Jurisprudência Ambiental

TJMT: Satélite Prova Desmatamento, mas Embargo Poupa Agricultor Familiar

10/06/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 1000301-48.2022.8.11.0107

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Uma agricultora beneficiária de projeto de assentamento da reforma agrária em Mato Grosso foi autuada por desmatamento ilegal com base em imagens de satélite obtidas por sensoriamento remoto, sem que fosse realizada vistoria presencial no imóvel. Além da multa, o órgão ambiental estadual impôs embargo à área rural, utilizada para subsistência da família agricultora. A sentença de primeiro grau anulou tanto o auto de infração quanto o embargo, sob o entendimento de que imagens de satélite seriam insuficientes para comprovar a infração.

Questão jurídica

A primeira questão consiste em definir se imagens de satélite obtidas por sensoriamento remoto constituem prova válida e suficiente para fundamentar a lavratura de auto de infração por desmatamento ilegal, dispensando vistoria in loco. A segunda questão é saber se o embargo de imóvel rural pertencente a agricultor familiar beneficiário da reforma agrária, com área inferior a quatro módulos fiscais, é compatível com a legislação federal aplicável.

Resultado

O Tribunal de Justiça do Mato Grosso deu parcial provimento à apelação do Estado, reconhecendo a validade do auto de infração ambiental lastreado em imagens de satélite, mas afastando o embargo por expressa vedação legal prevista no art. 16 do Decreto nº 6.514/2008, que ressalva do embargo as atividades de subsistência, por entender que essa ressalva alcança a área de até quatro módulos fiscais utilizada para a subsistência da família agricultora. A autuada levou o caso ao STJ por agravo em recurso especial, mas a relatora não conheceu do agravo por falta de impugnação específica dos fundamentos da inadmissão, e o acórdão do TJMT ficou mantido.

Contexto do julgamento

O caso tem origem em ação anulatória ajuizada por uma agricultora, beneficiária de projeto de assentamento da reforma agrária localizado no Estado de Mato Grosso, contra auto de infração ambiental e termo de embargo lavrados pelo órgão estadual de meio ambiente. A autuação decorreu da constatação de desmatamento ilegal detectado exclusivamente por meio de imagens de satélite obtidas via sensoriamento remoto, sem que os agentes fiscais realizassem inspeção presencial na propriedade. O juízo de primeiro grau acolheu os argumentos da autora e anulou integralmente os atos administrativos, por entender que a prova técnica remota seria insuficiente para configurar a infração.

Inconformado, o Estado de Mato Grosso interpôs apelação cível perante o Tribunal de Justiça local, sustentando a plena validade jurídica das imagens de satélite como meio de prova e a regularidade do procedimento administrativo. O TJMT deu parcial provimento ao recurso, reformando a sentença para restabelecer o auto de infração, mas mantendo o afastamento do embargo diante da condição especial da proprietária como agricultora familiar assentada. Diante dessa decisão, a autuada opôs embargos de declaração, que foram rejeitados, e posteriormente interpôs recurso especial, inadmitido na origem, o que motivou o agravo em recurso especial (AREsp 3110928/MT). No Superior Tribunal de Justiça, a Ministra Maria Thereza de Assis Moura não conheceu do agravo, porque a agravante não impugnou especificamente os fundamentos da inadmissão (ausência de omissão no acórdão e óbice da Súmula 7/STJ), e com isso ficou mantido o acórdão do TJMT, sem exame do mérito pelo STJ.

O processo ilustra uma tensão recorrente no direito ambiental brasileiro: de um lado, a necessidade de instrumentos eficientes de fiscalização em um país de dimensões continentais, onde a vistoria presencial em todas as propriedades seria operacionalmente inviável; de outro, as garantias individuais dos produtores rurais, em especial daqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica, como os beneficiários da reforma agrária que dependem da terra para sua subsistência.

Fundamentos da decisão

O ponto central do acórdão do TJMT reside na interpretação do art. 64 da Lei Complementar Estadual nº 233/2005, que reconhece expressamente as imagens digitais obtidas por sensoriamento remoto como meio idôneo de comprovação de desmatamentos, desde que contenham coordenadas geográficas e datas de captação. Com base nesse dispositivo, o tribunal entendeu que a fiscalização ambiental não está condicionada à realização de vistoria in loco quando a infração puder ser devidamente documentada por tecnologia adequada. Essa conclusão dialoga com a jurisprudência do STJ firmada no REsp 1.778.729/PA, de relatoria do Ministro Herman Benjamin, que já reconheceu a validade técnica e jurídica das imagens de satélite para a comprovação da materialidade de danos ambientais, especialmente em regiões de difícil acesso e grande extensão territorial. A presunção de legitimidade e veracidade dos atos administrativos reforça esse entendimento, cabendo ao particular o ônus de produzir prova inequívoca em sentido contrário — ônus do qual a autuada não se desincumbiu, pois não negou o desmatamento, mas apenas questionou o método de sua constatação.

Quanto ao embargo ambiental, o acórdão aplicou a exceção prevista no art. 16 do Decreto nº 6.514/2008, que ressalva do embargo as atividades de subsistência, por entender que essa ressalva alcança o imóvel rural de até quatro módulos fiscais utilizado para a subsistência de agricultor familiar, nos termos da Lei nº 11.326/2006 e do Decreto nº 9.064/2017. O tribunal fundamentou o afastamento do embargo também nos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e do mínimo existencial, insculpidos no art. 1º, III, e no art. 6º da Constituição Federal, reconhecendo que a paralisação compulsória da atividade agrícola de subsistência poderia privar a família de sua única fonte de renda e sustento. É importante destacar que o afastamento do embargo não implicou absolvição pela infração ambiental: as demais sanções administrativas aplicáveis à conduta permanecem válidas, demonstrando que a proporcionalidade na aplicação das penalidades ambientais não equivale à impunidade.

Os embargos de declaração opostos pela autuada foram rejeitados sob o fundamento de que não havia omissão, contradição ou obscuridade no acórdão, mas sim mero inconformismo com o resultado do julgamento. O tribunal reiterou que a presunção de legitimidade dos atos administrativos ambientais fundamentados em elementos técnicos afasta a alegação de omissão quanto à autoria, já que o acórdão foi expresso ao identificar a infratora a partir de imagens de satélite e do cruzamento de dados, e que o julgador não precisa rebater um a um todos os dispositivos invocados, bastando enfrentar as questões essenciais da controvérsia, com apoio em precedente do STJ.

Alcance da decisão

O acórdão do TJMT firmou teses de relevante impacto para a fiscalização ambiental e para a proteção dos agricultores familiares. A primeira tese estabelece que imagens de satélite obtidas por sensoriamento remoto constituem prova válida e suficiente para embasar auto de infração por desmatamento ilegal, dispensando vistoria presencial, desde que a tecnologia empregada seja adequada e amparada em norma legal, como ocorre com o art. 64 da Lei Complementar Estadual nº 233/2005. Essa orientação converge com precedentes do TJMT — como as Apelações Cíveis nº 1018741-88.2023.8.11.0000 e nº 1008727-10.2017.8.11.0015 — e com a jurisprudência do STJ, que há anos reconhece o sensoriamento remoto como ferramenta legítima de fiscalização ambiental, contribuindo para a efetividade do art. 225 da Constituição Federal e da Lei nº 9.605/1998.

A segunda tese, igualmente relevante, afirma a ilegalidade do embargo de imóvel rural pertencente a agricultor familiar beneficiário da reforma agrária com área inferior a quatro módulos fiscais, por força da vedação expressa contida no art. 16 do Decreto nº 6.514/2008. Esse entendimento cria um marco protetivo importante para os assentados da reforma agrária, assegurando que a tutela ambiental seja exercida de forma proporcional e sem sacrificar o direito fundamental à subsistência. O caso demonstra que a aplicação do direito ambiental sancionador deve considerar as circunstâncias concretas do infrator, especialmente quando envolver populações em situação de vulnerabilidade, compatibilizando a proteção ao meio ambiente com os direitos sociais constitucionalmente garantidos.

Perguntas Frequentes

Imagem de satélite pode comprovar desmatamento sem vistoria presencial?
Sim. No caso, o TJMT reconheceu, com apoio em precedente do STJ, que imagens de satélite com coordenadas geográficas e data de captação são prova válida de desmatamento. A fiscalização presencial não é obrigatória quando há documentação técnica adequada, conforme art. 64 da Lei Complementar 233/2005 de Mato Grosso.
Agricultor familiar pode ser embargado por desmatamento?
Não, o art. 16 do Decreto 6.514/2008 exclui do embargo as atividades de subsistência, e a decisão aplicou essa exceção a agricultores familiares com propriedade até 4 módulos fiscais. O TJMT fundamentou essa proteção na dignidade humana e no mínimo existencial, e o STJ não chegou a examinar o mérito; outras sanções ambientais continuam cabíveis.
Qual a diferença entre multa ambiental e embargo para agricultura familiar?
A multa ambiental pode ser aplicada normalmente ao agricultor familiar que cometer infração ambiental. Já o embargo é expressamente proibido pelo Decreto 6.514/2008 para propriedades familiares de até 4 módulos fiscais, pois paralisaria a atividade de subsistência da família.
Como contestar auto de infração baseado em imagem de satélite?
Para contestar, é necessário apresentar prova técnica inequívoca que contradiga a imagem de satélite, como laudo pericial ou documentos que comprovem autorização para supressão. A simples alegação de que não houve vistoria presencial não anulou o auto de infração nesse caso, segundo o acórdão do TJMT.
Quais são os requisitos para imagem de satélite valer como prova ambiental?
A imagem de satélite deve conter coordenadas geográficas precisas, data de captação identificada e ser obtida por tecnologia adequada de sensoriamento remoto. Além disso, precisa estar amparada em norma legal específica, como ocorre em diversos estados brasileiros que regulamentaram esse meio de prova.
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