Justiça Federal anula recusa do IBAMA em analisar pedido de desembargo
Um produtor rural obteve licença ambiental corretiva, outorga hídrica e quitou integralmente a multa administrativa decorrente de embargo lavrado em 2008 por reforma de barragem sem licença. Mesmo assim, ao protocolar pedido de cessação do embargo, o IBAMA sequer analisou o mérito do requerimento: limitou-se a não conhecer do pleito, exigindo a apresentação de CAR aprovado nos termos da IN IBAMA nº 08/2024. Em sentença publicada no dia 04 de agosto de 2026, no processo 1054605-10.2025.4.01.3500, a 9ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária de Goiás concedeu parcialmente a segurança, anulou o ato administrativo e determinou que o IBAMA proceda à análise fundamentada do pedido de desembargo em 15 dias.
O caso expõe, com nitidez quase didática, um problema que temos enfrentado diariamente na defesa de produtores rurais: a Administração transforma requisitos burocráticos em muralhas intransponíveis, impedindo o exercício de direitos que o próprio ordenamento jurídico reconhece.
A recusa que não analisa e a exigência que a lei não faz
O ponto nevrálgico da decisão reside na conduta do IBAMA ao responder o pedido de levantamento do embargo. A autarquia não negou o mérito — não disse que a área permanecia degradada ou que as condições ambientais eram insatisfatórias. O que fez foi pior: recusou-se a conhecer do pedido, condicionando qualquer análise à apresentação de CAR aprovado segundo as exigências da IN IBAMA nº 08/2024.
Convém perguntar: desde quando uma instrução normativa pode criar condição de procedibilidade que a lei não prevê? O art. 15-B do Decreto 6.514/2008 dispõe que a cessação do embargo depende de decisão da autoridade ambiental após a apresentação de documentação que regularize a obra ou atividade. O produtor apresentou licença ambiental corretiva e outorga — documentos que, nos termos do próprio decreto, são hábeis a demonstrar a regularização.
A nosso ver, o que o IBAMA fez foi substituir o exame de mérito por um filtro formal, criando por via administrativa um requisito inexistente na norma primária. A IN 08/2024, como já tivemos a oportunidade de tratar na obra Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025), inverte a lógica do CAR: de instrumento de incentivo à regularização ambiental, transmuta-se em ferramenta de fiscalização e bloqueio, punindo o produtor pela inércia do próprio Estado em validar o cadastro.
O embargo de 17 anos e a função cautelar esvaziada
O Termo de Embargo nº 491894 foi lavrado em outubro de 2008. Estamos em agosto de 2026 — quase 18 anos de restrição sobre a área. A multa foi quitada. A licença corretiva foi obtida em 2018 pelo órgão municipal competente. A outorga hídrica foi concedida em 2011.
Ora, o embargo ambiental possui uma função cautelar-reparatória claramente definida pelo art. 108 do Decreto 6.514/2008: impedir a continuidade do dano, propiciar a regeneração do meio ambiente e dar viabilidade à recuperação da área degradada. Quando o produtor obtém o licenciamento corretivo da atividade (reconhecendo-se, portanto, que a obra pode funcionar dentro de parâmetros ambientais adequados), a razão de ser do embargo se esvazia. Mantê-lo indefinidamente configura, a toda evidência, verdadeira pena perpétua administrativa — algo que o ordenamento constitucional brasileiro repudia.
A sentença, aliás, invocou precedente do próprio TRF1 nesse sentido. A 12ª Turma, no julgamento da REO 1004935-32.2023.4.01.3901, já havia consignado que a manutenção de embargo por prazo indeterminado, atrelada a exigências burocráticas alheias à vontade do administrado, revela-se desarrazoada e desproporcional quando demonstrado o cumprimento das obrigações de regularização.
A competência do órgão licenciador e o princípio do licenciador-fiscalizador primário
Um aspecto da decisão que merece atenção especial — e que raramente é enfrentado com a clareza necessária — diz respeito à competência para acompanhamento técnico da atividade. A sentença destacou que a atividade foi licenciada pelo órgão municipal competente, invocando o princípio do licenciador-fiscalizador primário, consagrado na Lei Complementar nº 140/2011 e na Orientação Jurídica Normativa nº 49/2013 do próprio IBAMA.
A lógica é simples: se o município licenciou a atividade (emitindo a Licença Ambiental Simplificada Corretiva), é do município a primazia de acompanhamento técnico. O IBAMA, nesse cenário, não pode ignorar o licenciamento municipal como se ele não existisse; tampouco pode condicionar o levantamento do embargo a requisitos que competem a outro ente federativo verificar. Basta observar que o art. 17, caput, da LC 140/2011 vincula a competência para lavrar auto de infração e instaurar o processo de apuração ao ente que detém a atribuição de licenciar.
Isso não significa que o IBAMA perca toda ingerência — a competência supletiva subsiste para hipóteses de omissão ou insuficiência do ente primário. O que não se admite é que a autarquia federal desconsidere a atuação do órgão competente e imponha unilateralmente exigências que extrapolam seu papel no arranjo federativo ambiental.
O que a sentença acertou e o que ficou em aberto
A sentença acertou ao anular o ato que se recusou a conhecer do pedido de desembargo; acertou ao fixar prazo de 15 dias para nova análise fundamentada; acertou ao determinar que o IBAMA considere a documentação de licenciamento e outorga já apresentada. É uma decisão tecnicamente sólida, que enfrenta o cerne do problema sem se perder em abstrações.
Ficou em aberto, porém, a questão de fundo: a sentença concedeu a segurança parcialmente, determinando nova análise — e não o levantamento direto do embargo. A razão é compreensível: os pareceres técnicos acostados ao processo administrativo (Parecer Técnico nº 103/2023 e Informação Técnica nº 292/2024) apontaram que a recomposição da faixa de APP afetada pelo barramento não estava integralmente concluída.
Na prática, o que se vê é um equilíbrio difícil: de um lado, o produtor cumpriu as exigências centrais (licença, outorga, multa quitada); de outro, há indicativos técnicos de que a recuperação ambiental não se completou. A concessão parcial é, nesse contexto, a solução processual correta — obriga o IBAMA a enfrentar o mérito, mas não o substitui na avaliação técnica da área. Como sustentamos em Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025), o controle judicial dos embargos não representa indevida interferência na discricionariedade administrativa, mas sim exercício regular da função jurisdicional constitucionalmente prevista — o que significa que o juiz pode e deve corrigir ilegalidades procedimentais, sem necessariamente assumir o papel de técnico ambiental.
O caminho que o produtor deve percorrer a partir de agora
Para produtores que enfrentam situação análoga — embargo antigo, multa quitada, licenciamento obtido e IBAMA recusando análise por exigências da IN 08/2024 — a decisão oferece um roteiro. O mandado de segurança é a via adequada quando a recusa administrativa se funda em exigência ilegal ou desproporcional, especialmente porque a prova é pré-constituída (documentos de licenciamento e outorga já existem).
Três providências são urgentes nesse cenário: primeiro, documentar a recusa administrativa de forma inequívoca (ofício, e-mail com confirmação de leitura, protocolo no SEI); segundo, reunir toda a documentação de regularização ambiental emitida pelo órgão competente; terceiro, verificar se há pareceres técnicos no processo administrativo que indiquem pendências de recuperação ambiental — pois, se houver, o pedido judicial deve ser calibrado para exigir a análise de mérito pelo IBAMA (como fez o caso em comento), e não o levantamento automático do embargo.
Quem deixa o IBAMA confortável na inércia paga o preço em anos de restrição patrimonial e creditícia. O mínimo que se espera é que a autarquia cumpra seu dever de analisar — e fundamentar — seus atos. Quando não o faz, o Judiciário existe para impor o que a Constituição garante: nenhuma lesão ou ameaça a direito será excluída da apreciação judicial.
Leia também
Perguntas Frequentes
O IBAMA pode condicionar o levantamento de embargo à aprovação do CAR?
Qual o prazo máximo de um embargo ambiental do IBAMA?
Quitar a multa ambiental garante o levantamento automático do embargo?
Qual a via judicial adequada para contestar a recusa do IBAMA em levantar embargo?
A licença ambiental emitida pelo município é válida para pedir o levantamento de embargo do IBAMA?
Este comentário utiliza conceitos do livro Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025), de autoria de Diovane Franco. Saiba mais →
Advogado (OAB/MT 29.530). Especialista em Direito Administrativo. Mestrando em Ciência Jurídica pela UNIVALI. Autor de Embargos Ambientais em Áreas Rurais (Thomson Reuters, 2025) e coautor de Cadastro Ambiental Rural: direito, prática e tecnologia (Thomson Reuters, 2026). Sócio fundador do Diovane Franco Advogados. Atuou na defesa vencedora do IRDR 94 do TRF1.