Jurisprudência Ambiental

Liminar suspende embargo do IBAMA restabelecido por reposição florestal

03/09/2026 TRF-1 Mandado de Segurança Cível Processo: 1002183-67.2026.4.01.3906

Vara Federal Cível e Criminal da SSJ de Paragominas-PA

Fato

Produtor rural titular de imóvel em Paragominas/PA obteve em janeiro de 2024 o levantamento de embargo ambiental do IBAMA por meio do Despacho Decisório nº 7/2024/DITEC-PA/SUPES-PA, que reconheceu a extinção dos motivos da restrição com base no art. 15-B do Decreto nº 6.514/2008. Em 05/02/2026, o Despacho Decisório nº 1/2026/DITEC-PA/SUPES-PA restabeleceu o embargo sobre 949,17 hectares e condicionou o novo desembargo à comprovação de reposição florestal obrigatória de 94.917,00 m³, em 20 dias. O produtor impetrou mandado de segurança na Vara Federal Cível e Criminal da Subseção Judiciária de Paragominas-PA para suspender o ato e o Termo de Embargo e Interdição nº 354119-C.

Questão jurídica

Discute-se a legalidade do restabelecimento de embargo ambiental já levantado, mediante exigência de reposição florestal fundada na Instrução Normativa IBAMA nº 8/2024, publicada após o ato de desembargo, à luz da proteção ao ato jurídico perfeito e da vedação à retroatividade de nova orientação administrativa (arts. 6º e 24 do Decreto-Lei nº 4.657/1942 – LINDB). Debatem-se ainda a competência do IBAMA para exigir reposição florestal, a alegada condição de área rural consolidada anterior a 22/07/2008 e a razoabilidade do prazo de 20 dias fixado para cumprimento da obrigação.

Resultado

Depois das informações da autoridade coatora, a Juíza Federal Substituta deferiu o ingresso do IBAMA e concedeu a liminar para suspender os efeitos do Despacho Decisório nº 1/2026/DITEC-PA/SUPES-PA e do Termo de Embargo e Interdição nº 354119-C, com retirada da restrição dos sistemas de controle, até ulterior deliberação. A reativação do embargo por revisão de entendimento, sem nova infração, foi considerada ofensiva à segurança jurídica e à confiança legítima. O mérito ainda será julgado, após manifestação do MPF.

Contexto do julgamento

O caso analisado pela Vara Federal Cível e Criminal da Subseção Judiciária de Paragominas-PA, nos autos do Mandado de Segurança Cível nº 1002183-67.2026.4.01.3906, envolve imóvel rural de 1.463,9936 hectares situado em Paragominas/PA, destinado a cultivo agrícola e à criação de bovinos. O impetrante afirma possuir Cadastro Ambiental Rural aprovado e Licença Ambiental Rural expedida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Paragominas/PA, além de ter concluído processo administrativo perante o IBAMA para levantamento de embargo anteriormente aplicado à propriedade.

Esse procedimento administrativo culminou na Informação Técnica nº 5/2024-EMI-PA/Ditec-PA/Supes-PA, de 19/01/2024, favorável ao levantamento da medida cautelar, e no Despacho Decisório nº 7/2024/DITEC-PA/SUPES-PA, de 23/01/2024, que deferiu o desembargo e reconheceu a extinção dos motivos que ensejaram a restrição, com fundamento no art. 15-B do Decreto nº 6.514/2008. Cerca de dois anos depois, em 05/02/2026, sobreveio o Despacho Decisório nº 1/2026/DITEC-PA/SUPES-PA, que restabeleceu o embargo sobre 949,17 hectares e condicionou novo levantamento à comprovação de aquisição de créditos de reposição florestal equivalentes a 94.917,00 m³, no prazo de 20 dias.

O impetrante pretende a suspensão do ato e das restrições decorrentes do Termo de Embargo e Interdição nº 354119-C, inclusive a exclusão dos registros dos sistemas corporativos do IBAMA e da lista pública de áreas embargadas, e, subsidiariamente, a fixação de prazo de até 90 dias para eventual cumprimento da obrigação. Sustenta que o restabelecimento gera restrições ao crédito rural e à comercialização da produção, diante das exigências de compliance ambiental na cadeia do agronegócio, e requer prioridade de tramitação por ser pessoa idosa.

Fundamentos da decisão

O núcleo da controvérsia é a possibilidade de a Administração reabrir situação jurídica consolidada por ato administrativo anterior. O impetrante invoca os arts. 6º e 24 do Decreto-Lei nº 4.657/1942 (LINDB), segundo os quais a lei em vigor respeita o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada, e a revisão de situações plenamente constituídas deve levar em conta as orientações gerais da época, vedada a declaração de invalidade com base em mudança posterior de interpretação. Argumenta que a Instrução Normativa IBAMA nº 8/2024, publicada em 27/03/2024, é posterior ao desembargo deferido em 23/01/2024 e, por isso, não poderia servir de fundamento para desconstituí-lo. Também alega incompetência do IBAMA para exigir reposição florestal, instituto que reputa distinto da reparação de dano ambiental, e sustenta tratar-se de área rural consolidada, por desmatamento ocorrido em meados de 2007, anterior ao marco temporal de 22/07/2008 previsto na Lei nº 12.651/2012.

A autoridade coatora, ao prestar informações, defendeu a legalidade do ato com base no art. 4º da Instrução Normativa IBAMA nº 8/2024, que arrola os documentos necessários à cessação dos efeitos das medidas de embargo, entre eles o comprovante de efetivação da reposição florestal obrigatória, sustentando que tal obrigação não foi criada pela instrução normativa, mas apenas operacionalizada por ela. A discussão remete, portanto, à distinção entre norma que inova na ordem jurídica e norma que regulamenta dever preexistente — questão central para saber se houve retroatividade vedada ou mera explicitação procedimental de exigência já incidente sobre o embargo ambiental.

Em plano subsidiário, o impetrante invoca o devido processo legal, o contraditório, a ampla defesa, a razoabilidade e a proporcionalidade, apontando a inexequibilidade material da aquisição de 94.917,00 m³ de créditos em 20 dias, com custo estimado em mais de R$ 379.000,00, e sustentando desvio de finalidade na utilização do embargo como mecanismo coercitivo para cumprimento de obrigação patrimonial. Registra ainda que o recurso administrativo interposto não havia sido apreciado até a impetração. O juízo recebeu a inicial, postergou a análise da tutela provisória de urgência para oportunizar o contraditório, determinou a intimação da Procuradoria-Geral Federal e notificou a autoridade impetrada. Depois das informações, deferiu o ingresso do IBAMA e concedeu a liminar: suspendeu os efeitos do Despacho Decisório nº 1/2026/DITEC-PA/SUPES-PA e do Termo de Embargo e Interdição nº 354119-C, com retirada da restrição dos sistemas de controle, e determinou que a autoridade se abstenha de restabelecer ou manter o embargo com fundamento exclusivo no ato suspenso, até ulterior deliberação. Para a juíza, em cognição sumária, a reativação decorreu da revisão do entendimento da própria Administração sobre a reposição florestal obrigatória, e não de nova infração ou de alteração da situação ambiental do imóvel, que a Informação Técnica nº 4/2026 registra como totalmente regular. Isso configura afronta à segurança jurídica, à confiança legítima e à boa-fé objetiva. A liminar não exime o impetrante das normas ambientais, das condicionantes das licenças e do PRA.

Alcance da decisão

A decisão não cita precedentes jurisprudenciais. Para conceder a liminar, a juíza se apoiou no art. 7º, III, da Lei nº 12.016/2009 e nos princípios da segurança jurídica, da confiança legítima e da boa-fé objetiva, previstos no art. 2º, caput e parágrafo único, XIII, da Lei nº 9.784/1999 e no art. 24 da LINDB. O art. 4º da Instrução Normativa IBAMA nº 8/2024, a autotutela do art. 53 da Lei nº 9.784/1999 e as Súmulas 346 e 473 do STF foram invocados pela autoridade coatora e não prevaleceram nesta fase.

Do ponto de vista prático, o julgado reforça duas orientações relevantes ao produtor rural. A primeira é procedimental: em mandado de segurança que discute ato administrativo ambiental de conteúdo técnico complexo, é legítimo ao juízo postergar a apreciação da liminar para após as informações da autoridade coatora, nos termos do rito da Lei nº 12.016/2009. A segunda é material: neste caso, a juíza entendeu, em juízo sumário, que o desembargo deferido com base no art. 15-B do Decreto nº 6.514/2008, depois de a própria Administração reconhecer a regularidade ambiental do imóvel, não podia ser revertido por mera revisão de entendimento sobre a reposição florestal, sem indicação de nova infração ou de mudança na situação ambiental, sob pena de ofensa à segurança jurídica e à confiança legítima.

Perguntas Frequentes

O IBAMA pode restabelecer um embargo já levantado anteriormente?
O restabelecimento pode ser questionado. No caso analisado, o Despacho Decisório nº 1/2026/DITEC-PA/SUPES-PA restabeleceu o embargo sobre 949,17 hectares cerca de dois anos após o desembargo, para exigir reposição florestal. A Justiça Federal em Paragominas/PA suspendeu o ato em liminar: entendeu que a reativação decorreu de revisão de entendimento da Administração, sem nova infração nem mudança da situação ambiental, o que afronta a segurança jurídica e a confiança legítima.
O que é reposição florestal e por que o IBAMA pode exigi-la para o desembargo?
A reposição florestal é a obrigação de compensar a supressão de vegetação nativa mediante aquisição de créditos equivalentes em volume, medidos em metros cúbicos. A Instrução Normativa IBAMA nº 8/2024 lista, em seu art. 4º, os documentos necessários à cessação dos efeitos do embargo, entre eles o comprovante de efetivação dessa reposição, que a autoridade sustenta ser obrigação preexistente apenas operacionalizada pela norma.
Uma instrução normativa posterior ao desembargo pode ser usada para restabelecê-lo?
Em regra, não, pois os arts. 6º e 24 do Decreto-Lei nº 4.657/1942 (LINDB) protegem o ato jurídico perfeito e vedam a invalidação de situação já consolidada com base em orientação superveniente. O ponto central da controvérsia é distinguir se a norma posterior criou obrigação nova ou apenas regulamentou dever que já existia antes do desembargo, o que definirá se há retroatividade indevida.
O que caracteriza área rural consolidada para fins de defesa contra embargo ambiental?
Área rural consolidada é aquela cujo uso alternativo do solo, como desmatamento para agricultura ou pecuária, ocorreu antes de 22 de julho de 2008, marco temporal fixado pela Lei nº 12.651/2012 (Código Florestal). No caso analisado, o impetrante alega desmatamento ocorrido em meados de 2007, argumento que, se comprovado, pode afastar exigências vinculadas a supressão posterior ao marco legal.
É possível suspender o embargo do IBAMA por meio de mandado de segurança?
Sim, o mandado de segurança é instrumento adequado para questionar atos administrativos ilegais ou abusivos do IBAMA, como o restabelecimento de embargo sem comprovação de nova infração. No caso analisado, o juízo ouviu antes a autoridade coatora e, em seguida, concedeu a liminar com base no art. 7º, III, da Lei nº 12.016/2009, suspendendo o ato e o embargo até ulterior deliberação. O mérito ainda será julgado.
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