Monitor do STJ DECISÃO DE MÉRITO

APP de UHE anterior à MP 2.166-67 e o art. 62 do Código Florestal

24/06/2026 STJ RECURSO ESPECIAL Processo: 0000825-65.2009.4.03.6124

1ª Turma do STJ, Rel. Min. Sérgio Kukina

Fato

O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública alegando possível dano ambiental na área de preservação permanente do entorno do reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira. A perícia realizada nos autos constatou que não houve intervenção na APP, delimitada conforme o art. 62 da Lei n. 12.651/2012, o que levou à improcedência do pedido, mantida pelo TRF da 3ª Região. O IBAMA recorreu ao STJ sustentando que o art. 62 do novo Código Florestal deveria ser aplicado apenas a intervenções pretéritas consolidadas, e não a intervenções futuras.

Questão jurídica

A controvérsia central é a extensão e o âmbito de aplicação do art. 62 da Lei n. 12.651/2012 na delimitação da APP de reservatórios artificiais de usinas hidrelétricas com concessão anterior à MP n. 2.166-67/2001: se essa norma rege apenas intervenções já consolidadas ou também as intervenções futuras na mesma área. Discute-se ainda a eficácia retroativa do novo Código Florestal à luz dos julgamentos das ADIs 4.901, 4.902, 4.903 e 4.937 e da ADC 42 pelo STF.

Resultado

O STJ conheceu em parte do recurso especial e, na parte conhecida, negou-lhe provimento, mantendo o acórdão do TRF da 3ª Região. O relator, em decisão monocrática, assentou que a delimitação da APP pelo art. 62 da Lei n. 12.651/2012 vale tanto para intervenções pretéritas quanto para intervenções futuras, sem distinção legal, e que a aplicação retroativa do novo Código Florestal é constitucionalmente legítima conforme a jurisprudência vinculante do STF.

Contexto do julgamento

O processo n. 0000825-65.2009.4.03.6124, julgado pelo STJ sob o número REsp 2212398/SP, teve origem em ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal contra uma pessoa física e duas empresas, em razão de suposta ocorrência de dano ambiental na área de preservação permanente (APP) do entorno do reservatório da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, localizada no Estado de São Paulo.

A controvérsia girava em torno do critério normativo adequado para delimitar a faixa de APP do reservatório. Realizada prova pericial durante a instrução processual, concluiu-se que não houve qualquer intervenção na APP cuja extensão foi definida com base no art. 62 da Lei n. 12.651/2012 (novo Código Florestal). Com esse fundamento, o juízo de primeiro grau julgou improcedente o pedido, e o Tribunal Regional Federal da 3ª Região manteve a sentença em sede de apelação e reexame necessário, reconhecendo a aplicabilidade do art. 62 tanto a intervenções pretéritas quanto a futuras, por ausência de previsão legal em sentido contrário.

Inconformado, o IBAMA interpôs recurso especial com fundamento no art. 105, III, a e c, da Constituição Federal, chegando o feito à 1ª Turma do STJ sob a relatoria do Ministro Sérgio Kukina.

A questão jurídica

O núcleo da controvérsia ambiental residia na interpretação e no alcance do art. 62 da Lei n. 12.651/2012, que disciplina a delimitação da APP no entorno de reservatórios artificiais de usinas hidrelétricas cujo registro ou contrato de concessão seja anterior à Medida Provisória n. 2.166-67, de 24 de agosto de 2001. Nesses casos, a faixa de APP corresponde à distância entre o nível máximo operativo normal e a cota máxima maximorum, critério distinto do previsto no art. 5º, caput, aplicável às demais usinas.

O IBAMA sustentava que o art. 62, por estar inserido no capítulo de disposições transitórias do novo Código Florestal, deveria incidir exclusivamente sobre intervenções já consolidadas anteriormente a determinado marco temporal — propondo as datas de 22/07/2008 ou, subsidiariamente, 28/05/2012 (entrada em vigor da lei) —, ao passo que intervenções futuras deveriam observar as faixas mais amplas dos arts. 4º, III, e 5º da mesma lei. Discutia-se, ainda, a eficácia retroativa do novo Código Florestal à luz dos julgamentos do STF nas ADIs n. 4.901, 4.902, 4.903 e 4.937 e na ADC n. 42, que reconheceram a constitucionalidade das normas de transição instituídas pela Lei n. 12.651/2012.

O que decidiu o STJ

Em decisão monocrática, o Ministro Sérgio Kukina, relator do caso na 1ª Turma do STJ, conheceu em parte do recurso especial e, na parte conhecida, negou-lhe provimento. O relator afastou, de plano, a alegada negativa de prestação jurisdicional, assinalando que o TRF da 3ª Região enfrentou fundamentadamente todas as questões postas, não se podendo confundir julgamento desfavorável com omissão judicial.

No mérito, o STJ endossou integralmente a fundamentação do acórdão regional. Destacou que a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal — firmada no julgamento das ADIs n. 4.901, 4.902, 4.903 e 4.937 e da ADC n. 42, e reafirmada pela 2ª Turma do STF no ARE n. 1.473.967 AgR — reconhece a legitimidade constitucional da eficácia retroativa do novo Código Florestal, de modo que a recusa em aplicá-lo esvazia a força normativa da lei e contraria precedente vinculante da Corte Suprema. O STJ registrou estar promovendo a revisão de seu entendimento anterior sobre a irretroatividade da Lei n. 12.651/2012, citando precedentes recentes da própria 1ª e 2ª Turmas nesse sentido (EDcl no AgInt no REsp n. 1.700.760/SP e EDcl nos EDcl no AgInt no AREsp n. 1.145.207/SP).

Quanto ao art. 62 especificamente, o STJ confirmou que, uma vez definida a extensão da APP com base nesse dispositivo, tal definição vale tanto para intervenções pretéritas quanto para intervenções futuras, inexistindo fundamento legal para a distinção propugnada pelo IBAMA. O fato de a norma figurar entre as disposições transitórias não autoriza interpretação restritiva, pois o legislador não condicionou sua aplicação à natureza pretérita ou futura da intervenção.

Repercussão para o Direito Ambiental

A decisão é relevante por aplicar, ainda que em decisão monocrática, dois entendimentos de grande impacto para o Direito Ambiental. O primeiro diz respeito à eficácia retroativa do novo Código Florestal: alinhando-se à jurisprudência vinculante do STF, o STJ vem revendo seu entendimento anterior e passou a aplicar a Lei n. 12.651/2012 a fatos anteriores à sua vigência, como registra o relator, o que reduz o risco de reclamações constitucionais.

O segundo entendimento concerne à abrangência do art. 62 da Lei n. 12.651/2012: ao afastar a tese do marco temporal defendida pelo IBAMA, o STJ sinaliza que os critérios de delimitação da APP em reservatórios de usinas hidrelétricas antigas (anteriores à MP n. 2.166-67/2001) regem a totalidade das intervenções nessas áreas, independentemente de quando ocorridas. Isso traz maior previsibilidade para os titulares de concessões e para os órgãos de fiscalização ambiental, embora também sinalize que a faixa de APP nesses casos pode ser menos extensa do que a prevista para empreendimentos mais recentes. Para o contencioso ambiental envolvendo usinas hidrelétricas, a decisão reforça a necessidade de identificar com precisão a data do registro ou contrato de concessão como elemento determinante do regime jurídico aplicável à APP do reservatório.

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