Jurisprudência Ambiental

STJ REsp 2261309: indenização por dano interino em APP do Rio Paraná

09/04/2026 STJ Resp Processo: REsp 2261309

FRANCISCO FALCÃO

Fato

O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública ambiental contra possuidora de imóvel no Bairro Beira Rio, em Rosana/SP, às margens do Rio Paraná, constatando edificações irregulares e clandestinas erguidas dentro de área de preservação permanente, a menos de 500 metros da margem do rio, sem qualquer licença ou aprovação dos órgãos ambientais competentes. A fiscalização da Polícia Militar Ambiental, realizada em julho de 2009, lavrou boletim de ocorrência e auto de infração ambiental, verificando que a ré residia em área de risco de inundação e de preservação permanente, a aproximadamente 5 metros da margem do rio. O ICMBio confirmou, em relatório técnico de vistoria, a situação irregular do imóvel, que impedia e dificultava a regeneração natural da flora e fauna local.

Questão jurídica

No recurso especial, o MPF alegou omissão do TRF da 3ª Região sobre os danos remanescentes e reflexos e questionou o valor de R$ 2.000,00 fixado como indenização, que considerou irrisório. A questão enfrentada pelo STJ foi saber se a possibilidade de recuperar integralmente a área afasta a indenização em dinheiro. Antes, no TRF da 3ª Região, em pontos que o recurso não rediscutiu, a questão central foi definir qual legislação ambiental incide sobre danos ocorridos antes do advento do novo Código Florestal (Lei 12.651/2012), especialmente para fixar a extensão da faixa de área de preservação permanente às margens do Rio Paraná. Discutiu-se também se o Plano Diretor Municipal (Lei Complementar Municipal 45/2015 de Rosana/SP) teria o condão de promover a regularização fundiária e ambiental do imóvel, afastando as normas ambientais federais e a necessidade de autorização dos órgãos competentes. Por fim, debateu-se a aplicabilidade do Tema 1.010 do STJ, que trata da extensão não edificável em APPs em áreas urbanas consolidadas sob a vigência do novo Código Florestal.

Resultado

O TRF da 3ª Região deu parcial provimento à remessa necessária e ao recurso de apelação do MPF, da União e do Ibama, reformando parcialmente a sentença para fixar a faixa marginal a ser preservada em 500 metros do leito do Rio Paraná, aplicando o antigo Código Florestal (Lei 4.771/1965, com alterações da Lei 7.803/1989), por ser a legislação vigente à época dos fatos. O tribunal manteve todas as demais condenações da sentença, incluindo a obrigação de demolição de edificações, reflorestamento, instalação de fossa séptica e pagamento de indenização de R$ 2.000,00 ao Fundo Federal de Defesa de Direitos Difusos. O Tema 1.010 do STJ foi considerado inaplicável ao caso, pois não foi reconhecida a caracterização de área urbana consolidada, e os danos ocorreram antes da vigência do novo Código Florestal. No STJ, em decisão monocrática, o Ministro Francisco Falcão deu parcial provimento ao recurso especial do MPF e devolveu os autos ao TRF da 3ª Região para que fixe o valor da indenização pelo dano ambiental, porque a possibilidade de recuperar a área não afasta a indenização dos danos interinos.

Contexto do julgamento

O caso chegou ao Superior Tribunal de Justiça após longa tramitação iniciada em maio de 2010, quando o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública ambiental contra a possuidora de imóvel situado no Bairro Beira Rio, no município de Rosana/SP, às margens do Rio Paraná. A denúncia era grave: edificações erguidas de forma clandestina, sem licença dos órgãos ambientais competentes, a poucos metros da margem de um dos maiores rios do Brasil, em área reconhecidamente sujeita a inundações decorrentes da abertura de comportas de usinas hidroelétricas da região. A Polícia Militar Ambiental havia constatado, em fiscalização de julho de 2009, que a ré residia em área de preservação permanente, lavrando boletim de ocorrência e auto de infração ambiental por impedir e dificultar a regeneração natural da vegetação em estágio pioneiro.

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) vistoriou o imóvel em dezembro de 2009 e confirmou, em relatório técnico, que a construção se encontrava a aproximadamente 5 metros da margem do Rio Paraná, dentro da área de risco imediato de inundação e de preservação permanente. A União e o Ibama foram incluídos no polo ativo da demanda na condição de assistentes litisconsorciais, reforçando o interesse público federal na proteção daquele ecossistema ribeirinho. A sentença de primeiro grau julgou parcialmente procedente o pedido, condenando a ré a uma série de obrigações de fazer e não fazer, além de indenização pecuniária, mas fixou a faixa de APP em apenas 15 metros — extensão que seria corrigida em sede recursal.

Em grau recursal, o TRF da 3ª Região deu parcial provimento à remessa necessária e aos recursos de apelação do MPF, da União e do Ibama. O ponto central da reforma foi a ampliação da faixa de preservação permanente de 15 para 500 metros, aplicando-se corretamente a legislação vigente à época dos fatos. O tribunal afastou ainda a pretensão da ré de se beneficiar do Plano Diretor Municipal de Rosana (Lei Complementar Municipal 45/2015), que previa obrigação municipal de regularização ambiental e fundiária de bairros em APP, mas que, segundo o acórdão, não tem o condão de afastar normas infralegais que disciplinam preceito constitucional nem de dispensar a autorização dos órgãos ambientais competentes.

Fundamentos da decisão

No acórdão do TRF da 3ª Região, que o recurso especial não discutiu nesse ponto, o aspecto jurídico mais relevante é a definição do marco temporal para aplicação da legislação ambiental. Como os danos foram constatados e a ação foi proposta antes da entrada em vigor do novo Código Florestal (Lei 12.651/2012), o tribunal aplicou o antigo Código Florestal — Lei 4.771/1965, com as alterações introduzidas pela Lei 7.803/1989. Sob essa legislação, a faixa de área de preservação permanente às margens de rios com largura superior a 600 metros é de 500 metros, conforme o art. 2º, alínea “a”, item 5. O Rio Paraná possui largura superior a esse patamar, razão pela qual a faixa de 500 metros foi corretamente reconhecida como APP no caso concreto, tornando evidente a ilegalidade das edificações da ré, situadas a cerca de 5 metros da margem.

Outro fundamento essencial do acórdão do TRF da 3ª Região foi o afastamento do Tema 1.010 do STJ, fixado em abril de 2021, que estabelece que, na vigência do novo Código Florestal, a extensão não edificável em APPs de cursos d’água em trechos de área urbana consolidada deve respeitar o disposto no art. 4º, caput, inciso I, da Lei 12.651/2012. O tribunal reconheceu que tal precedente é inaplicável ao caso por duas razões autônomas e cumulativas: os danos e a situação irregular são anteriores ao novo Código Florestal, e o Bairro Beira Rio não foi reconhecido como área urbana consolidada para os fins da legislação ambiental vigente. Essa distinção é fundamental para evitar que o conceito de área urbana consolidada seja utilizado como instrumento de regularização de situações flagrantemente irregulares, especialmente em zonas de várzea sujeitas a inundações periódicas. O tema do embargo ambiental é diretamente conectado a esse tipo de situação, na qual a manutenção de edificações irregulares em APP pode acarretar, além das obrigações cíveis, a paralisação compulsória das atividades pelo poder público.

A condenação mantida pelo TRF da 3ª Região abrangeu obrigações de fazer (demolição, reflorestamento, instalação de fossa séptica, elaboração e execução de projeto de recuperação ambiental), obrigações de não fazer (vedação de novas construções, criação de animais, supressão de vegetação sem autorização e descarte de resíduos) e indenização de R$ 2.000,00 em favor do Fundo Federal de Defesa de Direitos Difusos. Foi esse valor que chegou ao STJ. O recurso especial do MPF alegou omissão do acórdão e indenização irrisória. Em decisão monocrática, o Ministro Francisco Falcão afastou a alegação de omissão, mas deu parcial provimento ao recurso e devolveu os autos ao Tribunal de origem para que fixe o valor da indenização pelo dano ambiental. Segundo a decisão, a possibilidade de recuperar a área com o plantio de mudas nativas afasta só a indenização do dano residual, não a do dano interino, e o valor de cada condenação tem de ser especificado, em respeito ao princípio da reparação integral.

Alcance da decisão

O acórdão do TRF da 3ª Região, que o recurso especial não discutiu nesse ponto, adotou tese de alta relevância prática: os danos ambientais ocorridos antes da vigência do novo Código Florestal (Lei 12.651/2012) devem ser apurados e sancionados com base na legislação então vigente, no caso, a Lei 4.771/1965 com as alterações da Lei 7.803/1989, sendo vedada a aplicação retroativa do novo diploma para reduzir a extensão das faixas de APP e, consequentemente, atenuar as responsabilidades já constituídas. Essa orientação dialoga diretamente com o princípio da proibição do retrocesso ambiental e com a jurisprudência consolidada do STJ no sentido de que o novo Código Florestal não pode ser utilizado como instrumento de anistia para condutas praticadas sob a égide da legislação anterior.

Além disso, o acórdão reforça o entendimento de que legislação municipal urbanística, ainda que aprovada na forma de Plano Diretor, não possui hierarquia normativa suficiente para afastar a incidência de normas ambientais federais e constitucionais, nem para substituir o licenciamento e a autorização dos órgãos ambientais competentes. Esse entendimento está em consonância com a jurisprudência do STJ sobre a prevalência das normas ambientais federais e com o Tema 1.010, que, mesmo ao admitir a aplicação do novo Código Florestal em áreas urbanas consolidadas, exige o reconhecimento formal e fundamentado dessa condição, não bastando a mera previsão em lei municipal. O precedente é de especial relevância para municípios ribeirinhos que tentam, por meio de instrumentos urbanísticos locais, promover a regularização de ocupações em APPs sem a devida chancela dos órgãos ambientais estaduais e federais.

Perguntas Frequentes

Qual foi a extensão da APP fixada no caso do Rio Paraná?
No caso, a faixa de 500 metros foi fixada pelo TRF da 3ª Região, que aplicou o antigo Código Florestal (Lei 4.771/1965), com faixa de 500m para rios com largura superior a 600 metros, como é o caso do Rio Paraná. O REsp 2261309 não rediscutiu esse ponto, porque o recurso do MPF tratou só da indenização.
Por que o novo Código Florestal não foi aplicado no caso do Rio Paraná?
O TRF da 3ª Região aplicou a legislação vigente à época dos fatos (Lei 4.771/1965, com as alterações da Lei 7.803/1989) porque os danos ambientais ocorreram antes do novo Código Florestal (Lei 12.651/2012). O STJ, no REsp 2261309, não reexaminou esse ponto.
Edificações em APP de rio podem ser regularizadas por Plano Diretor Municipal?
Neste caso, não. O TRF da 3ª Região entendeu que o Plano Diretor de Rosana (Lei Complementar Municipal 45/2015) não tem o condão de promover a regularização fundiária do imóvel nem de dispensar a autorização dos órgãos ambientais competentes. O STJ não reexaminou esse ponto.
O que acontece com construções irregulares em APP de rio?
No caso do Rio Paraná, a sentença, mantida pelo TRF da 3ª Região, determinou a demolição das edificações, o reflorestamento, o projeto de recuperação ambiental e indenização ao Fundo Federal de Defesa de Direitos Difusos. O STJ devolveu os autos para que o valor da indenização seja fixado de novo, porque a possibilidade de recuperar a área não afasta a indenização do dano interino.
Como comprovar que uma área não é APP em margem de rio?
Para comprovar que uma área não é APP em margem de rio, é necessário laudo técnico demonstrando a largura do curso d'água e a distância da edificação. Rios com até 10m de largura têm APP de 30m, enquanto rios maiores podem chegar a 500m de APP.
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