STJ mantém redução de indenização ambiental | Diovane Franco
Jurisprudência Ambiental

STJ mantém redução de indenização por desmatamento ilegal em Goiás

28/04/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 51090402520238090024

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

O Ministério Público do Estado de Goiás ajuizou ação civil pública em razão do desmatamento de 39,42 hectares de mata nativa sem autorização ambiental em um imóvel rural no município de Rio Quente. A sentença de primeiro grau condenou os réus solidariamente à elaboração e execução de um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), além de fixar indenização por danos ecossistêmicos no valor de R$ 5.378.578,33. Em sede de apelação, o Tribunal de Justiça de Goiás reduziu drasticamente esse valor para R$ 400.000,00, decisão que motivou a interposição do recurso especial pelo Ministério Público.

Questão jurídica

A controvérsia central consiste em verificar se a redução do quantum indenizatório de R$ 5.378.578,33 para R$ 400.000,00 violou o princípio da reparação integral do dano ambiental, previsto na Lei n. 6.938/1981. Discute-se, ainda, se o Tribunal de origem incorreu em omissão ao deixar de apreciar critérios como a extensão e gravidade do dano, a reincidência do agente e a metodologia técnico-científica do laudo pericial, além da cumulatividade entre as obrigações de restaurar in natura e de indenizar pecuniariamente.

Resultado

O Ministro Gurgel de Faria, relator do AREsp 3167899/GO no STJ, examinou os fundamentos da decisão de inadmissibilidade e afastou a alegada violação do art. 1.022 do CPC, por entender que o Tribunal de origem fundamentou adequadamente seu julgamento, não sendo possível confundir resultado desfavorável com ausência de fundamentação. O relator conheceu do agravo, conheceu em parte do recurso especial e, nessa extensão, negou-lhe provimento. Aplicou a Súmula 7 do STJ, porque rever o valor exigiria reexame de provas e a revisão de indenização só cabe quando o montante é exorbitante ou irrisório. Com isso, ficou mantida a indenização de R$ 400.000,00 fixada pelo Tribunal de Justiça de Goiás, embora o parecer do Ministério Público Federal tenha sido pelo provimento.

Contexto do julgamento

O caso teve origem em ação civil pública proposta pelo Ministério Público do Estado de Goiás contra um produtor rural e o espólio de outro proprietário, em razão do desmatamento irregular de 39,42 hectares de mata nativa em um imóvel rural localizado no município de Rio Quente, interior de Goiás. A supressão de vegetação foi realizada sem qualquer autorização do órgão ambiental competente, configurando infração grave à legislação ambiental. A apuração dos fatos contou com Auto de Infração lavrado pelos órgãos fiscalizatórios, além de relatórios técnicos e laudos ambientais que documentaram a extensão da degradação causada ao ecossistema local.

Em primeiro grau, a sentença reconheceu a responsabilidade solidária dos réus e os condenou à elaboração e execução de um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), instrumento técnico destinado a orientar a restauração da cobertura vegetal suprimida. Além disso, um dos réus foi condenado ao pagamento de indenização por danos ecossistêmicos no valor de R$ 5.378.578,33, montante calculado com base no laudo pericial CATEP n. 21/2018, que utilizou metodologia técnico-científica internacionalmente reconhecida, referenciada nos trabalhos de Groot et al. (2011) e Constanza et al. (2014), para mensurar os impactos sobre os serviços ecossistêmicos da área desmatada.

O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, ao apreciar as apelações interpostas, manteve a condenação à elaboração do PRAD e a responsabilidade objetiva e propter rem dos réus, mas reduziu o valor da indenização pecuniária de R$ 5.378.578,33 para R$ 400.000,00, invocando os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. Insatisfeito com essa redução, o Ministério Público interpôs recurso especial, que foi inadmitido na origem, levando à interposição do Agravo em Recurso Especial n. 3167899/GO perante o Superior Tribunal de Justiça, distribuído ao Ministro Gurgel de Faria.

Fundamentos da decisão

No plano processual, o Ministério Público sustentou que o acórdão do Tribunal de Justiça de Goiás incorreu em omissão relevante, violando o art. 1.022, inciso II, do Código de Processo Civil, ao deixar de se manifestar expressamente sobre pontos determinantes para a fixação do quantum indenizatório. Dentre as omissões apontadas, destacaram-se a ausência de consideração sobre a reincidência específica e a postura predatória do agente degradador, a desconsideração da fundamentação técnico-científica do laudo pericial quanto à extensão do dano e ao tempo necessário para a regeneração da vegetação suprimida, e a não apreciação da cumulatividade entre as obrigações de restaurar in natura e de indenizar em pecúnia. O Ministro relator, contudo, afastou essa alegação ao consignar que o magistrado não está obrigado a responder a todas as alegações das partes, desde que os fundamentos utilizados sejam suficientes para embasar a decisão, o que entendeu ter ocorrido na espécie.

No mérito, a controvérsia central girou em torno do princípio da reparação integral do dano ambiental, consagrado no art. 225, § 3º, da Constituição Federal, e nos arts. 4º, inciso VII, e 14, § 1º, da Lei n. 6.938/1981 — a Política Nacional do Meio Ambiente. O Ministério Público argumentou que a redução do valor indenizatório em mais de 92% contrariou esse princípio fundamental, além de afrontar a Súmula 629 do STJ, que admite expressamente a cumulação da condenação à obrigação de fazer com a indenização pecuniária em matéria ambiental. Segundo o recurso, a responsabilidade civil ambiental, por sua natureza objetiva, não comportaria a redução da indenização com fundamento na capacidade financeira do degradador ou na existência paralela do PRAD, uma vez que as obrigações seriam autônomas e complementares entre si. Para uma compreensão mais aprofundada sobre os instrumentos de controle ambiental e as sanções aplicáveis em casos de supressão irregular de vegetação, recomenda-se a leitura do guia sobre embargo ambiental, que esclarece os mecanismos administrativos de resposta ao desmatamento ilegal.

O Tribunal de Justiça de Goiás, ao reduzir a indenização, ponderou que a sanção não poderia se tornar desproporcional a ponto de inviabilizar o cumprimento da obrigação pelo condenado, levando em conta a diferença entre o montante fixado e o valor da própria propriedade. O Ministério Público Federal, em parecer nos autos, manifestou-se pelo provimento do agravo e do recurso especial, defendendo o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que fossem sanadas as omissões relativas à reincidência do agente, à fundamentação técnica do laudo e à cumulatividade das obrigações, reforçando que esses elementos são indispensáveis para a correta quantificação do dano ambiental e para o cumprimento da função punitiva, pedagógica e dissuasória da responsabilidade civil nessa seara.

Alcance da decisão

O acórdão do Tribunal de Justiça de Goiás, cujo conteúdo foi objeto de análise pelo STJ, consolidou duas teses relevantes para o direito ambiental: a primeira afirma que a responsabilidade civil ambiental é objetiva e de natureza propter rem, sendo imputável tanto ao proprietário quanto ao possuidor da área degradada, independentemente de culpa ou da existência de vínculo direto com o ato lesivo. Essa compreensão está em plena consonância com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça firmado no Tema Repetitivo n. 1204 e na Súmula n. 623, que consolidam a transmissibilidade das obrigações ambientais em razão da titularidade do bem imóvel. A segunda tese estabelece que a indenização por danos ecossistêmicos deve observar os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, premissa que, no entanto, é objeto de questionamento pelo Ministério Público diante da magnitude da redução aplicada.

O julgamento do AREsp 3167899/GO assume relevância paradigmática porque coloca em tensão dois vetores igualmente legítimos do ordenamento jurídico-ambiental brasileiro: de um lado, o princípio da reparação integral, que impõe a recomposição plena dos danos causados ao meio ambiente, sem limitações fundadas na capacidade econômica do infrator; de outro, os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, que orientam a fixação de sanções equilibradas. Neste caso, porém, o STJ não arbitrou esse conflito. O relator negou provimento ao recurso especial com base na Súmula 7, por entender que rever o valor exigiria reexame de provas e que a revisão de indenização por dano ambiental só cabe quando o montante é exorbitante ou irrisório. Com isso, ficou mantida a indenização de R$ 400.000,00 fixada pelo Tribunal de Justiça de Goiás.

Perguntas Frequentes

É possível reduzir indenização por danos ambientais com base na capacidade econômica do infrator?
O Ministério Público sustentou que não, com base no princípio da reparação integral. Neste caso, porém, o Tribunal de Justiça de Goiás considerou a capacidade financeira do condenado e o valor do imóvel para reduzir a indenização, e o STJ manteve a redução ao aplicar a Súmula 7, pois só revisa o valor quando ele é exorbitante ou irrisório.
PRAD e indenização por danos ambientais podem ser cumulados?
Sim, PRAD e indenização pecuniária são obrigações autônomas e complementares, segundo a Súmula 629 do STJ. A elaboração do Plano de Recuperação de Áreas Degradadas não exclui a obrigação de indenizar os danos ecossistêmicos causados ao meio ambiente.
Como é calculada a indenização por danos ecossistêmicos?
A indenização é calculada por laudos técnicos que utilizam metodologia científica internacional para mensurar impactos sobre serviços ecossistêmicos. O cálculo considera a extensão do dano, tempo de regeneração e funções ecológicas perdidas da vegetação suprimida.
Quem responde pela indenização ambiental em caso de desmatamento?
A responsabilidade é objetiva e propter rem, recaindo sobre proprietário e possuidor da área degradada, independente de culpa ou vínculo direto com o ato lesivo. Essa responsabilidade se transmite com a propriedade do imóvel, conforme Súmula 623 do STJ.
O que estabelece o princípio da reparação integral do dano ambiental?
O princípio, previsto no art. 225, § 3º da Constituição Federal, determina que o meio ambiente deve ser integralmente reparado quando danificado. Isso significa que a indenização deve cobrir completamente os danos causados, sem limitações por fatores econômicos ou sociais.
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