Jurisprudência Ambiental

STJ analisa ITR de 1998: averbação da reserva legal e ADA em debate

17/09/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0000006-08.2007.4.01.3812

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Uma empresa do setor florestal ajuizou ação anulatória contra auto de infração que glosou parte da área de reserva legal declarada para fins de Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) do exercício de 1998, sob o argumento de ausência de averbação da reserva no registro de imóveis e de não apresentação do Ato Declaratório Ambiental (ADA). A sentença julgou parcialmente procedente o pedido, excluindo a glosa de 858,01 hectares comprovados e mantendo a glosa de 469,93 hectares não demonstrados. O Tribunal Regional Federal da 6ª Região negou provimento às apelações de ambas as partes, o que levou a Fazenda Nacional a interpor recurso especial, distribuído no STJ como REsp 2289627/MG (2026/0342381-0), sob relatoria do Ministro Marco Aurélio Bellizze.

Questão jurídica

Discute-se se a legislação vigente em 1998 condicionava a exclusão da área de reserva legal da base de cálculo do ITR à averbação da reserva na matrícula do imóvel, nos termos do art. 16, § 2º, da Lei nº 4.771/1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803/1989. Debate-se, ainda, se a ausência do Ato Declaratório Ambiental (ADA) impede o reconhecimento do benefício previsto no art. 10 da Lei nº 9.393/1996 e a quem incumbe a prova da área efetivamente preservada.

Resultado

No REsp 2289627/MG, o Ministro Marco Aurélio Bellizze (STJ, decisão publicada em 17/09/2026) deu parcial provimento ao recurso especial da Fazenda Nacional. Afastou o entendimento do TRF da 6ª Região de que a averbação da reserva legal era inexigível em 1998 e, com base na jurisprudência do STJ (EREsp 1.027.051/SC), reconheceu que a empresa recorrida precisa apresentar a averbação na matrícula do imóvel para ter a isenção do ITR relativa à reserva legal. A decisão não alterou o que o acórdão regional decidira sobre a glosa de 469,93 hectares não comprovados, a taxa SELIC e a multa de ofício de 75%.

Contexto do julgamento

O caso analisado no REsp 2289627/MG (2026/0342381-0), Relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Superior Tribunal de Justiça, decisão de 17/09/2026, tem origem em ação anulatória ajuizada por empresa do setor florestal contra auto de infração lavrado pela Receita Federal. A autuação glosou parte da área de reserva legal declarada na apuração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) referente ao exercício de 1998, ao fundamento de que a reserva não estaria averbada na matrícula do imóvel e de que não houve apresentação do Ato Declaratório Ambiental (ADA).

Em primeiro grau, o pedido foi julgado parcialmente procedente: anulou-se parcialmente o lançamento suplementar para excluir a glosa de 858,01 hectares efetivamente comprovados, mantendo-se a glosa de 469,93 hectares, já que a autora declarara 1.425,60 hectares de reserva legal. Ambas as partes apelaram — a contribuinte buscando a anulação integral do lançamento e a União pretendendo o restabelecimento da glosa total —, e o Tribunal Regional Federal da 6ª Região negou provimento aos dois recursos, mantendo integralmente a sentença.

No recurso especial, interposto com fundamento no art. 105, III, ‘a’, da Constituição Federal, a Fazenda Nacional apontou violação ao art. 16, § 2º, da Lei nº 4.771/1965, com a redação dada pela Lei nº 7.803/1989, sustentando que a averbação da reserva legal teria eficácia constitutiva e funcionaria como condicionante da isenção tributária, e defendendo ainda a essencialidade do ADA para evitar distorções entre a declaração do contribuinte e a realidade material do imóvel.

Fundamentos do acórdão regional

O acórdão do TRF da 6ª Região, transcrito na decisão do Ministro Marco Aurélio Bellizze, assentou que o art. 11 da Lei nº 8.847/1994 e a redação original do art. 10 da Lei nº 9.393/1996 determinavam a exclusão das áreas de preservação permanente e de reserva legal da base de cálculo do ITR sem condicionar o benefício à averbação registral. A exigência de averbação introduzida pela Lei nº 7.803/1989 no art. 16 do então Código Florestal (Lei nº 4.771/1965) teria natureza de instrumento de tutela ambiental, sem reflexos diretos na disciplina tributária — raciocínio que também orienta a análise de outras medidas administrativas de proteção, como o embargo ambiental, cuja função é protetiva e não arrecadatória.

Segundo o acórdão regional, somente com o Decreto nº 4.382/2002 — posterior ao fato gerador de 1998 — a averbação passou a ser positivada de forma inequívoca como requisito para o gozo do benefício fiscal, de modo que sua aplicação a exercício pretérito violaria o princípio da irretroatividade tributária, previsto no art. 150, III, ‘a’, da Constituição Federal. Quanto ao ADA, o Tribunal de origem invocou o art. 10, § 7º, da Lei nº 9.393/1996, que atribui ao contribuinte a responsabilidade pelas informações prestadas na declaração, dispensando documento prévio como condição do reconhecimento do benefício.

O acórdão recorrido preservou, contudo, a distribuição do ônus probatório: cabe ao contribuinte demonstrar a área efetivamente preservada, não havendo presunção de veracidade absoluta da declaração. Como os documentos dos autos comprovaram apenas 858,01 hectares, manteve-se a glosa de 469,93 hectares. Foram igualmente rejeitadas as insurgências sobre a taxa SELIC, considerada legítima com respaldo nas Leis nº 9.065/1995 e nº 9.250/1995, e sobre a multa de ofício de 75%, tida por não confiscatória à luz do Tema 863 da repercussão geral do Supremo Tribunal Federal, que reconhece caráter confiscatório apenas em multas superiores a 100%.

Alcance da decisão

As teses de julgamento fixadas pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região e reproduzidas na decisão do REsp 2289627/MG (Relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, STJ, 17/09/2026) são as seguintes: a legislação vigente em 1998 não exigia a averbação da reserva legal como condição para a exclusão da área da base de cálculo do ITR; a comprovação da área efetivamente preservada incumbe ao contribuinte, não se presumindo a veracidade da declaração; a ausência do Ato Declaratório Ambiental não impede o reconhecimento do benefício previsto no art. 10 da Lei nº 9.393/1996; a aplicação da taxa SELIC aos débitos tributários é constitucional e respaldada por lei ordinária; e a multa de ofício de 75% não configura confisco. A primeira dessas teses, porém, foi afastada pelo STJ, como se vê adiante.

Nas razões recursais, a Fazenda Nacional invocou o EREsp 1.027.051/SC, julgado pela Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça em 28/08/2013 (Relator Ministro Benedito Gonçalves), para sustentar que, em relação à reserva legal, a averbação teria eficácia constitutiva e funcionaria como condicionante do benefício, ainda que dispensada a prova de sua existência no momento da declaração tributária. A recorrente relacionou, no mesmo trecho, os precedentes AgRg no Ag 1360788/MG, REsp 1060886/PR, REsp 1125632/PR, REsp 969091/SC, REsp 665123/PR e AgRg no REsp 753469/SP, também mencionados sem identificação completa na peça recursal. O Ministro Marco Aurélio Bellizze acolheu esse ponto. Com apoio no EREsp 1.027.051/SC e em precedentes da Primeira e da Segunda Turma, como o AgInt nos EDcl no REsp 2.089.073/PE, afirmou ser indispensável a averbação da reserva legal na matrícula do imóvel para a isenção do ITR. Acrescentou que o art. 10, § 7º, da Lei nº 9.393/1996 apenas dispensa a prova no momento da declaração, e não a averbação em si. Por isso, deu parcial provimento ao recurso especial para reconhecer que a empresa recorrida precisa apresentar a averbação no registro de imóveis para ter o benefício relativo à reserva legal.

Fale conosco