Jurisprudência Ambiental

STJ mantém condenação de concessionária por dano ambiental na Lagoa de Araruama

28/04/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 0000786-59.2009.8.19.0055

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PRIVADO

Fato

Pescadores artesanais ajuizaram ação indenizatória contra a concessionária de serviços públicos de água e esgoto da região, em razão de mortandade de peixes na Lagoa de Araruama causada pelo lançamento de esgoto in natura. O evento impediu o exercício da atividade pesqueira por aproximadamente dez meses, gerando danos materiais e morais significativos aos autores.

Questão jurídica

O TJRJ responsabilizou a concessionária de forma objetiva, com base na teoria do risco integral do art. 14, § 1º, da Lei 6.938/81, e reconheceu o nexo causal por laudo pericial emprestado. No STJ, a questão foi se havia omissão no acórdão estadual e se seria possível rever nexo, provas e valor da indenização sem esbarrar na Súmula 7.

Resultado

Em decisão monocrática, o STJ não conheceu do Agravo em Recurso Especial interposto pela concessionária, o que deixou de pé a condenação ao pagamento de lucros cessantes equivalentes a um salário mínimo mensal por dez meses e indenização por danos morais no valor de R$ 76.000,00 por autor. A Ministra Daniela Teixeira confirmou a inadmissão do recurso especial, reconhecendo a incidência da Súmula 7/STJ ante a necessidade de reexame de provas e a ausência de omissão no acórdão recorrido.

Contexto do julgamento

O caso teve origem em ação indenizatória movida por pescadores artesanais da Lagoa de Araruama, no Estado do Rio de Janeiro, contra a concessionária responsável pelos serviços públicos de água e esgoto na região. Os autores sustentaram que o lançamento de esgoto in natura pela empresa causou expressiva mortandade de peixes na lagoa, inviabilizando o exercício da pesca artesanal por um período de aproximadamente dez meses. A situação impôs severos prejuízos econômicos e extrapatrimoniais aos pescadores, que dependiam exclusivamente daquela atividade para seu sustento.

A Sexta Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve a sentença de procedência parcial, reconhecendo a responsabilidade objetiva da concessionária com fundamento na teoria do risco integral, prevista no art. 14, § 1º, da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81). O nexo de causalidade entre o lançamento de esgoto e os danos sofridos pelos pescadores foi atestado por laudo pericial emprestado, considerado suficiente pelo órgão julgador. A condenação abrangeu lucros cessantes de um salário mínimo mensal por dez meses e indenização por danos morais no montante de R$ 76.000,00 por autor.

Irresignada, a concessionária interpôs recurso especial alegando violação a diversas normas do Código de Processo Civil, do Código Civil e da própria Lei 6.938/81, além da Lei de Concessões (Lei 8.987/95). Após a inadmissão do recurso especial na origem, a empresa manejou Agravo em Recurso Especial perante o STJ, insistindo na tese de omissão jurisdicional e de que a matéria seria estritamente de direito, afastando o óbice da Súmula 7 desta Corte Superior.

Fundamentos da decisão

A Ministra Relatora Daniela Teixeira confirmou a inadmissão do recurso especial, reconhecendo que a decisão agravada analisou com clareza, coerência e fundamentação adequada todas as questões jurídicas suscitadas pela recorrente. O STJ reafirmou o entendimento de que não se pode confundir a ausência de aperfeiçoamento da prestação jurisdicional com o simples fato de a decisão ter sido desfavorável aos interesses da parte recorrente. O acórdão do tribunal estadual enfrentou expressamente as teses da ilegitimidade ativa, do nexo causal e do suposto julgamento ultra petita, de modo que a insurgência da empresa representava mero inconformismo com o resultado.

No tocante à responsabilidade civil ambiental, o STJ não chegou a examinar o tema; ficou mantido o acórdão do TJRJ, que aplicou a teoria do risco integral à atividade da concessionária. Essa doutrina, consagrada no art. 14, § 1º, da Lei 6.938/81 e amplamente adotada pelo STJ, impõe ao poluidor o dever de reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros independentemente de culpa, bastando a demonstração do nexo de causalidade entre a atividade e o dano. No contexto de atuação de concessionárias de saneamento, a conduta omissiva ou comissiva no tratamento de esgoto que resulte em degradação ambiental enquadra-se perfeitamente nesse regime de responsabilização. Vale destacar que a compreensão desse instituto é indispensável para profissionais que atuam na área, assim como o domínio de temas correlatos, como o embargo ambiental, ferramenta administrativa de contenção de danos ao meio ambiente.

Quanto ao óbice da Súmula 7/STJ, a Ministra ressaltou que as conclusões divergentes pretendidas pela recorrente não decorreriam de interpretação jurídica diversa, mas sim da necessidade de reapreciação dos fatos, das provas e das circunstâncias específicas do caso concreto — tarefa que extrapola os limites do recurso especial. A fixação do nexo causal com base no laudo pericial emprestado e a valoração das provas produzidas nos autos são matérias de competência exclusiva das instâncias ordinárias, não cabendo ao STJ rever tais conclusões sem que se caracterize contrariedade manifesta a dispositivo legal ou à jurisprudência desta Corte.

Alcance da decisão

A decisão monocrática não firmou tese sobre a responsabilidade da concessionária. Ao não conhecer do agravo, deixou de pé o acórdão do TJRJ que a reconheceu objetiva e fundada na teoria do risco integral, com base no art. 14, § 1º, da Lei 6.938/81. A demonstração do nexo de causalidade, quando suficientemente amparada em prova pericial e reconhecida pelas instâncias ordinárias, não pode ser revista em sede de recurso especial, ante o óbice da Súmula 7/STJ. Ademais, a alegação genérica de omissão jurisdicional, desacompanhada da efetiva demonstração de vício no acórdão, não autoriza o conhecimento do recurso especial com fundamento no art. 1.022 do CPC, sendo insuficiente para afastar a aplicação do referido enunciado sumular.

Ficou de pé também o ponto do acórdão do TJRJ sobre a legitimidade ativa de pescadores artesanais cujas carteiras de pesca estavam com validade expirada; para o tribunal estadual, a irregularidade é meramente administrativa e não extingue o registro geral de pesca nem retira dos profissionais a qualidade de lesados pelo dano ambiental. Essa orientação é relevante para a proteção das populações tradicionais que dependem dos recursos naturais para sua subsistência, garantindo-lhes o acesso à tutela jurisdicional em casos de degradação ambiental provocada por agentes econômicos.

Perguntas Frequentes

Qual é a responsabilidade das concessionárias de saneamento por danos ambientais?
As concessionárias de saneamento respondem objetivamente por danos ambientais com base na teoria do risco integral, prevista no art. 14, § 1º, da Lei 6.938/81. Não se admitem excludentes como caso fortuito, força maior ou fato de terceiro, bastando demonstrar o nexo causal entre a atividade e o dano causado ao meio ambiente.
Pescadores com carteira vencida podem pedir indenização por dano ambiental?
Sim, pescadores artesanais com carteira de pesca vencida mantêm legitimidade para pleitear indenização por dano ambiental. A irregularidade é meramente administrativa e não extingue o registro geral de pesca nem retira a qualidade de lesado pelo dano ambiental, conforme decidiu o TJRJ no caso da Lagoa de Araruama, mantido após o STJ não conhecer do agravo.
Como se prova o nexo causal em danos ambientais causados por lançamento de esgoto?
O nexo causal em danos ambientais por lançamento de esgoto é demonstrado através de laudo pericial que comprove a relação entre a atividade poluidora e os danos causados. No caso da Lagoa de Araruama, o TJRJ considerou suficiente o laudo pericial emprestado, e o STJ entendeu que rever essa valoração exigiria reexame de provas, vedado em recurso especial pela Súmula 7.
Qual o valor da indenização para pescadores prejudicados por poluição?
No caso da Lagoa de Araruama, o STJ manteve indenização de um salário mínimo mensal por dez meses a título de lucros cessantes, além de R$ 76.000,00 por danos morais para cada pescador. O valor varia conforme o período de impossibilidade da pesca e os prejuízos específicos comprovados nos autos.
A teoria do risco integral admite excludentes de responsabilidade ambiental?
Não, a teoria do risco integral aplicada à responsabilidade civil ambiental não admite qualquer excludente de responsabilidade. Diferentemente do risco criado, afasta completamente caso fortuito, força maior ou fato de terceiro, sendo suficiente demonstrar o nexo causal entre a atividade e o dano para configurar o dever de indenizar.
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