Jurisprudência Ambiental

Citação por edital de réu incerto em ACP ambiental vai à Primeira Seção do STJ

12/06/2026 STJ Recurso Especial Processo: 1000731-73.2017.4.01.3603

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PRIVADO

Fato

O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública ambiental com base em imagens de satélite e laudos do Projeto Amazônia Protege, visando à reparação de desmatamento ilegal em área delimitada na Amazônia. Diante da impossibilidade de identificar os responsáveis pelos danos mesmo após consulta a cadastros públicos fundiários e ambientais, o MPF requereu a citação por edital dos infratores. O juízo de primeira instância indeferiu a petição inicial e extinguiu o processo sem resolução de mérito, decisão confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Questão jurídica

A controvérsia central consiste em definir se é cabível, em ação civil pública ambiental, a citação por edital com fundamento no art. 256, I e § 3º, do CPC, quando o responsável pelo dano ambiental é incerto e não localizado. Discute-se, ainda, se o exaurimento de todas as tentativas de identificação do réu constitui requisito indispensável para o chamamento editalício, e se a extinção do processo sem mérito compromete a efetividade da responsabilidade civil ambiental prevista na Lei nº 6.938/1981 e na Lei nº 7.347/1985.

Resultado

O Ministro Moura Ribeiro, relator, não julgou o mérito do recurso especial. Em decisão monocrática, reconheceu que a matéria é de direito público e determinou a redistribuição dos autos a um dos Ministros das Turmas da Primeira Seção. Na decisão, citou o AREsp 1.696.837/RO, em que a Primeira Turma admitiu a citação por edital de réus desconhecidos do Projeto Amazônia Protege sem exaurimento de diligências in loco. Até o julgamento, segue valendo a extinção mantida pelo TRF1.

Contexto do julgamento

O caso sub judice origina-se do Projeto Amazônia Protege, iniciativa conjunta do Ministério Público Federal, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), criada com o propósito de identificar e responsabilizar os agentes causadores de desmatamentos ilegais de grande extensão na Floresta Amazônica. Com base em imagens de satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e em laudos técnicos, o Ministério Público Federal ajuizou diversas ações civis públicas direcionadas a responsáveis por supressões de vegetação superiores a 60 hectares registradas entre os anos de 2015 e 2016. Para identificar os infratores, valeu-se de consultas ao Sistema de Gestão Fundiária (SIGEF), ao Sistema Nacional de Certificação de Imóveis (SNCI), ao Programa Terra Legal, todos do INCRA, e ao Cadastro Ambiental Rural (CAR). Em determinados casos, porém, a individualização dos responsáveis mostrou-se impossível por esses meios, o que levou ao pedido de citação por edital.

O juízo federal de primeira instância, ao deparar-se com a ausência de qualificação do polo passivo, indeferiu a petição inicial e extinguiu o processo sem resolução do mérito, com fundamento no art. 319, II, e no art. 321, parágrafo único, do Código de Processo Civil. A decisão foi mantida pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, que destacou o caráter excepcional da citação por edital, condicionando sua admissão ao exaurimento de todas as tentativas de localização e identificação dos réus, incluindo diligências de fiscalização in loco, reputando insuficientes as buscas realizadas em cadastros públicos. O MPF, irresignado, interpôs recurso especial ao Superior Tribunal de Justiça, sustentando que a interpretação adotada pelas instâncias ordinárias esvazia a proteção jurídica ao meio ambiente e torna ineficaz o sistema de responsabilização civil ambiental.

O relator, Ministro Moura Ribeiro, não julgou o mérito. Em decisão monocrática, reconheceu que a matéria é de direito público e determinou a redistribuição dos autos a um dos Ministros das Turmas da Primeira Seção, nos termos do art. 9º, § 1º, XIV, do Regimento Interno do Tribunal. O recurso ainda aguarda julgamento. O caso apresenta relevância sistêmica significativa, pois envolve a compatibilização das regras processuais civis com as especificidades da tutela coletiva ambiental, especialmente no contexto do combate ao desmatamento na Amazônia Legal, bioma que concentra a maior diversidade biológica do planeta e que tem sido alvo de degradação crescente ao longo das últimas décadas.

O que o STJ já decidiu e o que o recurso discute

O ponto central da controvérsia reside na interpretação do art. 256, I e § 3º, do Código de Processo Civil, que autoriza a citação por edital quando o citando for desconhecido ou incerto. As instâncias ordinárias adotaram postura restritiva, exigindo o exaurimento de tentativas extrajudiciais de identificação — inclusive com fiscalização presencial nas áreas desmatadas — antes de se cogitar do chamamento editalício. A Primeira Turma do STJ, no AREsp n. 1.696.837/RO (relator Ministro Gurgel de Faria, julgado em 22/6/2021), em caso também oriundo do Projeto Amazônia Protege, entendeu que é possível a citação por edital do réu desconhecido ou incerto pelo art. 256, I, do CPC, sem a necessidade de exaurimento de diligências in loco, bastando as medidas de identificação já tomadas pelos autores. Segundo esse precedente, na citação do réu desconhecido ou incerto (inciso I do art. 256), o CPC não exige as formalidades adicionais do inciso II, como a divulgação pelo rádio e a requisição de endereço em cadastros de órgãos públicos, pois ali a identidade do citando é que é desconhecida, e não apenas o seu paradeiro.

Sob a perspectiva do direito material, o recurso do MPF sustenta que a extinção compromete a efetividade da responsabilidade civil ambiental prevista na Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente), que a torna objetiva no art. 14, § 1º, e na Lei nº 7.347/1985 (Lei da Ação Civil Pública), questão que ainda aguarda julgamento na Primeira Seção. Esses diplomas normativos consagram o princípio da reparação integral do dano ambiental, que restaria esvaziado caso a impossibilidade de individualização imediata do infrator conduzisse, invariavelmente, à extinção da demanda sem apreciação do mérito. O MPF pede ainda a aplicação analógica do art. 554, § 1º, do CPC, que disciplina a citação por edital nas ações possessórias coletivas, da Lei nº 6.383/1976 e do art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), que autoriza o uso da analogia diante de lacunas normativas. Tais ferramentas hermenêuticas permitiriam compatibilizar o formalismo processual com as exigências da tutela coletiva, especialmente em situações nas quais a rigidez das regras ordinárias pode frustrar a proteção de bens jurídicos de natureza difusa e indisponível, como o meio ambiente ecologicamente equilibrado. Vale destacar que o entendimento já adotado pela Primeira Turma dialoga diretamente com a prática do embargo ambiental, instrumento administrativo de cessação imediata de danos que frequentemente antecede as demandas de reparação na esfera judicial.

O recurso também discute a questão procedimental relativa ao art. 321, parágrafo único, do CPC, que disciplina o indeferimento da petição inicial após frustrada a emenda. Para o MPF, quando o próprio autor comunica previamente ao juízo a inviabilidade de qualificação do réu em razão das peculiaridades do caso concreto — e não por desídia processual —, a extinção do processo configura rigorismo incompatível com o caráter instrumental do processo e com a finalidade precípua da ação civil pública. O ponto ainda aguarda julgamento na Primeira Seção. A exigência de individualização absoluta do polo passivo como condição sine qua non de admissibilidade da demanda coletiva ambiental contraria a lógica da tutela de direitos difusos, na qual, por definição, os titulares do dever de reparação podem ser indeterminados ou de difícil determinação no momento da propositura da ação.

O que esperar do julgamento

O REsp 1998619/MT ainda não tem julgamento de mérito: aguarda redistribuição a um dos Ministros das Turmas da Primeira Seção. A Primeira Turma, no AREsp n. 1.696.837/RO, já decidiu, em caso do mesmo Projeto Amazônia Protege, que é cabível a citação por edital em ação civil pública ambiental, com fundamento no art. 256, I, do CPC, quando o responsável pelo dano é desconhecido ou incerto, sendo prescindível o exaurimento de diligências in loco. Caberá ao julgamento na Primeira Seção dizer, ainda, se a aplicação analógica do art. 554, § 1º, do CPC, da Lei nº 6.383/1976 e do art. 4º da LINDB é admissível para viabilizar a tutela coletiva ambiental, como pede o MPF, e se a extinção do processo compromete a efetividade da responsabilidade civil ambiental prevista na Lei nº 6.938/1981 e na Lei nº 7.347/1985. O precedente dialoga com a orientação firmada no AgInt no AREsp n. 2.240.234/RO, julgado pela Segunda Turma em 12 de junho de 2023, segundo o qual laudos e autos de infração ambiental elaborados por órgãos competentes, incluindo imagens de satélite, gozam de presunção relativa de veracidade e operam a inversão do ônus da prova em desfavor do réu. Assim, o precedente da Primeira Turma aponta que o processo civil deve ser interpretado de modo a potencializar, e não a obstruir, a proteção jurisdicional ao meio ambiente, bem jurídico de titularidade difusa constitucionalmente assegurado pelo art. 225 da Constituição Federal a todos os brasileiros e às futuras gerações.

Perguntas Frequentes

Quando é possível a citação por edital em ação civil pública ambiental?
A citação por edital é cabível quando o responsável pelo dano ambiental é desconhecido ou incerto, conforme art. 256, I e § 3º do CPC. A Primeira Turma do STJ, no AREsp 1.696.837/RO, entendeu que não é necessário exaurir diligências in loco, bastando as medidas de identificação já tomadas pelos autores.
É obrigatória a fiscalização presencial antes da citação por edital ambiental?
Não, segundo a Primeira Turma do STJ no AREsp 1.696.837/RO: na citação do réu desconhecido ou incerto, não é preciso exaurir diligências in loco, bastando as medidas de identificação já tomadas, como imagens do INPE e consultas ao SIGEF, ao SNCI, ao Programa Terra Legal e ao CAR. O REsp 1998619/MT, sobre a mesma questão, foi remetido à Primeira Seção e ainda não foi julgado.
Qual fundamento legal permite a citação por edital em ACP ambiental?
A Primeira Turma do STJ, no AREsp 1.696.837/RO, utilizou o art. 256, I, do CPC, que autoriza citação editalícia quando o citando for desconhecido ou incerto. A aplicação analógica do art. 554, § 1º, do CPC (ações possessórias coletivas) e do art. 4º da LINDB é pedida pelo MPF no REsp 1998619/MT, que ainda aguarda julgamento na Primeira Seção.
A impossibilidade de qualificar o réu pode extinguir ACP ambiental?
Não necessariamente. O MPF sustenta, no REsp 1998619/MT, que a extinção é indevida quando o próprio autor comunica previamente ao juízo a inviabilidade de qualificar o réu. O recurso foi remetido à Primeira Seção e ainda não foi julgado, mas a Primeira Turma, no AREsp 1.696.837/RO, já afastou a extinção em caso do mesmo projeto. A proteção ao meio ambiente deve prevalecer sobre formalismos processuais.
Como o Projeto Amazônia Protege identifica responsáveis por desmatamento?
O projeto usa imagens de satélite do INPE e laudos técnicos para identificar desmatamentos superiores a 60 hectares. Para localizar infratores, consulta o Sistema de Gestão Fundiária (SIGEF), Sistema Nacional de Certificação de Imóveis (SNCI), Programa Terra Legal do INCRA e Cadastro Ambiental Rural (CAR). Quando esses meios não permitem individualização, admite-se citação por edital.
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