Jurisprudência Ambiental

Esgoto na Lagoa do Sapo (RJ): STJ não conhece de agravo da concessionária

03/09/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 0009832-69.2007.8.19.0014

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Moradores do entorno da Lagoa do Sapo, no Parque Eldorado, em Campos dos Goytacazes (RJ), sofrem alagamentos recorrentes decorrentes do afunilamento do leito fluvial original da lagoa e de rede de coleta de águas pluviais subdimensionada, que transborda com águas não drenadas somadas a esgoto in natura. A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro ajuizou ação civil pública, com inclusão da concessionária de saneamento no polo passivo, ao lado do Município.

Questão jurídica

No recurso especial, a concessionária alegou cerceamento de defesa pelo indeferimento de nova perícia e pela ausência de resposta integral aos quesitos, com violação dos arts. 7º, 369, 477, § 2º, I e II, e 1.022 do Código de Processo Civil de 2015. O tribunal de origem inadmitiu o recurso por deficiência de fundamentação, aplicando por analogia a Súmula nº 284 do Supremo Tribunal Federal, e porque a pretensão exigiria o reexame das provas que embasaram o reconhecimento da falha na prestação do serviço de saneamento e da responsabilidade objetiva da concessionária (Súmula nº 7 do Superior Tribunal de Justiça). No agravo, o STJ examinou apenas se a concessionária havia impugnado especificamente esses dois fundamentos da inadmissão.

Resultado

O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro havia mantido integralmente a sentença que condenou o Município à reparação dos danos materiais dos moradores e a concessionária à realização de obras para prestação satisfatória dos serviços de coleta e tratamento de esgoto, em forma e prazo a definir em liquidação. No AREsp 3168695/RJ (2026/0029174-0), de relatoria da Ministra Maria Thereza de Assis Moura, no Superior Tribunal de Justiça, decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 3 de setembro de 2026, o agravo não foi conhecido, porque a concessionária não impugnou especificamente os fundamentos que levaram à inadmissão do recurso especial na origem (Súmula nº 284 do Supremo Tribunal Federal, por analogia, e necessidade de reexame de provas), e a condenação ficou de pé sem exame do mérito pelo tribunal superior.

Contexto do julgamento

A controvérsia teve origem em ação civil pública proposta pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro em face do Município de Campos dos Goytacazes, com posterior inclusão da concessionária de saneamento no polo passivo, em razão dos danos suportados pelos moradores do entorno da Lagoa do Sapo, no Parque Eldorado. Segundo o quadro fático delineado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, o afunilamento do leito fluvial original da lagoa, somado a obras mal planejadas e a uma rede de coleta de águas pluviais subdimensionada, produziu alagamentos constantes, com transbordamento de águas pluviais não drenadas em conjunto com esgoto in natura, em dias de chuva e mesmo fora deles.

A sentença de procedência condenou o Município à reparação dos danos materiais sofridos pelos moradores do entorno da Lagoa do Sapo e do Parque Eldorado, a ser apurada em liquidação, e a concessionária à realização de obras necessárias à prestação satisfatória dos serviços de coleta e tratamento de esgoto na região, também com forma e prazo a serem definidos em liquidação de sentença. O acórdão de apelação manteve integralmente o julgado, e os embargos de declaração foram rejeitados pelo tribunal fluminense, que registrou a ausência das hipóteses do art. 1.022 do Código de Processo Civil de 2015 e invocou a Súmula nº 52 do TJERJ.

No recurso especial, fundado na alínea “a” do inciso III do art. 105 da Constituição Federal de 1988, a concessionária sustentou violação dos arts. 7º, 369, 477, § 2º, I e II, e 1.022, I, II e parágrafo único, II, todos do Código de Processo Civil de 2015, alegando cerceamento de defesa pelo indeferimento de nova perícia e pela ausência de resposta integral aos quesitos formulados. O recurso foi inadmitido na origem, o que motivou o agravo apreciado no AREsp 3168695/RJ (2026/0029174-0) pela Ministra Maria Thereza de Assis Moura, no Superior Tribunal de Justiça, em decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 3 de setembro de 2026.

Fundamentos da inadmissão na origem

A decisão de inadmissão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, transcrita no julgado, repousa em dois óbices processuais clássicos da via especial — a incidência, por analogia, da Súmula nº 284 do Supremo Tribunal Federal quanto aos arts. 489 e 1.022 do Código de Processo Civil de 2015 e o óbice do reexame fático-probatório quanto às demais alegações —, e foi justamente a falta de ataque específico a esses dois fundamentos que levou a relatora, no Superior Tribunal de Justiça, a não conhecer do agravo, por ofensa ao princípio da dialeticidade. O primeiro diz respeito à alegação genérica de ofensa aos arts. 489 e 1.022 do Código de Processo Civil de 2015: sem a indicação precisa dos pontos supostamente omissos, obscuros ou contraditórios, configura-se deficiência de fundamentação recursal, atraindo, por analogia, a Súmula nº 284 do Supremo Tribunal Federal. Como registrado na decisão, a recorrente limitou-se a repisar a argumentação de mérito já deduzida na apelação, o mesmo defeito apontado pela Câmara julgadora ao rejeitar os aclaratórios.

O segundo óbice refere-se à impossibilidade de revisão do conjunto fático-probatório em recurso especial. A instância ordinária assentou que a sentença se apoiou em laudo pericial de 2007 e em laudo elaborado em março de 2018, ambos submetidos ao contraditório, e aplicou a Súmula nº 155 do TJERJ, segundo a qual o mero inconformismo com as conclusões da prova pericial, desacompanhado de fundamentação técnica, não autoriza sua repetição. Concluiu-se, ainda, que a concessionária não se desincumbiu do ônus do art. 373, II, do Código de Processo Civil de 2015, deixando de comprovar que o vazamento de esgoto não estava em seu âmbito de competência ou que sequer existia, restando caracterizada a falha na prestação do serviço e a responsabilidade objetiva. A lógica é a mesma que orienta, no contencioso administrativo-ambiental, a distribuição do ônus probatório em medidas como o embargo ambiental: cabe ao responsável pela atividade demonstrar a regularidade e a suficiência de suas providências.

Alcance da decisão

A decisão monocrática proferida no AREsp 3168695/RJ (2026/0029174-0), Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Superior Tribunal de Justiça, disponibilizada no DJEN em 3 de setembro de 2026, não conheceu do agravo em recurso especial porque a agravante não impugnou especificamente os dois fundamentos da inadmissão, a saber, a Súmula nº 284 do Supremo Tribunal Federal, aplicada por analogia à alegação genérica de ofensa aos arts. 489 e 1.022 do Código de Processo Civil de 2015, e a Súmula nº 7 do Superior Tribunal de Justiça, pela necessidade de reexame de provas. Para a relatora, isso fere o princípio da dialeticidade e atrai os arts. 932, III, do Código de Processo Civil e 253, parágrafo único, I, do Regimento Interno do STJ. O tribunal superior não chegou a examinar, portanto, a suficiência da prova pericial nem a falha na prestação do serviço de saneamento, que ficaram decididas pelas instâncias ordinárias.

Nesse sentido, a decisão de inadmissão do Tribunal de origem, transcrita no julgado, invoca o REsp 336.741/SP, Rel. Min. Fernando Gonçalves, Superior Tribunal de Justiça, DJ de 7 de abril de 2003, quanto à inviabilidade de rever o quadro fático delineado nas instâncias ordinárias. No plano estadual, permanecem como fundamentos determinantes a Súmula nº 155 do TJERJ, que veda a repetição da perícia diante de mero inconformismo sem fundamentação técnica, e a Súmula nº 52 do TJERJ, que afasta a omissão sanável por embargos declaratórios quando um dos fundamentos adotados é suficiente ao julgamento do recurso.

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