Demolição de hotel em APP de dunas e terreno de marinha no litoral do Ceará
1ª Turma do STJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves
O IBAMA ajuizou ação civil pública pleiteando a demolição de um hotel situado na região praieira de Tremembé, em Icapuí/CE, sob o argumento de que o empreendimento foi edificado em terreno de marinha e em área de preservação permanente (dunas), com supressão irregular de vegetação. O TRF da 5ª Região negou o pedido de demolição, reconhecendo que o empreendedor obteve licença ambiental da SEMACE e alvará municipal, e que não havia indícios de dano ambiental, ainda que perícia judicial tenha concluído que 78,76% do imóvel se encontra em APP.
A controvérsia central é se a existência de licença ambiental estadual e alvará municipal regularmente expedidos afasta a obrigação de demolir empreendimento hoteleiro construído em área de preservação permanente — dunas e terreno de marinha —, à luz do art. 2º da Lei n. 4.771/1965 e do art. 4º, incisos VI e VIII, da Lei n. 12.305/2010. Discute-se, ainda, se o adensamento urbano e a antiguidade do empreendimento são fatores legítimos para flexibilizar a proteção ambiental de APP.
O Min. Benedito Gonçalves não conheceu do recurso especial interposto pelo IBAMA, por dois fundamentos autônomos: (i) deficiência de fundamentação nas razões recursais, com alegações genéricas que não demonstraram de forma clara e particularizada a violação aos dispositivos invocados, aplicando-se por analogia a Súmula 284/STF; e (ii) ausência de impugnação específica ao fundamento central do acórdão recorrido — a existência de licença ambiental e alvará regularmente obtidos —, atraindo a incidência da Súmula 283/STF. Prevaleceu, assim, o acórdão do TRF da 5ª Região que manteve o hotel e afastou a demolição.
Contexto do julgamento
O processo n. 0000177-12.2012.4.05.8101 (REsp 2204982/CE) tem origem em ação civil pública ajuizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) contra a entidade privada responsável por um hotel localizado na região praieira de Tremembé, município de Icapuí/CE. O IBAMA pleiteou a demolição do empreendimento, a reparação de danos ambientais in natura e o pagamento de indenização ao Fundo de Reparação de Direitos Difusos, sustentando que o hotel foi edificado em terreno de marinha e em área de preservação permanente, com supressão irregular de vegetação de dunas.
O Tribunal Regional Federal da 5ª Região desproveu a apelação do IBAMA, consignando que o empreendedor obteve Licença de Instalação n. 106/01/NUCAM, expedida pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (SEMACE) em 25 de maio de 2001, e alvará de funcionamento do Município de Icapuí/CE. A Corte regional também registrou a existência de laudo da Polícia Federal (n. 132/2011) em sentido contrário ao laudo técnico do IBAMA (n. 17/2008), e que não havia indícios de dano ambiental no local. Em recurso especial anterior, o STJ deu provimento ao recurso do IBAMA e anulou o acórdão dos embargos de declaração, para que o TRF se manifestasse expressamente sobre o enquadramento do imóvel como APP. Nos segundos embargos de declaração, o TRF reconheceu a omissão e registrou que a perícia judicial concluiu que 78,76% do imóvel está inserido em APP, mas manteve a conclusão de que a demolição é incabível diante das autorizações regularmente obtidas.
A questão jurídica
No recurso especial ora examinado, o IBAMA alegou violação ao art. 2º da Lei n. 4.771/1965 (Código Florestal revogado) e ao art. 4º, incisos VI e VIII, da Lei n. 12.305/2010, sustentando que as dunas configuram área de preservação permanente e que a supressão de vegetação nessas zonas somente seria admissível nas hipóteses expressamente previstas em lei, situação não verificada na espécie. Argumentou, ainda, que o adensamento urbano da área é irrelevante para afastar a proteção ambiental conferida às APPs.
A controvérsia de fundo, portanto, é saber se a licença ambiental estadual e o alvará municipal — regularmente expedidos à época da construção — têm o condão de afastar a obrigação de demolir obra erguida em APP de dunas e em suposto terreno de marinha, ou se a proteção legal da APP prevalece independentemente das autorizações administrativas obtidas pelo particular.
O que decidiu o STJ
O Min. Benedito Gonçalves, relator na 1ª Turma do STJ, não conheceu do recurso especial, por dois fundamentos autônomos e suficientes. O primeiro diz respeito à deficiência de fundamentação recursal: as razões do recurso especial apresentaram alegações vagas e genéricas, sem demonstrar de modo claro, específico e particularizado de que forma o acórdão recorrido contrariou os dispositivos invocados, atraindo, por analogia, a aplicação da Súmula 284 do STF.
O segundo fundamento reside na incidência da Súmula 283 do STF: o IBAMA deixou de impugnar especificamente o fundamento central e autônomo adotado pelo TRF — a existência de licença ambiental e alvará de funcionamento regularmente obtidos pelo empreendedor —, o que torna inadmissível o recurso que não combate diretamente todos os pilares da decisão recorrida. O Ministério Público Federal também se manifestou pelo não conhecimento do recurso especial. Prevaleceu, assim, o acórdão do TRF da 5ª Região, que manteve o hotel e afastou o pedido de demolição.
Repercussão para o Direito Ambiental
Embora o STJ não tenha examinado o mérito da controvérsia ambiental — o que impede a formação de precedente vinculante sobre a tese de fundo —, o desfecho processual é relevante por ao menos duas razões. Primeiro, consolida a exigência de que os recursos especiais em matéria ambiental atendam ao ônus da impugnação específica e da demonstração particularizada da violação legal, sob pena de não conhecimento com base nas Súmulas 283 e 284 do STF. Órgãos públicos como o IBAMA, ao recorrerem ao STJ, devem estruturar suas razões de forma tecnicamente precisa, identificando com clareza de que modo cada fundamento do acórdão recorrido viola os dispositivos apontados.
Segundo, o caso evidencia a tensão ainda não resolvida entre a proteção legal de APPs — especialmente dunas costeiras — e a segurança jurídica do particular que obteve licença ambiental e alvará municipal antes da consolidação da edificação. O TRF da 5ª Região, mesmo diante de perícia que atestou a inserção de 78,76% do imóvel em APP, entendeu que a demolição seria desproporcional ante as autorizações regularmente concedidas pelo Estado. Essa fundamentação permanece hígida neste processo, em que o TRF da 5ª Região reconheceu relevância jurídica às licenças ambientais pretéritas como fator a ser ponderado na definição da medida reparatória adequada — tema que aguarda definição mais clara pelo STJ em caso futuro com fundamentação recursal tecnicamente adequada.
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