programa de regularização ambiental (PRA), a ser apresentado no prazo de até um ano após a aprovação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), nos termos do art. 59, § 2º, da Lei n. 12.651/2012. Argumentaram ainda que precedentes do Supremo Tribunal Federal reconhecem a constitucionalidade e a eficácia retroativa de dispositivos do Novo Código Florestal, os quais deveriam ser observados para disciplinar a forma de recomposição do passivo ambiental. O TJSP negou provimento ao recurso, mantendo a sentença e afastando os argumentos defensivos.

Após a rejeição dos embargos de declaração — com aplicação de multa por caráter protelatório — os agravantes interpuseram recurso especial, que foi inadmitido na origem com fundamento na Súmula 7 do STJ e na ausência de violação aos arts. 489 e 1.022 do CPC. O agravo em recurso especial (AREsp 3137087/SP) foi então julgado pelo relator, Ministro Gurgel de Faria, em decisão monocrática, que conheceu do agravo e passou ao exame do recurso especial.

Fundamentos da decisão

O relator afastou, em primeiro lugar, a alegação de nulidade do acórdão estadual por suposta omissão quanto ao enfrentamento de precedentes do STF e da tese relativa ao PRA. Conforme entendimento consolidado no STJ, o magistrado não está obrigado a rebater individualmente todos os argumentos apresentados pelas partes, sendo suficiente que os fundamentos adotados sejam aptos a embasar a conclusão do julgado. No caso concreto, o Tribunal de origem pronunciou-se expressamente sobre o art. 29 do Código Florestal e sobre a inaplicabilidade dos precedentes invocados, o que afasta qualquer vício de fundamentação. A confusão entre decisão desfavorável e ausência de prestação jurisdicional é equívoco recorrente, mas inaceitável na perspectiva do direito processual civil contemporâneo.

Sobre o direito material, o STJ não examinou o mérito. Para o relator, reconhecer o direito de fazer a recuperação pelo PRA, após a aprovação do CAR, exigiria reexaminar a prova, o que a Súmula 7 do STJ veda no recurso especial. Ficou de pé, assim, a conclusão do TJSP: a obrigação de reparar o dano ambiental decorre do art. 225, § 3º, da Constituição Federal, da Lei n. 6.938/1981 e da Lei n. 9.605/1998, e não está condicionada à inscrição no CAR. Para o tribunal paulista, a adesão ao PRA é uma faculdade do proprietário, e os réus não comprovaram que a restauração estivesse em andamento. Assim, nem o CAR nem o PRA afastaram a obrigação de recuperar a área imposta pela sentença. Quem busca compreender as implicações práticas das restrições ambientais impostas pelo Poder Público deve consultar materiais especializados, como o guia sobre embargo ambiental, que esclarece os diferentes instrumentos de fiscalização e suas consequências jurídicas para o proprietário rural.

Os recorrentes saíram vitoriosos num ponto: a multa do art. 1.026, § 2º, do CPC, imposta pelo TJSP aos embargos de declaração, foi afastada. O relator aplicou a Súmula 98 do STJ, segundo a qual embargos de declaração com notório propósito de prequestionamento não têm caráter protelatório, e entendeu que os embargos opostos na origem buscavam sanar omissões e contradições para prequestionar a matéria. Foi esse o único ponto em que o recurso especial teve provimento.

Alcance da decisão

As duas teses de julgamento vêm do acórdão do TJSP, transcrito na decisão do STJ, que não as reexaminou no mérito. A primeira estabelece que a sentença judicial que determina a recuperação de área degradada não é nula por não enfrentar individualmente todas as questões suscitadas pela defesa, desde que os fundamentos adotados sejam suficientes para sustentar o dispositivo. A segunda — e mais impactante para o contencioso ambiental rural — é a de que a recuperação ambiental imposta judicialmente não depende da regularização no CAR nem da adesão ao PRA, pois a obrigação reparatória tem natureza constitucional e legal autônoma. Na leitura do escritório, essas teses vão na direção de não condicionar a tutela ambiental a procedimentos administrativos, mas o STJ, neste caso, não as examinou no mérito.

Como o STJ barrou a discussão sobre o PRA na Súmula 7, a decisão não firma posição própria sobre o tema, mas mantém de pé a leitura do TJSP de que o CAR e o PRA são instrumentos administrativos que não substituem a obrigação de reparação imposta na via judicial. Para proprietários rurais e profissionais do direito ambiental, a decisão sinaliza que a inscrição no CAR e a adesão a programas de regularização, embora relevantes para a gestão do passivo ambiental na esfera administrativa, não produzem o efeito de suspender ou condicionar o cumprimento de decisões judiciais que determinam a recuperação de áreas de preservação permanente e reserva legal degradadas.

Perguntas Frequentes

A recuperação ambiental pode ser condicionada ao CAR e ao PRA?
Neste caso, não. O TJSP decidiu que a recuperação ambiental determinada judicialmente não fica condicionada ao Cadastro Ambiental Rural (CAR) nem ao Programa de Regularização Ambiental (PRA). O STJ manteve essa conclusão porque não podia reexaminar a prova (Súmula 7). A obrigação de reparar dano ambiental tem fundamento constitucional direto no art. 225, § 3º da CF e independe de procedimentos administrativos de regularização.
O que são o CAR e o PRA no direito ambiental?
O CAR é um instrumento declaratório de natureza cadastral para registro de propriedades rurais. O PRA é um mecanismo de incentivo à regularização voluntária previsto no Código Florestal. Ambos são ferramentas administrativas que coexistem com, mas não substituem, as obrigações judiciais de recuperação ambiental.
Qual a diferença entre obrigação judicial e administrativa de recuperação?
A obrigação judicial de recuperação ambiental decorre de sentença transitada em julgado e tem fundamento constitucional direto. Já os instrumentos administrativos como CAR e PRA são mecanismos de política ambiental para regularização voluntária, que não suspendem nem condicionam o cumprimento de decisões judiciais.
Embargos protelatórios em processos ambientais podem gerar multa?
Podem, quando forem de fato protelatórios (art. 1.026, § 2º, do CPC). Neste caso, porém, o STJ afastou a multa imposta pelo TJSP. Embargos opostos para sanar omissões e prequestionar a matéria não têm caráter protelatório, nos termos da Súmula 98 do STJ.
A sentença precisa enfrentar todos os argumentos da defesa em processo ambiental?
Não, conforme jurisprudência do STJ, o magistrado não está obrigado a rebater individualmente todos os argumentos das partes. É suficiente que os fundamentos adotados sejam aptos a embasar a conclusão do julgado, não havendo vício de fundamentação quando a decisão se pronuncia expressamente sobre as questões centrais.
Fale conosco