Jurisprudência Ambiental

STJ: curso d’água canalizado em área urbana não afasta APP (REsp 2281385/SC)

10/09/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0900072-43.2019.8.24.0004

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

O Ministério Público do Estado de Santa Catarina ajuizou ação civil pública contra a construtora responsável pela obra, o Município de Araranguá e a Fundação Ambiental do Município de Araranguá (FAMA), sustentando que edifício residencial erguido entre 2011 e 2014 na região central da cidade teria sido construído em Área de Preservação Permanente, com omissão do poder de polícia e licenciamento irregular. A 1ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, por unanimidade, julgou os pedidos improcedentes, com base em prova pericial que apontou a inexistência de nascentes e cursos hídricos nas proximidades no momento da vistoria, atribuindo a degradação a processo lento e gradual de antropização urbana, e não à edificação.

Questão jurídica

Discute-se se a proteção do art. 4º, I, 'a', da Lei nº 12.651/2012 (Código Florestal) incide sobre faixa marginal de curso d'água que teria sido soterrado, aterrado, canalizado ou transposto para a drenagem pluvial urbana antes da edificação. Debate-se, ainda, a aplicabilidade do Tema Repetitivo n. 1.010/STJ à hipótese, uma vez que o Tribunal de origem emitiu juízo negativo de adequação com fundamento no art. 1.030, II, do CPC/2015, ao argumento de que a perícia não constatou elementos hídricos na área.

Resultado

O Recurso Especial do Ministério Público estadual, fundado no art. 105, III, 'a', da Constituição da República, foi admitido na origem e distribuído à Ministra Regina Helena Costa, que proferiu decisão monocrática em 10/09/2026 no REsp 2281385/SC. Na fundamentação, a Relatora invocou o art. 932, III e V, do CPC/2015, os arts. 34, XVIII, 'a' e 'c', e 255, I e III, do Regimento Interno do STJ e o Enunciado da Súmula n. 568/STJ, e reproduziu extensamente as premissas fáticas fixadas pelo acórdão catarinense quanto à descaracterização das nascentes e das drenagens fotointerpretadas. Ao final, a Relatora deu provimento ao recurso especial e determinou o retorno dos autos ao tribunal de origem, para que a controvérsia seja examinada com base no art. 4º da Lei nº 12.651/2012 e na tese do Tema n. 1.010/STJ, já que a jurisprudência do STJ reconhece persistir a APP mesmo quando o curso d'água é canalizado.

Contexto do julgamento

O caso analisado no REsp 2281385/SC (2026/0251747-3), relatado pela Ministra Regina Helena Costa no Superior Tribunal de Justiça, com decisão datada de 10/09/2026, tem origem em ação civil pública proposta pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina contra a construtora responsável pela obra, o Município de Araranguá e a Fundação Ambiental do Município de Araranguá (FAMA). A pretensão era de condenação solidária à reparação de dano ambiental e de dano moral coletivo em razão da construção de edifício residencial em suposta Área de Preservação Permanente, somada à alegada omissão no exercício do poder de polícia e à concessão irregular de licença urbanístico-ambiental.

A 1ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, por unanimidade, deu provimento ao recurso da construtora e negou provimento ao do Parquet, julgando improcedentes os pedidos. Segundo a ementa do acórdão, trata-se de edifício situado no centro da cidade, em área urbana consolidada, cuja degradação decorreu de antropização lenta e gradual, e não da edificação em si, tendo a perícia atestado a ausência de nascentes e cursos hídricos nas proximidades. A Corte estadual afastou, ainda, a determinação de implantação de sistema de coleta de efluentes, por considerá-la alheia à causa de pedir, registrando que a obra foi entregue dois anos antes da instalação da primeira estação de esgoto do local.

O laudo pericial reproduzido na decisão apoiou-se em fotointerpretação de imagens aéreas e de satélite dos anos de 1957, 1978, 2004, 2011 e 2024. A perita identificou, em 1957, drenagens naturais fotointerpretadas (DF1 a DF5) e feições geomorfológicas sugestivas de nascentes no entorno imediato, já então sob incipiente processo de antropização; em 1978, a expansão urbana teria mascarado quase completamente essas feições, sem identificação de feições erosivas côncavas típicas da exfiltração natural do lençol freático; e, em 2004, antes da edificação do empreendimento, as modificações antrópicas já haviam alterado significativamente a dinâmica hídrica original.

Fundamentos da decisão

O recurso especial foi interposto com amparo no art. 105, III, ‘a’, da Constituição da República, apontando ofensa ao art. 4º, I, ‘a’, da Lei nº 12.651/2012 (Código Florestal), que fixa a largura mínima da faixa marginal de proteção dos cursos d’água naturais perenes e intermitentes. O Ministério Público sustentou que a Corte local reconheceu a existência pretérita de curso hídrico e de nascentes nas proximidades da construção, mas deixou de aplicar os limites do Código Florestal por entender que tais elementos foram soterrados, aterrados, transpostos para a drenagem pluvial urbana ou canalizados em razão da antropização, defendendo que não há diferenciação de tutela entre cursos d’água canalizados e não canalizados.

O ponto processual sensível está no juízo negativo de adequação proferido pelo Tribunal de origem com base no art. 1.030, II, do CPC/2015, que afastou a incidência do Tema Repetitivo n. 1.010/STJ sobre faixa não edificável às margens de curso d’água natural, ao fundamento de que a perícia atestou a ausência de nascentes e cursos hídricos no local. Na decisão monocrática, a Ministra Regina Helena Costa registrou o quadro normativo do art. 932, III e V, do CPC/2015, combinado com os arts. 34, XVIII, ‘a’ e ‘c’, e 255, I e III, do Regimento Interno do STJ, que autorizam o Relator a não conhecer de recurso inadmissível ou a dar provimento quando o acórdão recorrido contrariar tese fixada em recurso repetitivo (arts. 1.036 a 1.041 do CPC/2015), incidente de assunção de competência (art. 947 do CPC/2015), súmula do Supremo Tribunal Federal ou do STJ, ou jurisprudência dominante, nos termos do Enunciado da Súmula n. 568/STJ.

A controvérsia é relevante porque, em áreas urbanas consolidadas, a supressão física do corpo hídrico costuma ser invocada como fato impeditivo do regime de proteção da APP, com reflexos diretos sobre licenciamento, autuações e medidas de contenção como o embargo ambiental. A definição sobre a persistência da faixa protetiva em cursos canalizados ou aterrados condiciona tanto o dever de reparação integral quanto a validade das licenças expedidas pelo ente municipal e por sua fundação ambiental. Nos embargos de declaração, o Tribunal catarinense ainda aplicou o § 2º do art. 82 do CPC/2015 quanto ao ressarcimento dos honorários periciais adiantados, com observância do Tema n. 510/STJ, rejeitando os aclaratórios do autor por ausência dos vícios do art. 1.022 do CPC/2015.

Alcance da decisão

A decisão se apoia no Tema Repetitivo n. 1.010/STJ, segundo o qual a faixa não edificável nas APPs de qualquer curso d’água, perene ou intermitente, em área urbana consolidada deve respeitar o art. 4º, I, do Código Florestal, e cuja aplicação fora negada pela 1ª Câmara de Direito Público do TJSC em juízo de adequação fundado no art. 1.030, II, do CPC/2015. A Relatora invocou ainda a Súmula n. 613/STJ, que não admite a teoria do fato consumado em matéria ambiental, e julgados do STJ que reconhecem persistir a APP mesmo quando o curso d’água é canalizado, como o REsp 2.126.983/SC e o REsp 2.213.366/SC. O Tema n. 510/STJ aparece apenas no relato do acórdão de origem, aplicado pela Corte estadual ao ressarcimento de honorários periciais adiantados (art. 82, § 2º, do CPC/2015), e o Enunciado da Súmula n. 568/STJ fundamenta a possibilidade de julgamento monocrático pelo Relator.

No dispositivo, a Ministra Regina Helena Costa, com fundamento nos arts. 932, V, do CPC/2015 e 34, XVIII, ‘c’, e 255, III, do RISTJ, deu provimento ao recurso especial do Ministério Público estadual no REsp 2281385/SC e determinou o retorno dos autos ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina, para que a controvérsia seja examinada com base no art. 4º da Lei nº 12.651/2012 e na tese firmada no Tema n. 1.010/STJ. Para a Relatora, ao afastar a APP porque o curso hídrico e as nascentes foram soterrados, aterrados, transpostos para a drenagem pluvial urbana ou canalizados, o acórdão estadual confrontou a orientação do STJ que rechaça a continuidade de situações ilícitas em APP, ainda que haja adensamento populacional e transformação antrópica da área. A decisão não declarou, ela própria, a existência de APP no local nem impôs condenação: o novo exame cabe à Corte estadual.

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