Jurisprudência Ambiental

STJ mantém dano moral coletivo por lançamento irregular de efluentes

02/07/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 5582510-53.2018.8.09.0071

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

O Ministério Público do Estado de Goiás ajuizou ação civil pública contra uma indústria de laticínios em razão do lançamento irregular de efluentes no córrego Ribeirão das Grimpas, que recebe as águas do manancial do córrego Santo Antônio, e da emissão de odores acima dos limites tolerados. Laudos técnicos, relatórios de fiscalização e documentos oficiais demonstraram, de 2008 a pelo menos 2020, o lançamento de efluentes em desconformidade com os padrões do CONAMA, e a análise de amostras apontou Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) acima dos limites máximos permitidos pela Resolução CONAMA nº 430/2011 e pelo Decreto nº 1.745/1979. A sentença condenou a empresa ao pagamento de R$ 100.000,00 por dano moral coletivo, valor reduzido a R$ 75.000,00 pelo Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, que afastou a responsabilização pela alegada poluição atmosférica.

Questão jurídica

Discutia-se se a inobservância dos padrões fixados em Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente caracteriza, por si, dano ambiental indenizável, e se a configuração do dano moral coletivo ambiental exige demonstração de efetiva lesão extrapatrimonial à coletividade. Também se questionava a suficiência da fundamentação do arbitramento do valor indenizatório, à luz do art. 489, § 1º, II e III, do Código de Processo Civil.

Resultado

No AREsp 3239724/GO (2026/0149456-4), o Ministro Paulo Sérgio Domingues, do Superior Tribunal de Justiça, em decisão de 02/07/2026, consignou expressamente que 'não assiste razão à parte recorrente', mantendo o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. Permaneceu íntegra a condenação por dano moral coletivo decorrente da poluição hídrica, fixada em R$ 75.000,00 após o afastamento do capítulo relativo à emissão de odores.

Contexto do julgamento

A controvérsia teve origem em ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Estado de Goiás contra uma indústria de laticínios, com o objetivo de obter a reparação de danos ambientais decorrentes do lançamento irregular de efluentes no córrego Ribeirão das Grimpas — que recebe as águas do manancial do córrego Santo Antônio — e da emissão de odores acima dos limites tolerados. A sentença extinguiu o processo sem resolução do mérito quanto ao pedido de obrigação de fazer e julgou procedente o pedido indenizatório, fixando o dano moral coletivo em R$ 100.000,00.

Em apelação cível, o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás deu parcial provimento ao recurso da empresa para afastar a responsabilização pela alegada poluição atmosférica, ao entendimento de que as reclamações da comunidade sobre odores, desacompanhadas de outras provas do descumprimento de normas ambientais e da efetiva caracterização do dano, não bastavam à condenação. Em razão desse afastamento parcial, a indenização foi reduzida para R$ 75.000,00, mantida integralmente, porém, a condenação relativa à poluição das águas.

No recurso especial, fundado no art. 105, inciso III, alínea a, da Constituição Federal, a empresa apontou violação do art. 489, § 1º, II e III, do Código de Processo Civil, por suposta ausência de fundamentação concreta no arbitramento do valor, e ofensa aos arts. 186 e 927 do Código Civil e aos arts. 3º, IV, e 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981, sustentando que a inobservância dos padrões das Resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente não caracterizaria automaticamente dano indenizável. Inadmitido o recurso na origem, seguiu-se o agravo examinado no AREsp 3239724/GO (2026/0149456-4), Relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, Superior Tribunal de Justiça, decisão de 02/07/2026, na qual o Ministério Público havia se manifestado pelo não conhecimento e, subsidiariamente, pelo não provimento.

Fundamentos da decisão

O eixo do julgamento é o regime de responsabilidade civil objetiva por dano ambiental, extraído do art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981, que dispensa a prova de culpa e exige apenas a demonstração do dano, da conduta e do nexo de causalidade. O acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, mantido pelo Superior Tribunal de Justiça, destacou que a responsabilidade civil ambiental não se confunde com as esferas criminal e administrativa, submetidas à observância estrita da tipicidade — distinção relevante também para compreender por que medidas como o embargo ambiental e as sanções administrativas seguem lógica autônoma em relação ao dever de indenizar.

No plano probatório, o acórdão do Tribunal de origem apoiou-se em análise de amostra de efluente coletada na saída da tubulação oriunda da empresa e em laudo de perícia criminal referente a amostra de efluente bruto colhida em tanque da estação de tratamento, ambos indicando que o parâmetro de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) ultrapassava os limites máximos permitidos para lançamento em mananciais hídricos, conforme a Resolução CONAMA nº 430/2011 e o Decreto nº 1.745/1979. O quadro normativo de qualidade das águas invocado também incluiu a Resolução CONAMA nº 357/2005, parcialmente alterada e complementada pela Resolução CONAMA nº 430/2011.

Quanto ao nexo causal, o Tribunal de origem consignou não haver demonstração de outras fontes de poluição nos pontos de lançamento, registrando, ao contrário, nítida depreciação da qualidade da água após o lançamento do efluente, com níveis de oxigênio dissolvido caindo a valores que podem determinar condições incompatíveis à vida de organismos aquáticos. Diante da continuidade da degradação entre 2008 e 2020, a decisão do Superior Tribunal de Justiça afastou as teses de ausência de fundamentação (art. 489, § 1º, II e III, do Código de Processo Civil) e de inexistência de dano indenizável fundadas nos arts. 186 e 927 do Código Civil e nos arts. 3º, IV, e 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981, concluindo que “não assiste razão à parte recorrente”.

Alcance da decisão

A tese de julgamento fixada no acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, preservada pelo Superior Tribunal de Justiça no AREsp 3239724/GO (2026/0149456-4), Relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, decisão de 02/07/2026, é a seguinte: “É cabível a condenação por dano moral coletivo ambiental sempre que comprovada a degradação relevante e reiterada do meio ambiente, sendo desnecessária a demonstração de dor ou abalo específico da coletividade”. O próprio acórdão registra que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça reconhece a prescindibilidade de demonstração de dor ou indignação específica da coletividade para a configuração do dano moral coletivo ambiental.

Extrai-se do julgado uma diretriz probatória relevante: a superação reiterada de parâmetros técnicos de lançamento de efluentes, aferida por laudos oficiais e perícia, aliada à demonstração da degradação do corpo hídrico e à ausência de fontes alternativas de poluição, é suficiente para caracterizar o dano moral coletivo. Em contrapartida, a alegada poluição atmosférica por odores foi afastada justamente pela insuficiência probatória — reclamações da comunidade, isoladamente, não demonstram o descumprimento das normas ambientais nem a efetiva caracterização do dano, o que também justificou a redução do valor indenizatório de R$ 100.000,00 para R$ 75.000,00.

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