Jurisprudência Ambiental

STJ responsabiliza proprietário registral por dano ambiental após venda

22/04/2026 STJ Resp Processo: 0012956-20.2001.8.26.0100

FRANCISCO FALCÃO

Fato

O Município de São Paulo ajuizou ação civil pública contra os proprietários registrais de um imóvel onde foram suprimidas ilegalmente 23 árvores em área de vegetação significativa. A ação buscava a reparação integral do dano ambiental, impondo aos réus a obrigação de plantar 345 árvores ou pagar indenização de R$ 230.000,00. Os réus alegavam ter alienado o imóvel por contrato de cessão de direitos em 2005, antes da ocorrência do dano.

Questão jurídica

A questão central é saber se o proprietário registral de imóvel pode ser responsabilizado por dano ambiental ocorrido após a alienação fática do bem, quando a transferência ainda não foi levada a registro no Cartório de Registro de Imóveis. Discute-se, ainda, se a manutenção da propriedade registral, combinada com a omissão em adotar medidas de proteção ambiental mesmo após notificação pelo poder público, configura contribuição indireta ao dano para fins de responsabilidade objetiva ambiental.

Resultado

O Tribunal de Justiça de São Paulo proveu a apelação dos particulares, reconhecendo a ilegitimidade passiva dos alienantes com fundamento no Tema 1204 do STJ, por entender que a alienação ocorreu antes do dano e que não houve concorrência dos réus para a degradação ambiental. Em decisão monocrática, o ministro Francisco Falcão, do STJ, deu provimento ao recurso especial do Município para restabelecer a sentença, ao reconhecer distinção em relação ao Tema 1204: os proprietários registrais permaneceram omissos quanto à degradação, e não houve inequívoca ausência de contribuição, ainda que indireta, para o dano.

Contexto do julgamento

O caso tem origem em ação civil pública ajuizada pelo Município de São Paulo em face de um casal de proprietários registrais de imóvel onde foram suprimidas ilegalmente 23 árvores localizadas em área de vegetação significativa. A pretensão municipal foi fundamentada na responsabilidade civil ambiental objetiva e na natureza propter rem da obrigação de reparar o dano, tendo em vista que, à época do ajuizamento, o imóvel continuava registrado em nome dos réus no Cartório de Registro de Imóveis. O valor atribuído à causa foi de R$ 230.000,00, correspondente à estimativa do dano causado pela remoção ilegal da cobertura arbórea.

Em primeiro grau, o pedido foi julgado parcialmente procedente, impondo-se aos réus a obrigação de plantar 345 árvores, com possibilidade de conversão em indenização pecuniária no valor de R$ 230.000,00. Contudo, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo reformou a sentença ao prover o recurso de apelação dos particulares, reconhecendo a ilegitimidade passiva dos alienantes sob o argumento de que o imóvel teria sido alienado por meio de contrato de cessão de direitos em 2005, antes da ocorrência do dano ambiental, aplicando o entendimento firmado no Tema 1204 do STJ. O acórdão estadual concluiu não haver indícios de que os réus teriam concorrido, direta ou indiretamente, para a degradação.

Inconformado, o Município de São Paulo interpôs recurso especial ao Superior Tribunal de Justiça, apontando violação aos arts. 1.245, § 1º, e 927 do Código Civil, bem como aos arts. 3º, IV, e 14, § 1º, da Lei n. 6.938/1981. A municipalidade sustenta que a interpretação conferida pelo tribunal de origem ao Tema 1204 foi equivocada, pois não houve cessação do direito real antes do dano — dado que o título translativo jamais foi levado a registro —, e que a omissão dos proprietários registrais em regularizar a situação do imóvel e em adotar medidas preventivas após notificação pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente configura, ao menos, contribuição indireta ao dano.

Fundamentos da decisão

O núcleo da controvérsia reside na tensão entre o princípio da publicidade registral imobiliária e os critérios de imputação da responsabilidade civil ambiental objetiva. Pelo art. 1.245, § 1º, do Código Civil de 2002, enquanto não registrado o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel para todos os efeitos legais perante terceiros e o Poder Público. Essa regra não é meramente formal: ela confere segurança jurídica ao sistema e delimita quem detém, perante a coletividade, os poderes e deveres inerentes ao domínio, incluindo o dever de vigilância e de proteção dos atributos ambientais do bem. A ausência de registro da cessão de direitos celebrada em 2005 manteve os réus na posição de proprietários plenos para todos os efeitos externos, o que tem reflexos diretos na cadeia de responsabilidade ambiental.

No campo ambiental, a responsabilidade civil é objetiva e alcança tanto o poluidor direto quanto o indireto, conforme estabelecem os arts. 3º, IV, e 14, § 1º, da Lei n. 6.938/1981, a Política Nacional do Meio Ambiente. O conceito legal de poluidor é amplo e compreende toda pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável direta ou indiretamente por atividade causadora de degradação ambiental. Nesse sentido, a omissão do proprietário registral em zelar pelo imóvel, em promover a regularização da situação dominial e em atender às notificações do órgão ambiental para celebração de Termo de Ajustamento de Conduta pode configurar contribuição indireta ao dano, dispensando a demonstração de culpa ou dolo. Esse entendimento é fundamental para compreender também situações de embargo ambiental, nas quais a responsabilidade pode recair sobre quem figura como titular do bem independentemente de quem praticou materialmente a conduta lesiva.

A Súmula 623 do STJ estabelece que, nas ações de natureza propter rem relacionadas a obrigações ambientais, o credor pode escolher acionar o proprietário ou o possuidor atual, os anteriores, ou ambos. O Município de São Paulo, ao optar por demandar os proprietários registrais, exerceu regularmente essa prerrogativa. Ao julgar o recurso, o ministro Francisco Falcão, em decisão monocrática, afastou a aplicação do Tema 1204 (REsp 1.953.359/SP) ao caso por distinção: o precedente só isenta o alienante cujo direito real cessou antes do dano e que não concorreu para ele, nem indiretamente, e aqui não havia a inequívoca ausência de contribuição, pois os réus permaneceram omissos diante da degradação. Segundo a decisão, meras alegações de transferência da posse ou de ausência de participação direta no evento não afastam o dever de vigilância e de proteção inerente à propriedade registral.

Alcance da decisão

O caso em exame projeta relevante impacto sobre o regime de responsabilidade civil ambiental aplicável a proprietários registrais que alienam faticamente seus imóveis sem proceder ao registro do título translativo. O Tema 1204 do STJ, fixado no julgamento do REsp 1.953.359/SP sob o rito dos recursos repetitivos, estabeleceu que a obrigação propter rem não pode ser imputada ao proprietário anterior quando este alienou o imóvel antes da ocorrência do dano e não concorreu para ele. No caso concreto, o título translativo não foi registrado, e a sentença restabelecida já aplicara o art. 1.245, § 1º, do Código Civil para concluir que a transferência não se efetivara antes do dano. A decisão do STJ, porém, fundou a distinção na falta de prova inequívoca de que os réus não contribuíram, ainda que por omissão, para o resultado lesivo.

Com o provimento do recurso especial, ficou restabelecida a sentença, que condenara os proprietários registrais ao plantio de 345 árvores, conversível em R$ 230.000,00. A decisão registrou ainda que a execução fiscal movida pelo Município contra o possuidor apontado como poluidor direto não afasta a responsabilidade dos réus, porque o credor pode demandar qualquer dos responsáveis, isolada ou conjuntamente, e que eventual dupla cobrança deve ser discutida na própria execução. Esse posicionamento reforça a eficácia erga omnes do registro imobiliário como critério de imputação de responsabilidade ambiental e assegura a reparação integral do dano, princípio estruturante do direito ambiental brasileiro consagrado no art. 225 da Constituição Federal e na jurisprudência consolidada do próprio STJ.

Perguntas Frequentes

O que é responsabilidade ambiental do proprietário registral?
A responsabilidade ambiental do proprietário registral é a obrigação de reparar danos ambientais ocorridos no imóvel enquanto este estiver registrado em seu nome, independentemente de ter causado diretamente o dano. Essa responsabilidade é objetiva, nos termos do art. 14, § 1º, da Lei 6.938/1981, e alcança o proprietário registral porque o art. 1.245, § 1º, do Código Civil dispõe que, enquanto não se registrar o título translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóvel.
O Tema 1204 do STJ protege quem vendeu o imóvel antes do dano?
O Tema 1204 do STJ protege o proprietário anterior quando este alienou efetivamente o imóvel antes da ocorrência do dano ambiental e não concorreu para ele. No caso comentado, o STJ afastou o tema por distinção, porque os proprietários registrais, que não levaram a venda a registro, permaneceram omissos diante da degradação, sem prova inequívoca de que não contribuíram, ainda que indiretamente, para o dano.
Quem responde por dano ambiental quando não há registro da venda?
Quando não há registro da venda do imóvel, o proprietário registral continua respondendo pelo dano ambiental ocorrido no bem. Isso ocorre porque, sem o registro, ele permanece como proprietário para todos os efeitos legais perante terceiros e o Poder Público, mantendo os deveres de vigilância e proteção dos atributos ambientais do imóvel.
A omissão do proprietário pode gerar responsabilidade ambiental indireta?
Sim, a omissão do proprietário registral pode configurar responsabilidade ambiental indireta. Isso inclui a falta de zelo pelo imóvel, a não regularização da situação dominial e o descumprimento de notificações do órgão ambiental. A responsabilidade civil ambiental é objetiva e alcança tanto o poluidor direto quanto o indireto, conforme arts. 3º, IV, e 14, § 1º, da Lei 6.938/1981.
Como funciona a obrigação propter rem em matéria ambiental?
A obrigação propter rem em matéria ambiental permite que o credor (órgão público) escolha acionar o proprietário atual, os anteriores, ou ambos, conforme Súmula 623 do STJ. Essa obrigação está vinculada ao bem e acompanha sua titularidade registral. O proprietário registral assume automaticamente os deveres de preservação ambiental, independentemente de ter causado o dano.
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