Jurisprudência Ambiental

STJ analisa cobrança de tarifa de esgoto sem tratamento final de efluentes

15/04/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0000546-61.2016.8.19.0205

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Um consumidor fluminense ajuizou ação de repetição de indébito contra a companhia estadual de saneamento e uma concessionária privada, alegando ilegalidade na cobrança integral da tarifa de esgotamento sanitário. Laudo pericial constatou que as empresas realizavam apenas coleta e transporte dos efluentes, que eram lançados em galerias de águas pluviais, sem qualquer tratamento final.

Questão jurídica

A controvérsia central consiste em definir se é legítima a cobrança integral da tarifa de esgotamento sanitário quando a concessionária presta apenas algumas das etapas do serviço, especialmente quando os efluentes são descartados em rede de águas pluviais sem tratamento. Discute-se ainda a vinculação dos tribunais ao Tema 565 do STJ, que reconheceu a legalidade da cobrança mesmo sem tratamento final, e a possibilidade de redução proporcional da tarifa por força de precedente posterior.

Resultado

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, confirmando parcialmente a sentença, determinou a restituição de 50% da tarifa de esgoto cobrada, por entender que a ausência de tratamento final justifica redução proporcional, aplicando o prazo prescricional decenal do art. 205 do Código Civil conforme a Tese 932 do STJ. A companhia estadual recorreu ao STJ invocando o Tema 565, mas o relator, Ministro Afrânio Vilela, em decisão monocrática, negou provimento ao recurso especial. Com base na jurisprudência da Segunda Turma, segundo a qual não se pode cobrar por esgoto despejado in natura em galerias pluviais, manteve a restituição de 50% da tarifa.

Contexto do julgamento

O caso tem origem em ação de repetição de indébito ajuizada por consumidor do Estado do Rio de Janeiro contra a companhia estadual de saneamento e uma concessionária privada, responsáveis pelo serviço de esgotamento sanitário na região. O autor questionou a legitimidade da cobrança integral da tarifa de esgoto, alegando que as empresas não prestavam o serviço de forma completa, limitando-se à coleta e ao transporte dos dejetos, sem promover o tratamento final dos efluentes antes da disposição no meio ambiente.

A prova pericial produzida nos autos revelou dado de especial relevância do ponto de vista ambiental: os efluentes coletados eram destinados à rede de galerias de águas pluviais, sem qualquer forma de tratamento sanitário. Essa constatação é ambientalmente grave, pois o lançamento de esgoto in natura em galerias pluviais representa séria ameaça à qualidade dos corpos hídricos receptores, à saúde pública e à integridade dos ecossistemas aquáticos. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, diante desse cenário, reformou parcialmente a sentença para determinar a devolução de 50% dos valores cobrados, reconhecendo que a ausência do tratamento final justifica redução proporcional da tarifa.

A companhia estadual interpôs recurso especial ao Superior Tribunal de Justiça sustentando que a decisão do TJRJ violou o Tema 565 da corte superior, que reconhece a legalidade da cobrança integral mesmo quando prestadas apenas algumas etapas do serviço de esgotamento. A empresa também arguiu que a controvérsia seria exclusivamente jurídica, afastando o óbice da Súmula 7 do STJ, e que os arts. 3º, inciso I, alínea b, da Lei nº 11.445/2007 e 9º do Decreto nº 7.217/2010 amparariam a cobrança independentemente da integralidade das etapas executadas.

Fundamentos da decisão

A análise jurídica do caso exige compreensão do marco regulatório do saneamento básico brasileiro, estruturado principalmente pela Lei nº 11.445/2007, a Lei de Diretrizes Nacionais para o Saneamento Básico. O art. 3º, inciso I, alínea b, desse diploma define o esgotamento sanitário como o conjunto de atividades que inclui a coleta, o transporte, o tratamento e a disposição final adequada dos esgotos. O ponto nevrálgico da controvérsia está em saber se a prestação parcial dessas atividades — especialmente quando ausente o tratamento final — autoriza a cobrança integral ou proporcional da tarifa. O tema ganha dimensão ambiental relevante quando se constata que o lançamento de efluentes sem tratamento em galerias pluviais pode configurar infração às normas de proteção dos recursos hídricos, assunto que se relaciona intimamente com os mecanismos de fiscalização ambiental, como o embargo ambiental, instrumento pelo qual o poder público pode paralisar atividades causadoras de danos ao meio ambiente.

O Tema 565 do STJ, firmado no julgamento do REsp nº 1.339.313/RJ pela Primeira Seção em 2013, estabeleceu que a legislação de regência confere suporte à cobrança da tarifa de esgoto mesmo ausente o tratamento final dos dejetos, pois não exige que todas as etapas sejam executadas para legitimar a exação. O fundamento central do precedente é que o benefício direto ao usuário reside na coleta e no escoamento dos dejetos de sua propriedade, enquanto o tratamento final tem natureza predominantemente socioambiental, sendo uma obrigação da concessionária perante o Poder Público e não diretamente perante o consumidor individual. O acórdão do TJRJ invocou julgado posterior da Segunda Turma (REsp nº 1.801.205/RJ, relator Ministro Herman Benjamin, 2019) para admitir a cobrança por fases. No STJ, porém, a decisão monocrática do Ministro Afrânio Vilela apoiou-se em outra linha da Segunda Turma (REsp nº 1.808.049/RJ e agravos internos posteriores). Segundo essa linha, é inviável cobrar por esgoto não coletado ou despejado in natura nas galerias pluviais, porque aí a questão deixa de ser de tratamento e passa a ser poluição, que gera responsabilidade civil ambiental, e não direito a remuneração.

Do ponto de vista do direito ambiental, a questão ultrapassa o âmbito tarifário. A destinação de efluentes domésticos in natura em galerias de águas pluviais constitui modalidade de poluição hídrica vedada pela Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981) e pela Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/1997). A ausência de tratamento de esgoto é uma das principais causas de degradação de rios e baías no Brasil, comprometendo o equilíbrio ecológico e a saúde das populações ribeirinhas. Assim, a discussão tarifária não pode ser desconectada da obrigação das concessionárias de cumprir os padrões ambientais exigidos pela legislação, sob pena de onerar o consumidor pelo pagamento de um serviço que, além de incompleto, gera externalidades negativas ao meio ambiente.

Alcance da decisão

O precedente vinculante do Tema 565 do STJ firmou que a cobrança da tarifa de esgotamento sanitário é legítima mesmo quando a concessionária realiza apenas coleta e transporte dos dejetos, sem promover o tratamento final, com fundamento nos arts. 3º, I, b, da Lei nº 11.445/2007 e 9º do Decreto nº 7.217/2010. O entendimento parte da premissa de que o serviço público de esgotamento sanitário não exige a integralidade das etapas para existir juridicamente, sendo cada fase dotada de autonomia suficiente para justificar a contrapartida tarifária. No caso comentado, porém, o relator, Ministro Afrânio Vilela, em decisão monocrática, negou provimento ao recurso especial da concessionária e manteve a restituição de 50% da tarifa fixada pelo TJRJ. Ele se baseou na orientação da Segunda Turma de que o Tema 565 não autoriza cobrar por esgoto lançado in natura nas galerias pluviais, sem nenhum tratamento, situação que configura poluição e não serviço remunerável. Quanto à prescrição, o STJ consolidou pela Tese 932 que o prazo aplicável às ações de repetição de indébito de tarifas de água e esgoto é o decenal previsto no art. 205 do Código Civil, por se tratar de relação de natureza pessoal não sujeita a prazo específico menor, garantindo ao consumidor horizonte temporal mais amplo para pleitear a devolução de valores indevidamente cobrados.

Perguntas Frequentes

É legal cobrar tarifa de esgoto sem fazer o tratamento final?
Em regra, sim. Pelo Tema 565 do STJ, a cobrança da tarifa de esgotamento sanitário é legítima mesmo quando a concessionária realiza apenas coleta e transporte dos dejetos, sem o tratamento final. Mas, segundo a Segunda Turma do STJ, aplicada na decisão comentada, não se pode cobrar por esgoto despejado in natura em galerias pluviais, sem nenhum tratamento. O fundamento é que o benefício direto ao usuário reside na coleta e escoamento dos dejetos de sua propriedade, enquanto o tratamento final tem natureza predominantemente socioambiental.
Posso pedir redução da tarifa de esgoto se não há tratamento?
Depende do que a perícia mostrar. O Tema 565 e o REsp 1.351.724/RJ rejeitam a redução proporcional da tarifa quando há coleta e transporte dos dejetos. Já quando o esgoto é lançado in natura em galerias pluviais, sem nenhum tratamento, a Segunda Turma do STJ entende que a cobrança é indevida. No caso comentado, o relator no STJ manteve a restituição de 50% da tarifa determinada pelo TJRJ.
Qual o prazo para pedir devolução de valores cobrados indevidamente?
O prazo é decenal (10 anos) conforme a Tese 932 do STJ, aplicando-se o art. 205 do Código Civil por se tratar de relação de natureza pessoal não sujeita a prazo específico menor. Isso garante ao consumidor horizonte temporal mais amplo para pleitear a devolução de valores indevidamente cobrados de tarifas de água e esgoto.
Lançar esgoto sem tratamento em galerias pluviais é crime ambiental?
Sim, a destinação de efluentes domésticos in natura em galerias de águas pluviais constitui modalidade de poluição hídrica vedada pela Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981) e pela Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/1997). Essa prática representa séria ameaça à qualidade dos corpos hídricos receptores e à saúde pública.
O que define o serviço de esgotamento sanitário pela lei?
Segundo o art. 3º, inciso I, alínea b, da Lei nº 11.445/2007, o esgotamento sanitário é o conjunto de atividades que inclui a coleta, o transporte, o tratamento e a disposição final adequada dos esgotos. A controvérsia jurídica está em saber se a prestação parcial dessas atividades autoriza a cobrança integral ou proporcional da tarifa.
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