Jurisprudência Ambiental

Justiça Federal manda citar consorciadas em ACP ambiental por obras olímpicas

19/09/2025 trf2 Ação Civil Pública Cível Processo: 0178402-41.2017.4.02.5101

17ª Vara Federal do Rio de Janeiro

Fato

A ação civil pública foi ajuizada em setembro de 2017 em face de construtoras, pessoas físicas e do consórcio construtor responsável por obras relacionadas aos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. A demanda apura danos ambientais decorrentes de extração e fornecimento irregular de saibro no período indicado na petição inicial. Após tentativa frustrada de conciliação na CEJUSC Ambiental, o processo retornou ao juízo da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro para apreciação das medidas cabíveis.

Questão jurídica

O juízo enfrentou a questão da legitimidade passiva do consórcio — entidade desprovida de personalidade jurídica — para figurar no polo passivo de ação civil pública ambiental, bem como a necessidade de inclusão das empresas consorciadas individualmente em razão da solidariedade legal entre poluidores. Discutiu-se também a aplicação da responsabilidade civil pelo risco integral em matéria ambiental e a viabilidade de determinações probatórias e coercitivas contra as partes e contra o Município do Rio de Janeiro.

Resultado

A 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro reconheceu a legitimidade passiva do consórcio com base na personalidade judiciária reconhecida pelo STJ e determinou a citação de todas as empresas componentes do consórcio para apresentação de defesa e documentos de compliance ambiental. O juízo também impôs obrigações documentais à ré mineradora — incluindo a apresentação do TAC e do PRAD em cumprimento — e ao Município do Rio de Janeiro, sob pena de multa diária de R$ 5.000,00, além de possível responsabilização penal, civil e por improbidade administrativa.

Contexto do julgamento

A Ação Civil Pública nº 0178402-41.2017.4.02.5101 foi ajuizada em 12 de setembro de 2017 perante a Justiça Federal do Rio de Janeiro, tendo como pano de fundo os danos ambientais alegadamente causados durante as obras de infraestrutura vinculadas aos Jogos Olímpicos de 2016. O polo passivo é composto por um conjunto heterogêneo de réus: uma construtora e mineradora, outra construtora (em recuperação judicial), pessoas físicas — incluindo espólio e inventariante —, e o consórcio construtor responsável pelas obras. A petição inicial apontava irregularidades na extração e comercialização de saibro, material amplamente utilizado em obras de grande porte, e requeria expressamente a inclusão das empresas componentes do consórcio no polo passivo da demanda.

Após quase cinco anos tramitando na 1ª Vara Federal, o feito foi redistribuído à 17ª Vara Federal em abril de 2022. Em julho do mesmo ano, o juízo encaminhou o processo à CEJUSC Ambiental com o objetivo de viabilizar uma solução negociada entre as partes. A tentativa, contudo, mostrou-se infrutífera: em dezembro de 2024 a comissão devolveu os autos informando a impossibilidade de composição. O retorno ao juízo singular abriu caminho para que questões processuais e de mérito, que haviam permanecido em suspenso, fossem finalmente enfrentadas — entre elas, a definição do alcance subjetivo da lide e a adoção de medidas coercitivas para a instrução do feito.

O caso guarda particular relevância porque envolve obras públicas de grande visibilidade, realizadas sob regime de consórcio empresarial, modalidade contratual amplamente utilizada no setor da construção civil pesada. A apuração de responsabilidades em cenários como esse exige do Poder Judiciário uma leitura funcional e protetiva do direito ambiental, especialmente diante da multiplicidade de agentes envolvidos e da tendência de diluição das responsabilidades individuais sob o manto da estrutura consorcial.

Fundamentos da decisão

O ponto central da decisão reside no reconhecimento da legitimidade passiva do consórcio. O juízo fundamentou-se no entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça de que, embora o consórcio não possua personalidade jurídica — sendo tecnicamente um contrato entre empresas, nos termos do art. 278, §1º da Lei das Sociedades Anônimas (Lei nº 6.404/1976) —, ele ostenta personalidade judiciária, ou seja, capacidade de ser parte em relações processuais. O precedente citado foi o AREsp 2883382, relatado pelo Ministro Moura Ribeiro na 3ª Turma do STJ, julgado em junho de 2025, que reafirma essa distinção técnica entre personalidade jurídica e personalidade judiciária no contexto dos consórcios empresariais.

A decisão avançou além da questão da personalidade judiciária para determinar a citação individual de todas as empresas componentes do consórcio. Esse passo foi fundamentado em dois pilares do direito ambiental: a solidariedade legal entre os poluidores, que impede que qualquer deles se exima da responsabilidade integral pelo dano causado; e a teoria do risco integral, adotada pela jurisprudência do STJ para a responsabilidade civil ambiental. Segundo essa teoria, aplicada nos precedentes REsp 1374284 (rel. Min. Luis Felipe Salomão) e AgInt no AREsp 2823544 (rel. Min. Noronha), as excludentes de responsabilidade — como caso fortuito, força maior e fato de terceiro — têm aplicabilidade mínima em matéria ambiental, dado o caráter difuso e indisponível do bem jurídico tutelado. Esse entendimento dialoga diretamente com as hipóteses de embargo ambiental, instrumento que também pressupõe a responsabilização objetiva e integral do agente causador do dano, independentemente de culpa.

No campo probatório e coercitivo, o juízo adotou postura ativa na instrução do feito. Foram impostas obrigações documentais ao consórcio — comprovação da compra e entrega de saibro no período indicado na inicial, mediante notas fiscais e comprovantes de depósito —, à ré mineradora — apresentação do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e do Projeto de Recuperação de Área Degradada (PRAD) já em vias de cumprimento, conforme determinado pela Justiça Estadual, além do contrato social atualizado — e ao Município do Rio de Janeiro, instado a apresentar o contrato de obra firmado com o consórcio. Para a mineradora e para o Município, o prazo é de 30 dias, sob pena de multa de R$ 5.000,00 por dia, sem prejuízo de responsabilização penal, civil e por improbidade administrativa, o que demonstra a preocupação do juízo em garantir efetividade à tutela ambiental coletiva.

Alcance da decisão

A decisão consolida, no âmbito da 17ª Vara Federal do Rio de Janeiro, a aplicação da distinção entre personalidade jurídica e personalidade judiciária aos consórcios empresariais em ações de natureza ambiental, alinhando-se à jurisprudência recente do STJ. Fica assentado que a ausência de personalidade jurídica do consórcio não é obstáculo à sua inclusão no polo passivo de ação civil pública, e que tal inclusão não exclui — antes exige — a citação individual das consorciadas, em razão da solidariedade legal que vincula todos os poluidores e da jurisprudência do STJ sobre responsabilidade pelo risco integral.

A decisão registra também que o pedido expresso da petição inicial de inclusão das consorciadas, que o juízo de origem não havia enfrentado, devia ser apreciado agora, ainda em tempo. No plano probatório, a decisão reforça o papel ativo do juiz na instrução de demandas ambientais coletivas, admitindo a imposição de obrigações documentais a terceiros — como o Município do Rio de Janeiro — e a cominação de multas diárias para assegurar o cumprimento das determinações judiciais.

Perguntas Frequentes

Consórcio empresarial pode ser réu em ação civil pública ambiental?
Sim, o consórcio empresarial possui personalidade judiciária para figurar no polo passivo de ação civil pública ambiental, mesmo não tendo personalidade jurídica. O STJ consolidou esse entendimento, permitindo que consórcios sejam demandados judicialmente por danos ambientais, além da citação individual de todas as empresas consorciadas.
Como funciona a responsabilidade solidária em danos ambientais de consórcios?
A responsabilidade ambiental de consórcios é solidária entre todas as empresas participantes, baseada na teoria do risco integral. Isso significa que qualquer empresa do consórcio pode ser responsabilizada integralmente pelo dano ambiental, independentemente de sua participação específica na atividade danosa, conforme jurisprudência do STJ.
Qual a diferença entre personalidade jurídica e judiciária em consórcios?
Personalidade jurídica é a capacidade de ser sujeito de direitos e obrigações, que os consórcios não possuem por serem contratos entre empresas. Personalidade judiciária é a capacidade de ser parte em processos judiciais, que os consórcios possuem conforme entendimento do STJ, permitindo sua inclusão em ações judiciais.
Obras públicas podem gerar responsabilidade ambiental para empresas?
Sim, empresas executoras de obras públicas respondem solidariamente por danos ambientais causados durante a execução, aplicando-se a teoria do risco integral. A natureza pública da obra não exonera as empresas de responsabilidade ambiental, que é objetiva e independe de culpa conforme a Lei 6.938/1981.
Como o juiz pode determinar produção de provas em ações ambientais?
O juiz pode adotar postura ativa na instrução de ações ambientais, determinando apresentação de documentos por réus e terceiros, incluindo contratos, licenças e projetos de recuperação. O descumprimento pode gerar multa diária e responsabilização por improbidade administrativa, garantindo efetividade à tutela ambiental coletiva.
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