Jurisprudência Ambiental

Invasões em parque estadual: STJ fixa execução subsidiária do poder público

18/09/2026 STJ Recurso Especial Processo: 0000269-58.2019.8.19.0005

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro ajuizou ação civil pública contra o Município de Arraial do Cabo, o Estado do Rio de Janeiro, o INEA e pessoas não identificadas, após o Relatório de Vistoria INEA nº 586/2018 constatar construções clandestinas no interior do Parque Estadual da Costa do Sol, unidade de conservação de proteção integral criada pelo Decreto Estadual nº 42.929/2011. As edificações, padronizadas e erguidas em série sobre vegetação de restinga fixadora de dunas, sem água, energia legalizada ou esgotamento sanitário, avançaram exponencialmente em poucos meses, conforme comparação de imagens de satélite e o Relatório INEA nº 01/2019.

Questão jurídica

Discutiu-se se a responsabilidade dos entes públicos por omissão no dever de fiscalização ambiental é objetiva e solidária ou subjetiva, e se, reconhecida a solidariedade, caberia benefício de ordem para execução prioritária contra os particulares causadores diretos do dano. Debateu-se também o cabimento da condenação de entes públicos em honorários sucumbenciais em ação civil pública, à luz do art. 18 da Lei nº 7.347/1985.

Resultado

No REsp 2173352/RJ (2024/0365690-0), relatado pelo Ministro Francisco Falcão no STJ, os recursos do Município de Arraial do Cabo, do Estado do Rio de Janeiro e do INEA foram apreciados conjuntamente, com parecer do Ministério Público Federal pelo não conhecimento. Em decisão monocrática, o relator deu parcial provimento aos recursos para assegurar a execução subsidiária dos entes públicos, que só respondem se os causadores diretos do dano não cumprirem as obrigações, e para afastar a condenação em honorários sucumbenciais, aplicando por simetria o art. 18 da Lei nº 7.347/1985.

Contexto do julgamento

A controvérsia examinada no REsp 2173352/RJ (2024/0365690-0), de relatoria do Ministro Francisco Falcão no Superior Tribunal de Justiça, com decisão datada de 18/09/2026, tem origem em ação civil pública proposta pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro contra o Município de Arraial do Cabo, o Estado do Rio de Janeiro, o Instituto Estadual do Ambiente (INEA) e pessoas não identificadas. O objetivo era impedir ocupações e construções clandestinas em área inserida no Parque Estadual da Costa do Sol, na Região dos Lagos fluminense, além de obter a demolição das edificações irregulares, a retirada de entulhos e a recuperação ambiental da área degradada.

O lastro probatório da demanda foi o Relatório de Vistoria INEA nº 586/2018, realizado em 08/09/2018, que denunciou a edificação clandestina no interior do Parque Estadual da Costa do Sol, unidade de conservação estadual de proteção integral instituída pelo Decreto Estadual nº 42.929/2011. O Relatório INEA nº 01/2019 identificou as áreas invadidas na localidade Figueira/Novo Arraial do Cabo/Sabiá, na Rua Caminho Verde, e demonstrou, por comparação de fotografias de satélite, o crescimento exponencial das construções em poucos meses. Relatórios de vistoria da Secretaria Municipal de Ambiente confirmaram o avanço da ocupação, com marcação irregular de lotes para futura invasão.

As edificações apresentavam padrão uniforme: cerca de 16 metros quadrados em alvenaria, cômodo único, uma porta e uma janela, sem fornecimento legalizado de água e energia elétrica, sem esgotamento sanitário e erguidas sobre vegetação de restinga fixadora de dunas. A construção ocorria à noite e nos fins de semana, o que dificultava o exercício do poder de polícia e justificou o deferimento da demolição em tutela de urgência. A sentença julgou procedente o pedido, condenando solidariamente os réus à retirada dos entulhos e à reparação dos danos, com plano de recuperação em 30 dias do trânsito em julgado e honorários de 10% sobre o valor da causa (R$ 50.000,00) ao Fundo Especial do Ministério Público estadual. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro negou provimento às apelações e rejeitou os embargos de declaração.

Fundamentos da decisão

O acórdão recorrido partiu do art. 225 da Constituição Federal de 1988, que qualifica o meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito de todos e impõe ao Poder Público o dever de defendê-lo, combinado com o art. 23, VI, da Constituição Federal de 1988, que fixa a competência comum dos entes federativos para proteger o meio ambiente e combater a poluição. Dessa repartição decorre, no entendimento adotado, a responsabilidade solidária de União, Estados e Municípios quando a degradação resulta de falha no dever de fiscalização, instrumento que se materializa em medidas como autuação, interdição e embargo ambiental das obras irregulares.

O Tribunal de origem consignou que o dano decorrente de edificação no interior de um parque estadual está diretamente relacionado à ação fiscalizatória insuficiente dos órgãos integrantes do SISNAMA, aos quais compete zelar pela unidade de conservação e fazer observar o regime jurídico de uso estabelecido pela Lei nº 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Registrou, ainda, que o art. 37, § 6º, da Constituição Federal de 1988 não excepciona do regime de responsabilidade objetiva do Estado os danos causados por omissão no exercício do poder de polícia.

Nas razões recursais, o Estado do Rio de Janeiro e o INEA apontaram violação dos arts. 43 e 403 do Código Civil e do art. 18 da Lei nº 7.347/1985, sustentando que a responsabilidade estatal por omissão é subjetiva, que inexistiria nexo causal direto diante de condutas criminosas de terceiros e que seriam indevidos honorários sucumbenciais em ação civil pública, pleiteando, subsidiariamente, solidariedade com execução subsidiária. O Município de Arraial do Cabo alegou ofensa aos arts. 3º e 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981, defendendo benefício de ordem para execução prioritária contra os particulares causadores diretos, com direito de regresso. Quanto à verba honorária, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro interpretou o art. 18 da Lei nº 7.347/1985 a contrario sensu, por entender que os réus não enfrentaram obstáculos econômicos de acesso à jurisdição. O Ministério Público Federal opinou pelo não conhecimento dos recursos.

Alcance da decisão

Conforme o inteiro teor disponível do REsp 2173352/RJ (2024/0365690-0), Relator Ministro Francisco Falcão, Superior Tribunal de Justiça, decisão de 18/09/2026, o relator reafirmou a jurisprudência consolidada do STJ, inclusive a Súmula 652/STJ, segundo a qual a omissão dos entes públicos no dever de fiscalização ambiental gera responsabilidade objetiva e solidária, mas de execução subsidiária. Por isso, deu parcial provimento aos recursos especiais: primeiro devem ser identificados e responsabilizados os causadores diretos do dano, e os entes públicos só suportam a execução se for comprovado que esses responsáveis não podem cumprir as obrigações, assegurado o direito de regresso contra eles, caso identificados.

A decisão também reformou o acórdão quanto aos honorários. Com base no entendimento da Corte Especial do STJ no EREsp 1.304.939/RS, o relator aplicou por simetria o art. 18 da Lei nº 7.347/1985: em ação civil pública proposta pelo Ministério Público, sem má-fé comprovada, o réu vencido também não paga honorários sucumbenciais. Com isso, ficou afastada a condenação em honorários que havia sido destinada ao Fundo Especial do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.

Perguntas Frequentes

Quando estado e município respondem solidariamente por dano ambiental?
Estado e município respondem solidariamente quando a degradação decorre de omissão no dever de fiscalização, mas a execução é subsidiária, conforme a Súmula 652/STJ, aplicada no REsp 2173352/RJ. Primeiro se cobram os causadores diretos do dano, e os entes públicos só suportam a execução se eles não puderem cumprir as obrigações. Isso ocorre porque o art. 23, VI, da Constituição Federal de 1988 estabelece competência comum dos entes federativos para proteger o meio ambiente, de modo que a falha de um órgão do SISNAMA não afasta a responsabilidade dos demais entes públicos envolvidos na área degradada.
A responsabilidade do Estado por omissão fiscalizatória ambiental é objetiva ou subjetiva?
Segundo o julgado do STJ, que reafirmou sua jurisprudência consolidada, a responsabilidade é objetiva e solidária, mas de execução subsidiária. O Tribunal de origem já havia invocado o art. 37, § 6º, da Constituição Federal de 1988, que não excepciona os danos causados por omissão no exercício do poder de polícia. Essa tese foi reafirmada mesmo diante do argumento dos entes públicos de que a responsabilidade por omissão deveria ser subjetiva, prevalecendo o regime objetivo do poluidor previsto no art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/1981.
O que caracteriza construção clandestina em unidade de conservação de proteção integral?
Construção clandestina em unidade de conservação de proteção integral é a edificação irregular erguida sem autorização em área protegida por decreto estadual ou federal, como ocorreu no Parque Estadual da Costa do Sol, instituído pelo Decreto Estadual nº 42.929/2011. No caso analisado pelo STJ, as edificações tinham padrão uniforme de cerca de 16 metros quadrados, sem infraestrutura legalizada, construídas sobre vegetação de restinga fixadora de dunas.
Réus em ação civil pública ambiental sempre pagam honorários ao Ministério Público?
Não. Quando a ação civil pública é proposta pelo Ministério Público e não há má-fé comprovada, o STJ aplica por simetria o art. 18 da Lei nº 7.347/1985 e afasta os honorários sucumbenciais também em favor do réu. No caso analisado, o STJ afastou a condenação de 10% sobre o valor da causa que as instâncias de origem haviam destinado ao Fundo Especial do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
Quem fiscaliza ocupações irregulares dentro de parques estaduais?
A fiscalização de ocupações irregulares em parques estaduais compete aos órgãos integrantes do SISNAMA, que devem zelar pela unidade de conservação conforme o regime da Lei nº 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. No caso julgado pelo STJ, essa competência recaiu sobre o INEA, o Estado do Rio de Janeiro e o Município de Arraial do Cabo, todos condenados solidariamente pela omissão fiscalizatória, mas com execução subsidiária em relação aos causadores diretos do dano.
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