Jurisprudência Ambiental

STJ não conhece agravos contra acórdão do TJGO sobre APP e omissão do município

04/09/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 0460093-93.2011.8.09.0051

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

O Ministério Público do Estado de Goiás ajuizou ação civil pública contra particulares, uma empresa construtora, o Município de Goiânia e a Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA), em razão de represamento ilegal do Córrego Barreiro, deposição de entulhos, supressão de vegetação e construções irregulares em Área de Preservação Permanente sem licenciamento. A sentença condenou os particulares à elaboração e execução de Planos de Recuperação de Área Degradada (PRADs) e responsabilizou o Município e a AMMA, com execução subsidiária, pela recuperação e fiscalização ambiental.

Questão jurídica

Discutiram-se, na apelação ao TJGO, o cerceamento de defesa, a legitimidade passiva da empresa construtora, a responsabilidade civil do Município e da AMMA por omissão fiscalizatória e a extensão da faixa de APP do Córrego Barreiro — 30 metros, na forma do art. 143, § 5º, da Lei Complementar Municipal nº 349/2022, ou 50 metros, conforme o art. 4º, I, da Lei nº 12.651/2012. Também se questionava a proporcionalidade das astreintes fixadas em R$ 500,00 diários. No STJ, a questão era se os agravos superavam a decisão que inadmitiu os recursos especiais.

Resultado

No AREsp 3353511/GO (2026/0255709-2), o Ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça, acolheu o parecer do Ministério Público Federal e não conheceu dos agravos, com base no art. 253, parágrafo único, I, do RISTJ. Os agravantes não impugnaram especificamente todos os fundamentos da decisão de inadmissão, entre eles a incidência da Súmula 7/STJ quanto ao mérito e a falta de demonstração analítica da divergência jurisprudencial.

Contexto do julgamento

A controvérsia tem origem na ação civil pública nº 0460093-93.2011.8.09.0051, ajuizada pelo Ministério Público do Estado de Goiás contra particulares, uma empresa construtora, o Município de Goiânia e a Agência Municipal do Meio Ambiente (AMMA). O objeto da demanda envolve danos ambientais decorrentes do represamento ilegal do Córrego Barreiro, da deposição de entulhos, da supressão de vegetação e da realização de construções irregulares em Área de Preservação Permanente, sem o devido licenciamento ambiental.

A sentença julgou procedente o pedido, condenando os particulares à elaboração e execução de Planos de Recuperação de Área Degradada (PRADs) e o Município de Goiânia e a AMMA, de forma solidária e com execução subsidiária, a garantir a recuperação e a fiscalização ambiental da área. Também foi definida a faixa de proteção aplicável ao curso d’água e mantido o limite de 100 metros para as nascentes, além da fixação de astreintes de R$ 500,00 diários para os particulares.

Em sede de tripla apelação, o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás deu parcial provimento aos recursos, mas preservou os pilares da condenação. Inconformados, dois dos particulares e a empresa construtora interpuseram recursos especiais que foram inadmitidos na origem, dando ensejo aos agravos apreciados no AREsp 3353511/GO (2026/0255709-2), sob relatoria do Ministro Francisco Falcão, no Superior Tribunal de Justiça, com decisão de 4 de setembro de 2026.

Fundamentos da decisão

Os recorrentes apontaram violação aos arts. 3º, 4º, I, “a”, § 10, 65 e 66 da Lei nº 12.651/2012 e aos arts. 489, § 1º, I, III e IV, 494, I, e 1.022, II e III, do Código de Processo Civil, além dos arts. 2º e 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981 e dos arts. 3º, IV, 7º, XIII, e 61-A da Lei nº 12.651/2012, com alegação de dissídio jurisprudencial. A decisão do Ministro Francisco Falcão transcreveu os fundamentos da inadmissão proferida na origem. Segundo eles, o julgador não está obrigado a responder a todas as questões suscitadas quando já encontrou motivo suficiente para decidir, e verificar se o acórdão enfrentou todas as teses relevantes exigiria incursão no acervo fático-probatório, vedada pela Súmula 7/STJ.

No STJ, o obstáculo decisivo foi processual. Os agravantes não impugnaram especificamente todos os fundamentos da decisão de inadmissão, entre eles a Súmula 7/STJ quanto ao mérito e a falta de cotejo analítico da divergência, e o relator não conheceu dos agravos com base no art. 253, parágrafo único, I, do RISTJ. Na origem, a inadmissão já havia assentado que discutir a regularidade ambiental do imóvel e o cumprimento do termo de compromisso exigiria reexame de provas e da lei municipal, com incidência das Súmulas 7/STJ e 280/STF. Esse ponto é relevante para quem enfrenta autuações e restrições administrativas, como o embargo ambiental, pois demonstra que a prova técnica produzida nas instâncias ordinárias tende a se tornar definitiva.

Quanto à extensão da faixa protegida, o acórdão de origem afastou a redução de 50 para 30 metros prevista no art. 143, § 5º, da Lei Complementar Municipal nº 349/2022, por serem os loteamentos posteriores a 29 de dezembro de 1994, data-limite fixada pela própria norma municipal, aplicando a regra geral do art. 4º, I, “b”, da Lei nº 12.651/2012, em observância à norma mais protetiva e ao princípio in dubio pro ambiente. A responsabilização do Município e da AMMA foi fundada na omissão persistente no dever de fiscalizar, sem violação à separação de poderes, à luz do art. 225 da Constituição Federal de 1988, com execução subsidiária em relação aos degradadores diretos.

Alcance da decisão

O acórdão do TJGO assentou que a responsabilidade civil por dano ambiental é objetiva e solidária, alcançando quem participa ativamente das edificações irregulares em Área de Preservação Permanente, e que o Município de Goiânia e a AMMA respondem por omissão no dever de fiscalizar, com execução subsidiária; no STJ, no AREsp 3353511/GO (2026/0255709-2), Rel. Ministro Francisco Falcão, em decisão disponibilizada em 4 de setembro de 2026, os agravos não foram conhecidos, em acolhimento ao parecer do Ministério Público Federal, porque não impugnaram especificamente todos os fundamentos da decisão de inadmissão (art. 253, parágrafo único, I, do RISTJ).

O acórdão estadual, que ficou de pé porque o STJ não conheceu dos agravos, consignou que a norma municipal que reduz a faixa de APP não se aplica a loteamentos posteriores ao marco temporal (29/12/1994) por ela própria estabelecido, prevalecendo a regra geral do art. 4º, I, “b”, da Lei nº 12.651/2012, e que a existência de PRAD em outro processo, com objeto e partes parcialmente distintos, não desobriga a elaboração e execução do plano determinado nesta ação. Essas conclusões, assim como a proporcionalidade das astreintes diárias, não chegaram a ser revistas no STJ, que barrou os agravos por falta de impugnação específica dos fundamentos da inadmissão.

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