Jurisprudência Ambiental

STJ suspende ação de desapropriação indireta no Parque Nacional do Juruena

18/09/2026 STJ Agravo em Recurso Especial Processo: 1012100-33.2022.4.01.0000

SPF COORDENADORIA DE PROCESSAMENTO DE FEITOS DE DIREITO PÚBLICO

Fato

Uma empresa agropecuária e outros proprietários ajuizaram ação contra a União e o ICMBio pleiteando indenização por desapropriação indireta de imóveis rurais em Apiacás (MT), afetados pela criação do Parque Nacional do Juruena, com pedido alternativo de reintegração de posse. A União e o ICMBio alegaram prescrição quinquenal, ausência de apossamento (mera limitação administrativa) e nulidade dos títulos imobiliários, inclusive por incidência sobre a Terra Indígena Apiaká do Pontal e Isolados. O juízo de primeiro grau suspendeu o feito diante de demanda conexa sobre a validade dos títulos dominiais, mas o TRF da 1ª Região afastou a suspensão.

Questão jurídica

Discutiu-se se a ação que questiona a validade dos títulos dominiais da área incidente em unidade de conservação federal configura questão prejudicial externa obrigatória, apta a autorizar a suspensão da ação de desapropriação indireta com fundamento no art. 313, V, "a", do CPC/2015. No acórdão de origem, o TRF da 1ª Região também havia excluído a União do polo passivo, diante da atribuição legal do ICMBio (Lei nº 11.516/2007), e admitido sua intervenção como assistente simples (art. 119 do CPC/2015), pontos que a decisão do STJ não examinou.

Resultado

No AREsp 3300852/DF (2026/0262287-0), o Ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça, em decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 18/09/2026, afastou o óbice da Súmula 7/STJ por se tratar de questão jurídica e deu provimento aos recursos especiais da União e do ICMBio para suspender o feito, restaurando a decisão de primeira instância. O relator entendeu que o procedimento de demarcação de terra indígena que se sobrepõe em parte aos imóveis influencia diretamente a pretensão indenizatória, porque essas terras pertencem à União (art. 20, XI, da Constituição) e, reconhecida a qualificação, só caberia indenização pelas benfeitorias de boa-fé (art. 231, § 6º, da Constituição), o que justifica a suspensão do processo expropriatório indireto.

Contexto do julgamento

A controvérsia nasceu de ação ajuizada por uma empresa agropecuária e por proprietários rurais contra a União e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), na qual se pretendia indenização por desapropriação indireta de imóveis rurais situados no município de Apiacás (MT), além de indenização pelas benfeitorias realizadas no local, com pedido alternativo de reintegração na posse. O fundamento da pretensão é a alegada afetação de área privada pela criação do Parque Nacional do Juruena, sem regular procedimento expropriatório e sem pagamento de justa indenização.

Em contestação, a União arguiu a prescrição quinquenal contada da edição do decreto de criação da unidade, sustentando que não houve apossamento administrativo, mas apenas limitações administrativas, e apontou a nulidade dos títulos imobiliários diante de vedação constitucional vigente à época da alienação. O ICMBio, por sua vez, suscitou conexão com a ação civil pública nº 0005469-77.2010.4.01.3600 e com a ação de nulidade nº 0000432-66.2009.811.0084, além de sustentar que a área pleiteada estaria inserida em território de posse tradicional indígena denominado Terra Indígena Apiaká do Pontal e Isolados, com consequente nulidade dos títulos frente ao direito originário indígena.

O juízo de primeira instância suspendeu o processo em razão da demanda conexa sobre a validade dos títulos dominais. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, no agravo de instrumento nº 1012100-33.2022.4.01.0000, deu parcial provimento ao recurso dos particulares para afastar a suspensão, mantendo a exclusão da União do polo passivo — por atribuir ao ICMBio a responsabilidade pelas medidas expropriatórias decorrentes da criação de unidades de conservação federais, nos termos da Lei nº 11.516/2007 — e admitindo a União como assistente simples, na forma do art. 119 do CPC/2015, afastada a assistência litisconsorcial do art. 124 do CPC/2015.

Fundamentos da decisão

No AREsp 3300852/DF (2026/0262287-0), o Ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça, em decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 18/09/2026, começou por afastar a incidência do Enunciado Sumular n. 7/STJ suscitado em contrarrazões, ao registrar que a questão debatida é jurídica e que cabe àquela Corte uniformizar a interpretação da lei federal. Superado o óbice, conheceu do agravo e deu provimento aos recursos especiais da União e do ICMBio para determinar a suspensão do feito, restaurando a decisão de primeira instância.

O eixo da análise é o art. 313, V, “a”, do CPC/2015, que autoriza a suspensão do processo quando a sentença de mérito depender do julgamento de outra causa. O ICMBio sustentou que existe antecedência lógica e jurídica entre a definição da validade dos títulos de domínio e o próprio cabimento da pretensão indenizatória. Ao acolher os recursos, o relator lembrou que a suspensão por prejudicialidade serve principalmente para evitar decisões contraditórias e que o prazo de um ano do § 4º do art. 313 pode ser flexibilizado conforme as peculiaridades do caso (RMS 61.308/MG). O ponto decisivo foi a sobreposição parcial dos imóveis à pretensa área indígena em demarcação: esse procedimento influencia diretamente a pretensão indenizatória, porque as terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas pertencem à União (art. 20, XI, da Constituição) e, reconhecida essa qualificação, não cabe indenização pela perda da propriedade ou da posse, mas apenas pelas benfeitorias derivadas da ocupação de boa-fé (art. 231, § 6º, da Constituição). O ICMBio invocou ainda o art. 313, § 4º, do CPC/2015, e ambos os recorrentes apontaram negativa de prestação jurisdicional com base nos arts. 489 e 1.022 do CPC/2015, tendo a União sustentado que o prosseguimento do feito implicaria perícia de elevado custo e atos processuais complexos com risco de total inutilidade, em afronta à eficiência e à economicidade.

A decisão tem relevância prática direta para o contencioso de áreas inseridas em unidades de conservação, em que a discussão dominial frequentemente precede a fase indenizatória e convive com medidas administrativas restritivas, como o embargo ambiental de atividades no interior do parque. Registre-se que o Ministério Público Federal, no parecer juntado aos autos, opinou pelo não provimento dos recursos.

Alcance da decisão

Extrai-se do julgado que, quando a área afetada por unidade de conservação se sobrepõe, ainda que em parte, a terra indígena em demarcação e há ação discutindo a validade dos títulos dominiais, cabe suspender a ação de desapropriação indireta com base no art. 313, V, “a”, do CPC/2015, porque o reconhecimento da terra indígena afasta a indenização pela perda da propriedade ou da posse e a limita às benfeitorias de boa-fé, o que vai além da simples definição do valor devido. Esse entendimento se contrapõe ao do acórdão recorrido do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, proferido no agravo de instrumento nº 1012100-33.2022.4.01.0000, segundo o qual a ação paralela sobre os títulos apenas poderia suspender o pagamento da indenização até o deslinde da controvérsia dominial.

Permanecem como balizas do mesmo acórdão de origem, não alteradas pela decisão monocrática no ponto, a atribuição ao ICMBio da implementação, fiscalização e das medidas expropriatórias decorrentes da criação de unidades de conservação federais, nos termos da Lei nº 11.516/2007, com a consequente ilegitimidade passiva da União nas ações de desapropriação indireta, e a admissão da União como assistente simples (art. 119 do CPC/2015), afastada a assistência litisconsorcial qualificada do art. 124 do CPC/2015. A decisão do Superior Tribunal de Justiça é o AREsp 3300852/DF (2026/0262287-0), Rel. Min. Francisco Falcão, decisão monocrática disponibilizada no DJEN em 18/09/2026.

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