Monitor do STJ DECISÃO DE MÉRITO

Conversão de multa ambiental em serviços é discricionária do Ibama, diz STJ

19/06/2026 STJ RECURSO ESPECIAL Processo: 0011240-71.2017.4.01.3800

2ª Turma do STJ, Rel. Min. Afrânio Vilela

Fato

Uma pessoa física foi autuada pelo IBAMA por criar pássaros silvestres sem autorização do órgão ambiental competente, sendo-lhe imposta multa administrativa. A sentença converteu a multa em prestação de serviços de preservação ambiental, e o TRF da 6ª Região confirmou a legalidade da multa, mas manteve a conversão, entendendo que o art. 72, § 4º, da Lei n. 9.605/1998 não impede o Judiciário de autorizá-la.

Questão jurídica

A controvérsia central consiste em saber se o Poder Judiciário pode determinar, de ofício ou a requerimento, a conversão da multa ambiental em prestação de serviços de preservação do meio ambiente prevista no art. 72, § 4º, da Lei n. 9.605/1998, ou se tal conversão é ato discricionário privativo da Administração Pública, sujeito aos requisitos do Decreto n. 6.514/2008, insuscetível de revisão judicial no mérito.

Resultado

O STJ, por decisão monocrática do Min. Afrânio Vilela (2ª Turma), deu provimento ao recurso especial do IBAMA, com fundamento no art. 255, § 4º, III, do RISTJ, reformando o acórdão do TRF da 6ª Região para manter a pena de multa originalmente aplicada. Prevaleceu a tese de que a substituição da multa por medidas alternativas é ato discricionário da Administração, sendo vedado ao Poder Judiciário, nos limites do controle de legalidade, imiscuir-se no mérito administrativo, especialmente quando não atendidos os pressupostos e requisitos legais para a conversão.

Contexto do julgamento

O processo n. 0011240-71.2017.4.01.3800, julgado pelo STJ sob o n. REsp 2251376/MG, tem origem em auto de infração lavrado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) contra uma pessoa física, representada pela Defensoria Pública da União, em razão da criação de pássaros silvestres sem a devida autorização do órgão ambiental competente. A autuação resultou na imposição de multa administrativa.

A sentença converteu a multa em prestação de serviços de preservação ambiental. O Tribunal Regional Federal da 6ª Região, em sede de apelação interposta pelo IBAMA e de recurso adesivo, negou provimento a ambos os recursos, confirmando a legalidade da multa, mas mantendo a conversão judicial determinada na sentença, com amparo no art. 72, § 4º, da Lei n. 9.605/1998, por entender que nada impede o Poder Judiciário de autorizar a conversão. Inconformado, o IBAMA interpôs recurso especial ao STJ.

A questão jurídica

A controvérsia jurídica central diz respeito à possibilidade de o Poder Judiciário determinar a conversão da multa ambiental simples em prestação de serviços de preservação, melhoria e recuperação da qualidade do meio ambiente, prevista no art. 72, § 4º, da Lei n. 9.605/1998, em substituição à discricionariedade administrativa conferida ao IBAMA pelos arts. 139 a 148 do Decreto n. 6.514/2008.

O IBAMA sustentou, em suas razões recursais, que a conversão da multa em serviços ambientais é medida de natureza discricionária da Administração Pública, sujeita ao preenchimento de requisitos e ao procedimento previstos no Decreto n. 6.514/2008, não sendo passível de substituição ou imposição pelo Poder Judiciário, sob pena de violação ao princípio da separação dos poderes e usurpação do mérito administrativo. O TRF da 6ª Região, por sua vez, entendeu que, independentemente dos parâmetros dos arts. 141 a 148 do Decreto n. 6.514/2008, o art. 72, § 4º, da Lei n. 9.605/1998 não impede o Poder Judiciário de autorizar a conversão.

O que decidiu o STJ

O Ministro Afrânio Vilela, relator do feito na 2ª Turma do STJ, deu provimento ao recurso especial do IBAMA por decisão monocrática fundamentada no art. 255, § 4º, III, do RISTJ, reformando integralmente o acórdão do TRF da 6ª Região para manter a pena de multa administrativa originalmente aplicada, afastando a conversão judicialmente determinada.

O relator reafirmou a jurisprudência consolidada do STJ no sentido de que a substituição da pena de multa ambiental por medidas alternativas — como a prestação de serviços de conservação — situa-se no âmbito da discricionariedade da Administração Pública, sendo vedado ao Poder Judiciário, nos limites do controle de legalidade, imiscuir-se no mérito administrativo. Destacou, ainda, que a conversão pressupõe o atendimento de requisitos e pressupostos legais específicos, cuja avaliação compete exclusivamente ao órgão ambiental. Foram citados como precedentes: AgInt no AREsp n. 2.146.416/RR (Min. Francisco Falcão, 2ª Turma, 13/3/2023); AgInt no REsp n. 2.234.687/MG (Min. Francisco Falcão, 2ª Turma, 17/12/2025); e AgInt no REsp n. 1.995.800/PE (Min. Paulo Sérgio Domingues, 1ª Turma, 14/10/2024), entre outros.

Repercussão para o Direito Ambiental

A decisão reafirma um posicionamento relevante para a prática do Direito Ambiental e da advocacia que atua perante o IBAMA: a conversão da multa ambiental em prestação de serviços, embora prevista no art. 72, § 4º, da Lei n. 9.605/1998, não pode ser imposta pelo Poder Judiciário como substituto da atuação administrativa. Trata-se de ato discricionário do órgão ambiental, que deve avaliar, segundo critérios próprios e os parâmetros do Decreto n. 6.514/2008, a conveniência e a oportunidade da conversão, bem como o preenchimento dos requisitos legais.

Do ponto de vista prático, a decisão sinaliza que estratégias defensivas que busquem judicialmente a conversão da multa ambiental em serviços, sem prévio requerimento e análise administrativa, tendem a ser rechaçadas pelo STJ. O caminho adequado para o administrado é requerer administrativamente a conversão ao IBAMA, preenchendo os requisitos regulamentares, e somente após eventual negativa injustificada ou ilegal buscar o controle judicial da legalidade do ato — e não a substituição do juízo de conveniência e oportunidade da Administração. Um dos precedentes transcritos na decisão (AgInt no REsp n. 2.234.687/MG) mostra, ainda, que a hipossuficiência econômica do infrator e o caráter pedagógico da medida alternativa, invocados pelo tribunal de origem naquele caso, não bastaram para que o Judiciário avocasse a competência discricionária do IBAMA em matéria de sanções ambientais administrativas.

Ler a íntegra oficial no STJ →

Documento oficial com assinatura eletrônica disponível no portal do STJ.

Fale conosco