Jurisprudência Ambiental

STJ considera irrisório dano moral coletivo de R$ 1 mil em APP no Rio Paraná

01/06/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0001658-46.2014.4.03.6112

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra os proprietários de um imóvel pela construção de um rancho em Área de Preservação Permanente às margens do Rio Paraná, no bairro Beira Rio, em Rosana/SP. A perícia constatou dano ambiental em área sujeita a inundações, reconhecida como APP nos termos legais. O MPF buscou a demolição da construção e a condenação dos réus ao pagamento de indenização por danos ambientais coletivos.

Questão jurídica

O cerne da controvérsia reside na possibilidade de cumulação da obrigação de demolir a construção irregular em APP com a condenação ao pagamento de indenização por dano moral coletivo, bem como na adequação do quantum indenizatório fixado. Discute-se ainda se o acórdão do TRF-3 foi omisso quanto à persistência do dano ecológico no tempo e ao caráter remanescente dos impactos ambientais apontados pelo laudo pericial.

Resultado

O TRF da 3ª Região deu parcial provimento às apelações da União e do MPF, reconhecendo a possibilidade de cumulação da reparação in natura com a indenização por dano moral coletivo, mas fixou o valor em R$ 1.000,00. O MPF interpôs Recurso Especial ao STJ alegando omissão do acórdão e irrisoriedade do valor fixado, sustentando violação à Política Nacional do Meio Ambiente. Em decisão monocrática, o Ministro Benedito Gonçalves rejeitou a alegação de omissão, mas considerou o valor irrisório, deu parcial provimento ao recurso e devolveu os autos ao TRF-3 para nova fixação do dano moral coletivo.

Contexto do julgamento

A controvérsia tem origem em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público Federal contra particulares que edificaram um rancho — denominação popular para casa de veraneio — em lote localizado no bairro Beira Rio, na cidade de Rosana/SP, às margens do Rio Paraná. A área foi reconhecida como Área de Preservação Permanente (APP), nos termos da legislação ambiental vigente, e a perícia técnica atestou a ocorrência de dano ambiental concreto, destacando ainda que a região está sujeita a inundações periódicas, o que reforça a importância da proteção legal da faixa marginal.

Em primeiro grau, o pedido foi julgado parcialmente procedente. Inconformados, os réus apelaram sustentando que o Plano Diretor Municipal de Rosana teria consolidado a área como urbana e promovido a regularização fundiária, além de invocarem a Lei Federal nº 13.240/2015 e a MP 759/2016, que tratam da regularização de imóveis da União situados em APP. O MPF e a União também apelaram, postulando a condenação dos réus ao pagamento de indenização pecuniária pelos danos ambientais causados à coletividade.

O TRF da 3ª Região negou provimento à apelação dos réus e deu parcial provimento aos recursos do MPF e da União, reconhecendo a cumulação da obrigação de demolição com indenização por dano moral coletivo, arbitrada, contudo, no valor de R$ 1.000,00. Insatisfeito com o quantum fixado e alegando omissão do acórdão quanto à persistência e ao caráter remanescente do dano ecológico — apontados pelo Laudo de Perícia Criminal Federal nº 3.871/2011 —, o MPF opôs embargos de declaração, que foram rejeitados, e em seguida interpôs o presente Recurso Especial perante o STJ.

Fundamentos da decisão

O acórdão do TRF-3 reafirmou o princípio da responsabilidade objetiva do causador de dano ambiental, consagrado no art. 225, § 3º, da Constituição Federal e no art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional do Meio Ambiente). Segundo esse regime, prescinde-se da demonstração de culpa para a configuração do dever de reparar, bastando a comprovação do nexo causal entre a conduta e o dano ao meio ambiente. O tribunal também destacou que a constitucionalidade do art. 61-A do Código Florestal (Lei nº 12.651/2012) foi ratificada pelo STF nas ADIs nºs 4.901, 4.902, 4.903 e 4.937 e na ADC nº 42, mas que as exceções ali previstas são taxativas e não alcançam construções do tipo rancho ou casa de veraneio, conforme jurisprudência consolidada da Segunda Turma do STJ.

Outro ponto central foi a prevalência da legislação federal sobre as normas municipais de regularização fundiária. O tribunal entendeu que o Plano Diretor de Rosana/SP não tem o condão de afastar critérios objetivos estabelecidos em âmbito nacional, nem de convalidar infrações ambientais pretéritas. Esse entendimento dialoga diretamente com a sistemática do embargo ambiental, instrumento de fiscalização que também não pode ser esvaziado por atos normativos locais. A corte registrou ainda que, em casos análogos envolvendo o mesmo bairro Beira Rio em Rosana/SP, já havia se posicionado pela irregularidade das edificações, tornando irrelevante o debate sobre a natureza urbana ou rural da área diante do risco de inundação constatado.

Quanto à cumulação de reparação in natura com indenização pecuniária, o TRF-3 adotou o entendimento mais alinhado à jurisprudência do STJ, no sentido de que a obrigação de demolir a construção e restaurar a área degradada não afasta a condenação por dano moral coletivo. Isso porque o dano ambiental possui dimensão extrapatrimonial que atinge a coletividade de forma autônoma, independentemente da possibilidade de recuperação física da área. O MPF, no entanto, questiona no REsp a insuficiência do valor arbitrado de R$ 1.000,00, alegando que ele não reflete a extensão, a duração e os serviços ambientais suprimidos, em violação aos arts. 4º, inciso VII, e 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981.

Alcance da decisão

A jurisprudência consolidada do STJ, reafirmada pelo acórdão ora recorrido, estabelece que ranchos e casas de veraneio não se enquadram nas hipóteses de consolidação imobiliária em APP previstas no art. 61-A do Código Florestal, sendo obrigatória a demolição da edificação irregular e a recuperação da faixa marginal. Além disso, a regularização fundiária promovida por lei municipal não tem aptidão para afastar a responsabilidade ambiental objetiva do infrator, nem para sobrepor-se à legislação federal de proteção às áreas de preservação permanente, conforme precedentes do STJ como o AgInt no REsp n. 1.668.484/SP e o AREsp n. 1.647.274/PR.

No que tange ao dano moral coletivo ambiental, o entendimento prevalente na Corte Superior é o da plena cumulabilidade entre a reparação in natura e a indenização pecuniária, independentemente da viabilidade técnica de recuperação da área degradada. No recurso especial, o MPF sustentou que o quantum indenizatório deveria ser proporcional à extensão e à duração do dano ecológico, levando em conta os serviços ambientais retirados da natureza e a privação do bem ambiental pela coletividade. Em decisão monocrática, o Ministro Benedito Gonçalves afastou a alegação de omissão do acórdão regional, mas considerou irrisório o valor de R$ 1.000,00, deu parcial provimento ao recurso e determinou o retorno dos autos ao TRF-3 para nova fixação do dano moral coletivo. Para isso, mandou considerar a extensão da área degradada, sua caracterização como área protegida, a importância do bioma e das espécies ameaçadas, o caráter punitivo e o caráter pedagógico da condenação.

Perguntas Frequentes

O que é dano moral coletivo ambiental?
Dano moral coletivo ambiental é a lesão extrapatrimonial que atinge a coletividade em decorrência de degradação ao meio ambiente. Diferentemente do dano individual, afeta direitos difusos da sociedade, como o direito ao meio ambiente equilibrado. O STJ reconhece sua autonomia em relação ao dano material, permitindo cumulação de indenizações.
É possível cumular demolição com indenização por dano ambiental?
Sim, é plenamente possível cumular a obrigação de demolir construções irregulares com indenização pecuniária por dano moral coletivo. O STJ entende que a reparação in natura não afasta a dimensão extrapatrimonial do dano ambiental. As obrigações são autônomas e complementares na reparação integral do meio ambiente.
Plano Diretor municipal pode regularizar APP irregular?
Não, o Plano Diretor municipal não tem competência para afastar critérios objetivos da legislação federal sobre APP. No caso do rancho em Rosana/SP, o TRF-3 entendeu que o Plano Diretor municipal não convalida infrações ambientais pretéritas em área de preservação permanente, ponto que não foi rediscutido no STJ. A legislação federal prevalece sobre atos normativos locais em matéria ambiental.
Ranchos podem ser consolidados em APP conforme Código Florestal?
Não, ranchos e casas de veraneio não se enquadram nas hipóteses de consolidação imobiliária previstas no art. 61-A do Código Florestal. Neste caso, o TRF-3 invocou entendimento reiterado da Segunda Turma do STJ para concluir que a casa de veraneio não está entre as exceções legais e manteve a obrigação de demolir a construção. Apenas atividades específicas podem ser consolidadas conforme critérios taxativos da lei.
Como é calculada indenização por dano moral coletivo ambiental?
A indenização deve ser proporcional à gravidade, extensão e persistência do dano ecológico, considerando os serviços ambientais suprimidos. Neste caso, o STJ indicou como parâmetros a extensão da área degradada, sua caracterização como área protegida, a importância do bioma e das espécies ameaçadas, o caráter punitivo e o caráter pedagógico da condenação. Com base neles, considerou irrisório o valor de R$ 1.000,00 fixado pelo TRF-3.
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