Jurisprudência Ambiental

STJ mantém acórdão sobre pendências no CAR e obrigação do vendedor rural

08/09/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 5285185-54.2020.8.09.0051

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PRIVADO

Fato

Compradores de imóvel rural em Goiás deixaram de pagar as três últimas parcelas do preço, que o contrato condicionava à solução das pendências no Cadastro Ambiental Rural (CAR), porque os vendedores, embora já notificados antes da celebração do contrato sobre essas inconsistências, não promoveram a regularização assumida expressamente no instrumento particular de compra e venda de 01.08.2018. A notificação administrativa apontando o CAR como 'analisado com pendências, aguardando retificação e/ou apresentação de documentos' datava de 17.01.2018, portanto anterior ao negócio. Vencidos na origem, os vendedores levaram a controvérsia ao STJ nos autos do processo n. 5285185-54.2020.8.09.0051.

Questão jurídica

Discutiu-se se o acórdão do Tribunal de Justiça de Goiás incorreu em negativa de prestação jurisdicional, por suposta omissão quanto ao depoimento testemunhal, à morosidade administrativa na análise do CAR, aos costumes do mercado imobiliário, ao julgamento do Agravo de Instrumento n. 5308984.85.2020.8.09.0000, à procuração outorgada aos compradores e à cessão de direitos contratuais. No mérito subjacente, debateu-se a distinção entre a simples inscrição no CAR e a regularização definitiva das pendências ambientais como condição contratual de pagamento.

Resultado

Nos EDcl nos AREsp 3106817/GO (2025/0447653-3), o Ministro Luís Carlos Gambogi (Desembargador convocado do TJMG), no STJ, acolheu parcialmente os embargos de declaração apenas para complementar a fundamentação, sem efeitos modificativos. Manteve-se a conclusão de que o Tribunal de origem enfrentou as questões relevantes, com fundamentação suficiente, não havendo violação aos arts. 489 e 1.022 do Código de Processo Civil.

Contexto do julgamento

A controvérsia analisada no EDcl nos AREsp 3106817/GO (2025/0447653-3), relatado pelo Ministro Luís Carlos Gambogi (Desembargador convocado do TJMG) no Superior Tribunal de Justiça, em decisão de 08 de setembro de 2026, tem origem no processo n. 5285185-54.2020.8.09.0051, do Tribunal de Justiça de Goiás. Discutiu-se o inadimplemento de obrigação contratual ligada à situação ambiental de imóvel rural negociado entre particulares, em que as três últimas parcelas do preço somente seriam pagas após a solução das pendências existentes perante o Cadastro Ambiental Rural.

Segundo os elementos reproduzidos na própria decisão, documento juntado aos autos demonstrava que, em 17.01.2018, os vendedores já haviam sido notificados de que o cadastro fora “analisado com pendências, aguardando retificação e/ou apresentação de documentos”, especialmente quanto ao georreferenciamento. Ainda assim, celebraram o instrumento particular de compra e venda em 01.08.2018, assumindo expressamente o encargo de regularizar a situação. O acórdão estadual, ao julgar os segundos embargos de declaração, destacou que a inscrição no CAR já existia antes do negócio, de modo que a cláusula contratual não podia ser lida como simples exigência de inscrição, mas como obrigação de saneamento definitivo das inconsistências.

Inconformados, os vendedores sustentaram no recurso especial a existência de negativa de prestação jurisdicional, apontando omissões quanto ao depoimento de uma testemunha, às alegações finais, à morosidade administrativa na análise do CAR, aos costumes do mercado imobiliário, ao julgamento do Agravo de Instrumento n. 5308984.85.2020.8.09.0000, à procuração outorgada aos compradores para solução das pendências ambientais e à cessão de direitos contratuais por uma das embargantes.

Fundamentos da decisão

O relator reafirmou que os embargos de declaração se destinam a sanar obscuridade, contradição, omissão ou erro material, nos termos do art. 1.022 do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015), não constituindo via adequada à mera rediscussão da controvérsia já decidida. No caso, os aclaratórios foram acolhidos apenas parcialmente, para complementar a fundamentação da decisão anterior, sem qualquer alteração no resultado do julgamento.

Quanto ao alegado vício de fundamentação, a decisão registrou que a Corte de origem enfrentou as questões relevantes — extensão da obrigação relativa ao CAR, natureza propter rem da obrigação e legitimidade passiva de uma das vendedoras — bem como a tese de morosidade administrativa e a prova documental e testemunhal produzida. O ponto central foi o de que não se exige do órgão julgador manifestação individualizada sobre cada elemento probatório ou argumento deduzido pela parte, desde que enfrentadas as questões relevantes e expostas razões suficientes, exigência que decorre do art. 489, § 1º, do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015). Atribuir às provas alcance diverso do pretendido pela parte não configura omissão.

Do ponto de vista ambiental, o caso é relevante porque o acórdão estadual, mantido pelo STJ, distinguiu dois momentos frequentemente confundidos na prática negocial: a inscrição no Cadastro Ambiental Rural, prevista na Lei nº 12.651/2012 (Código Florestal), art. 29, e a efetiva análise e regularização das pendências apontadas pelo órgão ambiental. A inscrição é declaratória e obrigatória, mas não equivale à validação do cadastro; pendências de georreferenciamento, sobreposição de perímetros ou déficit de reserva legal permanecem como passivo que repercute no valor do imóvel, no acesso a crédito e na exposição do proprietário a autuações e ao embargo ambiental. Daí a legitimidade de cláusulas que condicionam parcelas do preço à comprovação da regularidade definitiva.

Alcance da decisão

Da decisão proferida nos EDcl nos AREsp 3106817/GO (2025/0447653-3), Rel. Min. Luís Carlos Gambogi (Desembargador convocado do TJMG), Superior Tribunal de Justiça, 08.09.2026, extraem-se duas orientações. A primeira, processual: não há negativa de prestação jurisdicional quando o acórdão recorrido enfrenta as questões relevantes e expõe razões suficientes, ainda que sem manifestação individualizada sobre cada prova ou argumento, nos termos dos arts. 489 e 1.022 do Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015).

A segunda diz respeito ao mérito, que o STJ não reexaminou. O Tribunal de Justiça de Goiás concluiu que, quando o vendedor de imóvel rural é previamente notificado de pendências no Cadastro Ambiental Rural e, mesmo assim, celebra o negócio assumindo a obrigação de saná-las, a demora administrativa na análise do cadastro não pode ser transferida ao comprador, pois integra o risco que ele assumiu. O STJ apenas registrou que essa questão foi enfrentada na origem e manteve o resultado. No mesmo processo, o Agravo de Instrumento n. 5308984.85.2020.8.09.0000, do Tribunal de Justiça de Goiás, foi invocado pelos embargantes como fundamento de preclusão, tendo a decisão do STJ consignado que sua ausência de exame individualizado não configurou vício apto a viabilizar o exame do mérito recursal.

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