TRF1 valida autuação do IBAMA por desmatamento sem licença
Jurisprudência Ambiental

TRF1 valida autuacao IBAMA por desmatamento sem licenca ambiental

31/01/2019 TRF-1 Apelação Cível Processo: 0004596-63.2013.4.01.3603

QUINTA TURMA

Fato

O IBAMA autuou e embargou área de 126 hectares por desmatamento de floresta amazônica realizado sem licenciamento ambiental prévio. O proprietário questionou a validade da autuação alegando aplicação do artigo 66 do Novo Código Florestal e incompetência do órgão federal.

Questão jurídica

O tribunal analisou se o artigo 66 do Novo Código Florestal invalidaria autuações por desmatamento e se o IBAMA possui competência para fiscalizar atividades licenciadas por outros órgãos. Também examinou a natureza do Cadastro Ambiental Rural (CAR) como prova de regularidade.

Resultado

O TRF1 manteve a validade da autuação do IBAMA, reconhecendo que o artigo 66 do Código Florestal não invalida atos administrativos pretéritos. A Quinta Turma confirmou a competência comum dos entes federativos para fiscalização ambiental e a natureza meramente declaratória do CAR.

Contexto do julgamento

O caso em análise envolveu autuação realizada pelo IBAMA em face de desmatamento de 126 hectares de floresta amazônica sem o devido licenciamento ambiental prévio. A supressão da vegetação nativa ocorreu em violação às normas que estabelecem como área de reserva legal o correspondente a 80% do imóvel rural na região amazônica, conforme previsto tanto no antigo quanto no atual Código Florestal.

O proprietário da área questionou judicialmente a validade da autuação, sustentando que o artigo 66 do Novo Código Florestal (Lei 12.651/2012) teria o condão de invalidar os atos administrativos praticados pelo IBAMA. Ademais, alegou incompetência do órgão federal para fiscalizar atividade sujeita ao licenciamento por outros entes federativos, bem como apresentou o Cadastro Ambiental Rural (CAR) como prova da regularidade da atividade.

A controvérsia ganhou relevância por abordar questões fundamentais sobre os limites temporais da aplicação do Novo Código Florestal, a competência concorrente dos órgãos ambientais para fiscalização e a natureza jurídica dos instrumentos de regularização ambiental introduzidos pela nova legislação.

Fundamentos da decisão

O Tribunal Regional Federal da 1ª Região fundamentou sua decisão na distinção clássica entre existência, validade e eficácia dos atos administrativos. Reconheceu que o artigo 66 do Código Florestal, embora permita a regularização de passivos ambientais mediante adesão ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), não possui efeito retroativo capaz de invalidar atos administrativos já constituídos. Estes permanecem como atos jurídicos perfeitos, podendo apenas ter sua exigibilidade suspensa durante o cumprimento das obrigações de regularização.

Quanto à competência para fiscalização, o tribunal aplicou o entendimento consolidado no Superior Tribunal de Justiça de que a proteção ambiental constitui competência material comum de todos os entes federativos, conforme artigo 23, incisos VI e VII da Constituição Federal. Essa competência concorrente autoriza qualquer dos entes a exercer o poder de polícia ambiental, independentemente de quem detém a atribuição para o licenciamento da atividade. O embargo ambiental configura medida cautelar legítima para cessar danos ao meio ambiente, podendo ser aplicada por qualquer órgão competente que primeiro tomar conhecimento da infração.

O julgado também esclareceu a natureza jurídica do Cadastro Ambiental Rural, qualificando-o como instrumento de natureza autodeclaratória que não possui, por si só, o condão de comprovar a regularidade ambiental da propriedade. O CAR constitui banco de dados para fins de controle, monitoramento e combate ao desmatamento, mas não substitui os procedimentos de licenciamento nem afasta a incidência do poder de polícia ambiental sobre atividades irregulares.

Teses firmadas

A decisão consolidou importantes precedentes sobre a aplicação temporal do Novo Código Florestal e os limites da competência fiscalizatória ambiental. Ficou estabelecido que a Lei 12.651/2012 não possui efeito retroativo para invalidar autuações realizadas sob a vigência da legislação anterior, mantendo-se íntegros os atos administrativos constituídos no exercício regular do poder de polícia. A possibilidade de regularização posterior não compromete a validade dos atos punitivos, podendo apenas suspender sua exigibilidade durante o cumprimento das obrigações ambientais.

O acórdão também reforçou a jurisprudência do STJ sobre competência concorrente em matéria ambiental, estabelecendo que todos os entes federativos possuem o dever-poder de agir imediatamente diante de infrações ambientais, independentemente da distribuição de competências para licenciamento. Esta tese fortalece a efetividade da proteção ambiental ao eliminar possíveis lacunas de fiscalização decorrentes de disputas de competência entre os órgãos ambientais dos diferentes níveis federativos.

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