Jurisprudência Ambiental

STJ nega recurso em crime ambiental por destruição de Mata Atlântica e dano a UC

01/06/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 5001641-68.2024.4.04.7009

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL

Fato

O proprietário rural foi condenado por destruir 51.200 metros quadrados de floresta pertencente ao Bioma Mata Atlântica, inserida na Reserva Biológica das Araucárias, sem licença do órgão ambiental competente. A conduta causou graves danos agudos de difícil recuperação, configurando os crimes dos arts. 38-A e 40 da Lei n. 9.605/1998. O réu foi condenado a 1 ano e 9 meses de reclusão, com pena substituída por restritivas de direitos, e ao pagamento de R$ 385.392,00 a título de reparação mínima do dano ambiental.

Questão jurídica

O STJ foi instado a examinar se havia comprovação do dolo específico para os crimes de destruição de vegetação do Bioma Mata Atlântica e de dano a Unidade de Conservação, bem como se a fixação do valor mínimo de reparação do dano ambiental na sentença penal atendia aos requisitos de fundamentação idônea e contraditório efetivo. A defesa sustentava, ainda, a existência de divergência jurisprudencial, fundamento que exigiria o cotejo analítico entre os acórdãos paradigma e o recorrido.

Resultado

O STJ não conheceu do recurso especial interposto com fundamento na alínea 'c' do art. 105, III, da Constituição Federal, por ausência do necessário cotejo analítico entre os julgados, conforme exigido pelos arts. 1.029, § 1º, do CPC e 255, § 1º, do RISTJ. Quanto à alínea 'a', o tribunal reconheceu o óbice da Súmula n. 7 do STJ, inviabilizando o reexame do conjunto fático-probatório. O relator, assim, conheceu do agravo para não conhecer do recurso especial, o que manteve a condenação imposta pelas instâncias ordinárias.

Contexto do julgamento

O caso em análise tem origem na condenação de um proprietário rural pela prática dos crimes previstos nos arts. 38-A e 40 da Lei n. 9.605/1998 — a chamada Lei de Crimes Ambientais. Os fatos apurados demonstraram que o réu destruiu aproximadamente 51.200 metros quadrados de floresta pertencente ao Bioma Mata Atlântica, área localizada no interior da Reserva Biológica das Araucárias, no Estado do Paraná, sem qualquer licença do órgão ambiental competente. Os laudos periciais indicaram que os danos causados eram agudos e de difícil recuperação, evidenciando a gravidade da conduta praticada.

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região negou provimento à apelação da defesa e manteve a sentença condenatória, que fixara a pena em 1 ano e 9 meses de reclusão em regime aberto, substituída por penas restritivas de direitos, além de 53 dias-multa. O acórdão do TRF-4 também confirmou a obrigação de reparação do dano ambiental no valor mínimo de R$ 385.392,00, calculado com base em laudo pericial judicial, nos termos do art. 387, inciso IV, do Código de Processo Penal. A defesa recorreu ao STJ alegando ausência de dolo e vícios na fixação do valor reparatório.

Chegando ao Superior Tribunal de Justiça por meio de Agravo em Recurso Especial (AREsp 3190124/PR), o caso foi decidido monocraticamente pelo relator, Ministro Joel Ilan Paciornik. O MPF apresentou contrarrazões ao recurso especial e, no STJ, opinou pelo conhecimento e desprovimento do agravo.

Fundamentos da decisão

O STJ assentou dois óbices distintos ao conhecimento do recurso especial. O primeiro diz respeito à interposição fundada na alínea “c” do art. 105, III, da Constituição Federal, que permite o recurso especial por divergência jurisprudencial. Para que essa modalidade seja admissível, é imprescindível que o recorrente realize o cotejo analítico entre o acórdão recorrido e o paradigma indicado, demonstrando a similitude fática e a adoção de soluções jurídicas divergentes. No caso concreto, a defesa limitou-se a transcrever ementas e trechos esparsos, sem proceder ao confronto detalhado exigido pelos arts. 1.029, § 1º, do CPC e 255, § 1º, do Regimento Interno do STJ. Esse entendimento é pacífico na jurisprudência do tribunal e reflete a necessidade de rigor técnico na demonstração do dissídio pretoriano.

O segundo óbice foi o enunciado da Súmula n. 7 do STJ, que veda o reexame do conjunto fático-probatório em sede de recurso especial. A tese defensiva de ausência de dolo — sustentando que o réu não teria consciência de que destruía vegetação do Bioma Mata Atlântica em estágio médio de regeneração inserida em Unidade de Conservação — demandaria, inevitavelmente, a reanálise das provas produzidas na instrução criminal. Da mesma forma, a insurgência contra a metodologia pericial adotada para fixação do valor mínimo de reparação do dano ambiental esbarrava no mesmo óbice, pois o TRF-4 já havia apreciado detidamente os critérios técnicos utilizados pelo perito judicial. Vale destacar que a fixação de valor mínimo de reparação ambiental na sentença condenatória é instrumento de grande relevância para a efetividade da tutela ambiental, sendo objeto de discussão recorrente no âmbito do embargo ambiental e de outros mecanismos de responsabilização por danos ao meio ambiente.

Quanto ao dolo, a decisão não fixou tese própria sobre os arts. 38-A e 40 da Lei n. 9.605/1998. O relator registrou que o TRF-4 reconheceu a vontade livre e consciente de destruir floresta do Bioma Mata Atlântica inserida em Unidade de Conservação com base em relatório fotográfico, laudo pericial, boletim de ocorrência e auto de infração do ICMBio, e destacou que o desmatamento, de cerca de 4,9 hectares, se estendeu de setembro de 2018 a agosto de 2022, e que o acusado prosseguiu na atividade mesmo após a visita da Brigada Militar. Rever essa conclusão exigiria reexame de provas.

Alcance da decisão

O julgamento consolida entendimentos já assentados no STJ sobre os requisitos formais do recurso especial por divergência jurisprudencial. Conforme reafirmado nos precedentes citados na decisão — como o AgRg no AREsp n. 2.458.142/SP, julgado pela Quinta Turma em fevereiro de 2024 — não se considera comprovado o dissídio jurisprudencial com a mera transcrição de ementa ou trecho esparso do acórdão paradigma. É indispensável a demonstração analítica da similitude fática e da divergência de soluções jurídicas, sob pena de não conhecimento do recurso. Esse rigor processual tem por finalidade preservar a coerência e a previsibilidade da jurisprudência do tribunal superior.

No plano do direito ambiental penal, o caso reafirma que a responsabilização criminal pela destruição de vegetação do Bioma Mata Atlântica e por danos a Unidades de Conservação é matéria que as instâncias ordinárias apreciam com ampla cognição fático-probatória, cabendo ao STJ apenas o controle de legalidade. A manutenção da condenação e do valor mínimo de R$ 385.392,00 para reparação do dano ambiental sinaliza o compromisso do Poder Judiciário com a efetividade da proteção ao patrimônio natural brasileiro, em especial aos ecossistemas do Bioma Mata Atlântica, um dos mais ameaçados do planeta, e às áreas especialmente protegidas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação.

Perguntas Frequentes

O que caracteriza crime ambiental contra a Mata Atlântica?
O crime ambiental contra a Mata Atlântica, na forma dolosa, consiste em destruir ou danificar vegetação primária ou secundária, em estágio avançado ou médio de regeneração, do Bioma Mata Atlântica, ou utilizá-la com infringência das normas de proteção, conforme art. 38-A da Lei 9.605/98; se a área integra Unidade de Conservação, o dano pode configurar também o crime do art. 40 da mesma lei. Basta que o agente atue deliberadamente sobre área florestada, sem necessidade de conhecimento técnico específico sobre o estágio de regeneração da vegetação.
Como é calculado o valor de reparação por dano ambiental em crime?
O valor mínimo de reparação do dano ambiental é fixado na sentença condenatória, conforme art. 387, IV, do CPP, e pode se apoiar em laudo pericial judicial. No caso analisado, foi estabelecido valor mínimo de R$ 385.392,00 para reparação de 51.200m² de Mata Atlântica destruída, considerando a gravidade e dificuldade de recuperação do dano.
É possível recorrer ao STJ em crimes ambientais?
O recurso especial ao STJ em crimes ambientais é possível, mas limitado a questões de direito. Não cabe reexame de provas (Súmula 7 do STJ) nem recurso por divergência sem cotejo analítico detalhado entre acórdãos. A análise de dolo e metodologia pericial demanda reanálise probatória, sendo inadmissível.
Qual a pena para destruição de vegetação em Unidade de Conservação?
A destruição de vegetação em Unidade de Conservação pode resultar em pena de reclusão de 1 a 5 anos, conforme Lei 9.605/98. No caso julgado, a pena foi fixada em 1 ano e 9 meses em regime aberto, substituída por restritivas de direitos, além de multa e reparação civil obrigatória.
O que é necessário provar para configurar dolo em crime ambiental?
Para configurar dolo em crime ambiental, deve-se provar a vontade livre e consciente de destruir vegetação protegida, sem necessidade de conhecimento técnico específico. A ausência de licença ambiental é elemento indiciário relevante da consciência da ilicitude, sendo suficiente que o agente reconheça estar atuando sobre área florestada sem autorização.
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