RAPP falso ao IBAMA: STJ mantém condenação pelo art. 69-A da Lei 9.605/98
SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PENAL
Entre 2021 e 2023, no Município de Mâncio Lima/AC, uma empresa e dois de seus responsáveis apresentaram ao IBAMA Relatórios de Atividades Potencialmente Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais (RAPP) declarando falsamente que não comercializavam produtos perigosos, embora a atividade estivesse efetivamente em curso. A denúncia capitulou a conduta no art. 69-A, caput, da Lei nº 9.605/1998, praticada no interesse e em benefício da pessoa jurídica. A sentença condenou as pessoas físicas a 3 anos de reclusão em regime aberto, substituída por duas restritivas de direitos, e a pessoa jurídica a 100 dias-multa.
Discutiu-se se o RAPP, por ter natureza cadastral e declaratória, pode ser considerado estudo, laudo ou relatório ambiental para fins de tipificação do art. 69-A, caput, da Lei nº 9.605/1998, e se a conduta se esgotaria em infração administrativa à luz da intervenção mínima. Também se debateu a existência de dolo, a suficiência probatória quanto à gerente da empresa e a dosimetria da pena, além de alegado dissídio jurisprudencial pela alínea c do art. 105, III, da Constituição Federal.
No REsp 2274263/AC (2026/0202952-7), relatora Ministra Nilsoni de Freitas (Desembargadora convocada do TJDFT), o Superior Tribunal de Justiça, em decisão de 21/09/2026, conheceu em parte do recurso especial e, nessa extensão, negou-lhe provimento: aplicou a Súmula nº 211/STJ aos arts. 18, 44, 59 e 68 do Código Penal por falta de prequestionamento, a Súmula nº 7/STJ quanto ao dolo e à autoria e a Súmula nº 284/STF à alegação de intervenção mínima e à dosimetria, reputou inexistente o cotejo analítico exigido para a divergência e, no mérito, afirmou que o RAPP é relatório ambiental apto a configurar o crime do art. 69-A. Manteve-se, assim, o acórdão condenatório da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Acre.
Contexto do julgamento
A controvérsia teve origem em denúncia do Ministério Público do Estado do Acre relatando que, entre 2021 e 2023, no Município de Mâncio Lima/AC, uma sociedade empresária e dois de seus responsáveis apresentaram ao IBAMA Relatórios de Atividades Potencialmente Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais (RAPP) informando falsamente que não comercializavam produtos perigosos, embora a atividade estivesse em curso, no interesse e em benefício da pessoa jurídica. A conduta foi capitulada no art. 69-A, caput, da Lei nº 9.605/1998, que pune quem elabora ou apresenta estudo, laudo ou relatório ambiental total ou parcialmente falso ou enganoso, inclusive por omissão.
A sentença julgou procedente a pretensão punitiva, condenando as pessoas físicas a 3 (três) anos de reclusão em regime inicial aberto, com substituição por duas penas restritivas de direitos, e a pessoa jurídica a 100 dias-multa. Em apelação, a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Acre negou provimento por unanimidade, assentando que o crime do art. 69-A da Lei nº 9.605/1998 é formal, consumando-se com a inserção de informação falsa em relatório ambiental obrigatório, independentemente da ocorrência de dano, e que o caráter declaratório do RAPP não afasta a tipicidade.
No recurso especial dirigido ao Superior Tribunal de Justiça, a defesa sustentou que o RAPP teria natureza meramente cadastral e declaratória, não se enquadrando no objeto material do tipo; alegou ausência de dolo, com invocação do art. 18 do Código Penal; defendeu que o fato se esgotaria em infração administrativa já sancionada pelo IBAMA, à luz da intervenção mínima; apontou dissídio jurisprudencial; e, subsidiariamente, questionou a dosimetria com base nos arts. 44, 59 e 68 do Código Penal. O Ministério Público Federal opinou pelo não conhecimento do recurso.
Fundamentos da decisão
A relatora, Ministra Nilsoni de Freitas (Desembargadora convocada do TJDFT), no REsp 2274263/AC (2026/0202952-7), decisão de 21/09/2026, começou por registrar que os embargos de declaração opostos na origem delimitaram expressamente os dispositivos cujo prequestionamento se pedia — art. 69-A, caput, da Lei nº 9.605/1998; arts. 17 e 17-C da Lei nº 6.938/1981; art. 386, III e VII, do Código de Processo Penal; e art. 29 do Código Penal —, sem incluir o art. 18 nem os arts. 44, 59 e 68 do Código Penal. Daí a incidência da Súmula nº 211/STJ sobre as teses de ausência de dolo e de revisão da pena.
Quanto ao elemento subjetivo, a decisão destacou que o acórdão estadual consignou que as provas evidenciam a declaração falsa de ausência de comercialização de produtos perigosos apesar de a atividade estar em curso, e que a corré exercia a função de gerente e representante da empresa perante a fiscalização ambiental, ciente das informações que lhe incumbia prestar. Infirmar tais conclusões — para sustentar erro de classificação dos produtos, culpa em lugar de dolo ou insuficiência probatória — exigiria revolvimento do acervo fático-probatório, vedado pela Súmula nº 7/STJ, conforme o precedente citado na própria decisão: AgRg no AREsp n. 600.122/MS, relator Ministro Walter de Almeida Guilherme (Desembargador Convocado do TJ/SP), Quinta Turma, julgado em 18/12/2014, DJe de 2/2/2015.
A alegação de intervenção mínima, deduzida sob os princípios da subsidiariedade, proporcionalidade e lesividade, foi rejeitada por deficiência de fundamentação: não se indicou dispositivo de lei federal contrariado, incidindo a Súmula nº 284/STF, e o recurso especial não comporta exame de matéria constitucional. A decisão não chegou a enfrentar o mérito da relação entre as esferas: a tese de que a conduta seria mera infração administrativa, já sancionada pelo IBAMA, foi rejeitada por deficiência de fundamentação recursal (Súmula 284/STF) e por veicular matéria constitucional. A divergência jurisprudencial sequer se esboçou: no lugar da indicação do paradigma, a petição trazia apenas uma anotação pedindo que se indicassem acórdãos de Tribunais Regionais Federais com leitura restritiva do art. 69-A, sem ementa, repositório autorizado ou cotejo analítico. A tese de dosimetria também não foi admitida, por fundamento autônomo: a pena-base já fora fixada no mínimo legal e a substituição por restritivas de direitos já fora deferida na sentença, o que atraiu a Súmula nº 284/STF e afastou o interesse recursal. Conhecido o recurso apenas quanto ao art. 69-A, a relatora negou-lhe provimento no mérito: o tipo alcança o relatório apresentado em «qualquer outro procedimento administrativo», e o RAPP, exigido anualmente pelo art. 17-C, § 1º, da Lei nº 6.938/1981, é declaração obrigatória de conteúdo ambiental, cuja natureza autodeclaratória é justamente o que confere relevo penal à falsidade.
Alcance da decisão
No REsp 2274263/AC, relatora Ministra Nilsoni de Freitas (Desembargadora convocada do TJDFT), decisão de 21/09/2026, o Superior Tribunal de Justiça conheceu do recurso quanto ao art. 69-A, caput, da Lei nº 9.605/1998 e, no mérito, afirmou que o RAPP, relatório obrigatório previsto no art. 17-C, § 1º, da Lei nº 6.938/1981 e apresentado em procedimento administrativo federal de controle e fiscalização, é objeto material do crime, alcançado pela cláusula «qualquer outro procedimento administrativo»; que o seu caráter autodeclaratório não afasta a tipicidade, antes lhe dá relevo penal; e que o delito se consuma com a inserção de informação falsa em relatório ambiental obrigatório, independentemente de dano, que figura apenas como causa de aumento (art. 69-A, § 2º). Em igual medida, a condição de gerente e representante da empresa perante a fiscalização ambiental foi reputada suficiente, no plano probatório soberanamente fixado pelas instâncias ordinárias, para sustentar autoria e dolo.
No plano processual, a decisão reitera três balizas de admissibilidade: a exigência de prequestionamento específico dos dispositivos federais (Súmula nº 211/STJ); a impossibilidade de reexame de provas em recurso especial (Súmula nº 7/STJ), na linha do AgRg no AREsp n. 600.122/MS, relator Ministro Walter de Almeida Guilherme (Desembargador Convocado do TJ/SP), Quinta Turma, julgado em 18/12/2014, DJe de 2/2/2015; e a necessidade de cotejo analítico e demonstração de similitude fática para o conhecimento pela alínea c, nos termos dos arts. 1.029, § 1º, do CPC/2015 e 255, §§ 1º e 2º, do RISTJ, como decidido no RCD no REsp n. 2.177.164/SP, relator Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, julgado em 4/12/2024, DJEN de 9/12/2024. A ausência de indicação do preceito infraconstitucional violado, por sua vez, atrai a Súmula nº 284/STF.